
Igor ANATOLI
Trechos de livros e trabalhos do autor
1
Necromânticos estão criando súditos
Povoando com cadáveres cidades
Todos esquecemos que somos únicos
Destruímos nossas mais belas partes
Longínquos desertos, cantos obscuros
Existem pessoas por trás de muros
Sob o olhar sempre atento e tenebroso
De criaturas malignas, de monstros
Homens, elas são largadas por lá!
Pois os grandes juizes não amam
E os homens comuns não sabem julgar
Sabeis que homens são mais que imagens
São a junção de sonho e sentimentos,
Corpo e espírito, de dores e medos.
2
Arde-me as entranhas em agonia
Qual meu crime e que anjo me castiga
Sem o pesar do ventre e sua ferida
Da boca que expelindo sangue grita
Ao mal, como castigo a dor não basta
É preciso mais, destruir o sonho
Maldizer a alma, odiar o corpo
Tudo perder-se, não restar-me nada
Mire a pena de um punhal de prata
Que abre o ventre que atravessa contraído
Indiferente as vísceras que rasga
Quanto ao fim, não importa a que rezava
Visto os pecados, desde já expiados
Posto que o sonho, desde já perdido.
3
Meu amado deu-me filhos, fez-me filha
Entre os nobres foi um deles, soube amar
Foi um sábio e entre os sábios, uma ilha
Como a noite, às estrelas, é o luar
Minha amada fez-me filho, deu-me filhas
Fez em mim grandes coisa, fez-me amar
Deu-me vida e à vida, maravilhas
E maravilhas que refletem meu olhar
Quisera as flores esta data festejassem!
- E se estas árvores, minha senhora, então falassem
- Elas hoje, meu senhor, sei, cantariam
Mas como emudecidas, vês, se calam
Os pássaros voam e cantando falam
Traduzindo o que as árvores fariam
4
Se perderá o homem que por hora
Ousar em tuas glórias a ventura
Alheio por completo a este relato
Que se atém tanto a dor quanto a ternura
O amor é uma estrada redentora
Tapeada de constantes infortúnios
Não isenta no entanto de fracassos
Eternos em lamentos e murmúrios
Pois tudo cessa, o mundo se desfaz
Certeza dos poetas em seus cantos
Chorar amores, renegar a paz
Por ser vão o garbo em toda luta:
Sempre acordamos novamente em prantos
Em dores ofegantes e labuta
5
Rica melodia de cantores
Tudo dela minha arte distancia
Verso pobre, minha triste poesia
Que aguça nos que sofrem suas dores
A cantiga não eterniza amores
Mas confere a juventude alegria
Como também quis ser alegre um dia
Mas me perdi entre poemas traidores
Calo-me, pois é escassa a poesia
Ouço os menestréis, bardos foliões
Entoarem o que chamam de alegria
Mas a felicidade é passageira,
Não engana infelizes corações
Que comigo chorarão a vida inteira
6
Se o amor for a dor que me angustia
E a saudade severa punição
Que ela não me puna sem razão
Mas na certeza de saciar-se um dia
Dor ingrata, que imensa covardia!
Rasga e lacera o peito sem perdão
Homenagem que rende um coração
Não maior que a homenagem que rendia
É um querer o que ainda me é ardente
Busca que dá causa a minha loucura
Na ausência do que outrora foi presente
E ver fracasso ao fim desta procura
É a dor mais amarga que se sente
A mais insana e inglória desventura
7
Foi-me o degredo grande desatino
Tive medo de em busca prosseguir
Seguir caminhos sem saber aonde ir
Receio de surpresas do destino
Tive medo como teme um menino
Que chora sem saber para onde ir
Alheio aos mistérios do porvir
Inerentes ao intento peregrino
Maldita sina! Acres dissabores
Serviram-me numa taça com fel
Alimentando meus maiores temores
Grito ao céu pelo que em mim se encerra:
Venha-me uma vida ainda mais cruel
Sem me afastar do chão de minha terra
8
Quanta ingratidão, Coração choroso!
Inúmeras vezes eu fui contigo
Acreditando que me era amigo
Prisioneiro de um mundo mentiroso
Perdi-me e perdido onde prossigo
Ainda ostento um olhar lastimoso
Retratando um destino desditoso
Que legou-me pesares por castigo
Trago suas perdas, rude Coração
Com lembranças feridas do verão
Entre cores que o inverno desbotou
Restam tons de uma vida acinzentada
Preço que sua vinda me custou
Feriu e magoou, sem lucrarmos nada
9
O mar que surge a noite em nostalgia
Solidão guardou-me sempre e no entanto
Fez desejo onde outrora havia pranto
E sorrir quando já não mais sorria
Mulher de lindas formas (forma esguia!)
Alheia ao belo e de fascínio tanto
Que findou meu fardo e calou meu pranto
P`ra inspirar outro cantar à poesia
Suave e delicada, doce menina!
Atributos pelos quais me encantava
Encanto como em sonho se imagina
Com um brilho repleto de magia
Da lua que no céu me iluminava
Da estrela que no mar me seduzia
10
Guarda-me a noite bem mais que boêmia
Às vezes dor, nem sempre inspiração
Pranto às vezes e às vezes sem razão
Se acolhesse o céu a oração
Que o dia recolhe ao coração
Escondendo o que a noite lembraria
Noturno céu de fascinantes astros!
Tão intenso brilho, tão belos rastros
Mas não inspiram poesia a esta fala
Pois inda busco insano aquela estrela
E me fiz homem ao ousar compreendê-la
E poeta ao atrever-me a decantá-la
11
Ferino espinho de uma doce flor
Incomodo amargo ao coração
Incontido em estranha inspiração
Que põe-se a decantar ingrata dor
Rude roseira, traiçoeira paixão
Celebrarei a lembrança onde for
Com o anseio inerente ao sonhador
Que nutre de saudade uma ilusão
E hei de embriagar-me, conhecer torpor
Que me inspire em doloroso ardor
Ver na rude flor minha flor dileta
Puro encanto, fascínio sedutor!
Quem fascina e fere senão o amor,
A mais nobre confissão de um poeta
12
Há um mundo aqui dentro prisioneiro
Em busca da liberdade dos versos
A um peito de sentimentos adversos
Que sobrevoam minha alma em nevoeiro
São amigos e caros companheiros
De intentos comumente controversos
Instigam a dor, incitam os versos
Como os sonhos são amigos traiçoeiros
Mas não me basto, ainda que magoado
Da catarse do verso apaixonado
Que busca a um mundo aflito liberdade
Quero a mais doce e tenra inspiração
Gritos desesperados de saudade
Declarações sublimes de paixão
13
Não sei se é ventura ou ousadia
Seduzido ser pelo horizonte
E na glória de seu mais alto monte
Ver distante a glória que queria
Prossigo, busco um destino que aponte
Outro objetivo, mar de calmaria
Como o sedento que busca um dia
Saciar-se plenamente em tenra fonte
Se outra opção tivesse para a vida
Diferente desta a mim escolhida
E distinto de um destino como esse
Renegaria esta infame ousadia
E outro caminho então escolheria
Se a vida uma vez mais não escolhesse
14
A canção que cantei mais tenramente
Foi a mesma da maior desilusão
Que coincidiu com doce inspiração
Nascida de uma dor funda e pungente
Teu gosto pela mágoa, coração,
É liberdade do que te é latente
Que em poesia te escapa docemente
Quando amargura te instiga a canção
Mas um dia ( e que ele não demore)
Me virá uma inspiração maior
Para que toda vida eu comemore
Com alegria tanta e tão contente
Que qualquer canto há de ecoar menor
Que as canções que entoarei eternamente
15
Encantos de uma noite envergonhada
Frente as carícias próprias dos amantes
Isenta das dores que sentira antes
Só beijos de uma dama apaixonada
Não mais que o pastoreio da manada
Por vales e montanhas deslumbrantes
Ter dos campos os sabores e as fontes
E o aconchego dos braços da amada
Anseio que inda guarda o menino
Esquecido, desbotado em poesia
Como ingrata recusa do destino
Mas certo que este sonho não é meu
O poeta não comete a ousadia
De crer no que o poema prometeu
16
Se houvesse do silêncio seu torpor
Não teria mais que luzes da estrada
Receio de seguir sem levar nada
E perder os motivos de compor
Preço este de ver desacreditada
A esperança e trocá-la pela dor
Como quem parte e vendo o sol se pôr
Reconhece sua alma apaixonada
Justa troca: ter praias à memória
Solos férteis a sonho e coqueirais
Com templos que de um povo guarda a glória
Mas não me restou beleza, há saudade
Pelos sorrisos que não vejo mais
(certeza que nem tudo foi verdade)
17
Quantas vezes me deixei enganar
Pelas aparências, esta traidora
De lindas formas (forma sedutora!)
Que fascinam e encantam meu olhar
Errei, e outras mil vezes vou errar
Não mais por esta rude impostora
Mas para tudo que um dia já se fora
Não se renda ao medo de tentar
Hoje vejo a cidade equivocar-se
Em preconceitos e medos que enganam
E encobrem a verdade em vil disfarce
Tolero, não cabe a mim questionar
A quem caberá? Os juizes não amam
E os homens comuns não sabem julgar
18
Corações ariscos: trauma profundo
Que vai além de si mesmo e inspira
A aproximação do sonho à mentira
E o sincero ao que é tido por imundo
Eis a mágoa, sentimento infecundo
Que de tudo que é belo guarda ira
A lembrança da perda e de mentira
Desprezando o mais nobre deste mundo
Alma aflita, corações maltratados
Perdida a esperança, sonhos frustrados
Com sua perda nunca ressarcida
Mas a vítima é como o autor do crime
Que recusa provar o que é sublime
E alheio vai desmerecendo a vida
19
O poeta é um eterno enamorado
E pela vida de amores perdido
Encantado às vezes, às vezes traído
Como por traí-la é também forçado
E cairá se ousar caminhar calado
Pois nada aquecerá o entorpecido
Que solitário vaga sem sentido
Levando um coração dilacerado
Canto, ainda esta inglória desventura
Para que o grito de minha alma cale
E se proceda o fim desta procura
Quando em ventura me arrebate o dia
Em que tudo que minha boca fale
Não se escute nada além de poesia
20
Não deixem que ela pinte seu cabelo
Pois desde que nascera foi imposto
Um casamento perfeito em seu rosto
E na cor de seu olho posso vê-lo
Não permitam que pinte seu cabelo
Pois a natureza, em seu bom gosto
Teve o Dom da lã e da seda posto
Onde só pode o tempo desfazê-lo
E mesmo que o tempo a desfigurasse
Eu reconheceria sua face
Mas não quero o que não é próprio dela
Porque outra mulher viria a meus sonhos
Uma que não tem cabelos castanhos
E que não é tão linda quanto ela
21
Mais uma alma se aproxima perdida
Sei sua dor, é a mesma que a minha
Só quer a paz que até então não tinha
E entoar canções que não cantou em vida
Grande agonia, sensação daninha:
Ter a dor que trago incompreendida
A dor de todos, por poucos sentida
E mesmo à morte ainda tê-la minha
Fardo que um dia hei de carregar
Como escrever o que não foi escrito
É sina que de outro também será
Tão logo eu parta e o sentir aflito
Dará a luz de um útero maldito
E um outro amaldiçoado nascerá
22
Vi a ferida e vim para curá-la
Sua dor, me esforcei para senti-la
Como a um filho, a uma doce pupila
Cujos erros ao mestre não abala
Mas quem conhece a dor pode explicá-la?
E há como compreendê-la sem senti-la?
Só eu a vi chorar e por ouvi-la
Fui ferido e chorei por sua fala
Bem pouco lhe esperava, quase nada
Somente os mesmos dons que lhe guardava
E não a mágoa dela ver ser minha
Foi esta a homenagem a mim prestada
Pouco apreço ao apreço que lhe dava
Pouco pelo carinho que lhe tinha
23
Conte-me por que, alma inconseqüente
Adentra e encanta o peito alheio
E tão logo o toma por inteiro
Parte e fere outro peito novamente?
Seu vício parasita não pressente
Forte dor que me causa o devaneio
De querer constante o que é passageiro
E cair como tuas vítimas doente?
( Porque teu desejo me desagrada
E eu me esforço pela arte que me excita
Fascinar sem sentir-me fascinada
E tua dor é tola, sempre passa
E o que faço me torna parasita
Para que tua vida tenha graça
24
A vésper brilha apesar da aurora
E em que negra noite não brilharia
Se ofusca com doces dons da poesia
Todo verso que ousei compor outrora
Tantos astros surgem ao céu agora
Nada valem, não trazem alegria
Se isso não é amor, o que seria
O constante querer ao que se adora?
Pobre homem que olha o céu e vê estrelas
Tão pequena visão que pode vê-las
Sem que uma ouse roubar o seu olhar
Não mais vejo pessoas pela rua
No céu não vejo o sol, não vejo a lua
Nem outro astro que inspire meu cantar
25
Por que choras a dor que é sem igual?
Por este capricho que me é sincero?
É justo, pois respeito e tolero
Os valores que chamas de moral
Sei, minha vinda de fato é desleal
Adentro o peito alheio e o dilacero
E nada além do que prazer espero
Legando a cada amante imenso mal
Mas pare de chorar, estou cansado
De tua dor, do peito machucado
Por remorso ao que me é necessidade
─Choro, alma minha, pois sou humano
E cada crime teu é meu engano
Onde se perde minha humanidade
26
Vá! Traga-nos refrescos e licores
Traga-nos agora o mel e a cevada
Saciem a sede de minha amada
E meu louco desejo por amores
Não lhes peço muito, é quase nada:
Sonhos que distraiam as minhas dores
Compor versos que a sirvam como flores
E servi-la por toda madrugada
E assim trarei comigo o verso e o vinho
Pelas mesas de um bar de qualquer rua
Mesmo as ruas mais sujas que caminho
Pois tê-la a noite inteira em companhia
Como as estrelas tem o céu e a lua
É tudo que eu ousei sonhar um dia
27
Meu corpo co’outros corpos saciado
É a forma que engano minha mente
É minha droga, meu entorpecente
É a trilha que me leva ao pecado
A estes vícios me entrego envergonhado
Fere-se meu peito, e a dor que sente
Não permite uma alma negligente
Frente aos erros odiosos do passado
O que mais machuca é querer minha
De volta a virtude que eu tinha
E que este caminho tem negado
Lançando-me ao inferno, entorpecido,
Ao qual me entrego, pois não quer sentido
Nem perdão quem de tudo foi roubado
28
Liberte-me, insensato coração,
Da deliciosa prisão que é seu nome
Delírio insano que a tudo consome
E dilacera as regras da razão
O que foi desejo em ti, o que é fome?
Tua vinda de fato foi prisão?
Ou a regra imposta a um coração
Que cada noite minha torna insone?
Mas quão intenso e estranho é o desejo
Do escravo que não quer se ver liberto
Da boca que sedenta escolhe o beijo
Como reféns de um vício a que me entrego,
Gigante que me toca, mas não vejo
Injúria que me ofende, mas não nego
29
Quando o amor eu tiver maculado
Com tudo que me fora concedido
Provarei com um erro cometido
Desonrando o sublime com pecado
E vendo-me indigno de ser amado
E ainda assim, amado eu tiver sido
Dando causa e razão a ser punido,
Ser traído, ser banido e desonrado,
Lembra-te que eu amei sem ser amado
Eu amei como quem o faz sem medo
E já não posso mais ser castigado
Pois errar e sofrer é meu destino
E quem me amou conhece este segredo
E a dor de amar um coração menino
30
Como belo é o homem apaixonado
Que de si abre mão pelo que sente
Revelando-se um ser abnegado
A servir a quem ama docemente
Belo, porém tolo, ainda que amado
E tão estranho o que lhe busca a mente:
Os desejos de um corpo saciado
Fim a fome de um coração carente
Beleza tola, que tolice bela!
Eu erro por amar sem ter cautela
Por erguer-me ao céu e por cair por terra
Mas Deus perdoa homens apaixonados
Perdoa-lhes seus medos e pecados
Por conhecer a alma de quem erra
31
Se a porta se abrir e vier contigo
A grata ilusão que vem com o sonho
Deixa-a aberta e entra como amigo
Ajuda-me co’os versos que componho
Mas se a linha do real que eu transponho
Vencer-me e revelar-se um falso abrigo,
E vendo o lar onde plantei meu sonho
Ser tumba onde ergueu-se um jazigo;
Que me valha o prazer de ter sonhado
E assim, como antes da morte o soldado
Espera que para a luta reencarne,
Tentarei ver saciado meu desejo
De sede à boca em saboroso beijo,
De fome ao corpo em calorosa carne
32
Guardo bem os momentos que se vão
E lamento que me reserve a vida
Ilusão, que em breve verei perdida,
E lembranças como último quinhão
Mas chegado pó instante da partida
Findada a alegria, quando os sonhos va
Que desejos me ardam o coração
Pela paixão que não me foi vivida
Pois da lembrança, ingrata irmã
Não me contento desta dor que é va
Embora toda dor ter seu sentido
Mas a ingrata diz: “nada aqui foi seu!”
Lembrando que tudo que em mim cresceu
Nada valeu a pena ser vivido
33
Curioso é não ver queimar a chama
Estranha é ferida que não arde
E o que dizer do coração covarde
Que não ousa sacrifícios quando ama?
Feliz de quem sofre, teme, vive o drama
De hesitar, mas tenta, inda que tarde
Este é valente, sim, não é covarde
Por ouvir quando o coração lhe chama
Por isso tente tudo, vá sem medo
Não esconda contigo este segredo
De temer arriscar-se a uma paixão
Mas sê fiel a ti, a mais ninguém
E acredita no que diz teu coração
Que fez por merecer o amor que tem
9