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1

Necromânticos estão criando súditos

Povoando com cadáveres cidades

Todos esquecemos que somos únicos

Destruímos nossas mais belas partes

 

Longínquos desertos, cantos obscuros

Existem pessoas por trás de muros

Sob o olhar sempre atento e tenebroso 

De criaturas malignas, de monstros

 

Homens, elas são largadas por lá!

Pois os grandes juizes não amam

E os homens comuns não sabem julgar

 

Sabeis que homens são mais que imagens

São a junção de sonho e sentimentos,

Corpo e espírito, de dores e medos.



 

2

Arde-me as entranhas em agonia

Qual meu crime e que anjo me castiga

Sem o pesar do ventre e sua ferida

Da boca que expelindo sangue grita

 

Ao mal, como castigo a dor não basta

É preciso mais, destruir o sonho

Maldizer a alma, odiar o corpo

Tudo perder-se, não restar-me nada

 

Mire a pena de um punhal de prata

Que abre o ventre que atravessa contraído

Indiferente as vísceras que rasga

 

Quanto ao fim, não importa a que rezava

Visto os pecados, desde já expiados

Posto que o sonho, desde já perdido.



 

3

Meu amado deu-me filhos, fez-me filha

Entre os nobres foi um deles, soube amar

Foi um sábio e entre os sábios, uma ilha

Como a noite, às estrelas, é o luar

 

Minha amada fez-me filho, deu-me filhas

Fez em mim grandes coisa, fez-me amar

Deu-me vida e à vida, maravilhas

E maravilhas que refletem meu olhar

 

Quisera as flores esta data festejassem!

- E se estas árvores, minha senhora, então falassem

- Elas hoje, meu senhor, sei, cantariam

 

Mas como emudecidas, vês, se calam

Os pássaros voam e cantando falam

Traduzindo o que as árvores fariam



 

4

Se perderá o homem que por hora

Ousar em tuas glórias a ventura

Alheio por completo a este relato

Que se atém tanto a dor quanto a ternura

 

O amor é uma estrada redentora

Tapeada de constantes infortúnios

Não isenta no entanto de fracassos

Eternos em lamentos e murmúrios

 

Pois tudo cessa, o mundo se desfaz

Certeza dos poetas em seus cantos

Chorar amores, renegar a paz

 

Por ser vão o garbo em toda luta:

Sempre acordamos novamente em prantos

Em dores ofegantes e labuta



 

5

Rica melodia de cantores

Tudo dela minha arte distancia

Verso pobre, minha triste poesia

Que aguça nos que sofrem suas dores

 

A cantiga não eterniza amores

Mas confere a juventude alegria

Como também quis ser alegre um dia

Mas me perdi entre poemas traidores

 

Calo-me, pois é escassa a poesia

Ouço os menestréis, bardos foliões

Entoarem o que chamam de alegria

 

Mas a felicidade é passageira,

Não engana infelizes corações

Que comigo chorarão a vida inteira



 

6

Se o amor for a dor que me angustia

E a saudade severa punição

Que ela não me puna sem razão

Mas na certeza de saciar-se um dia

 

Dor ingrata, que imensa covardia!

Rasga e lacera o peito sem perdão

Homenagem que rende um coração

Não maior que a homenagem que rendia

 

É um querer o que ainda me é ardente

Busca que dá causa a minha loucura

Na ausência do que outrora foi presente

 

E ver fracasso ao fim desta procura

É a dor mais amarga que se sente

A mais insana e inglória desventura



 

7

Foi-me o degredo grande desatino

Tive medo de em busca prosseguir

Seguir caminhos sem saber aonde ir

Receio de surpresas do destino

 

Tive medo como teme um menino

Que chora sem saber para onde ir

Alheio aos mistérios do porvir

Inerentes ao intento peregrino

 

Maldita sina! Acres dissabores

Serviram-me numa taça com fel

Alimentando meus maiores temores

 

Grito ao céu pelo que em mim se encerra:

Venha-me uma vida ainda mais cruel

Sem me afastar do chão de minha terra



 

8

Quanta ingratidão, Coração choroso!

Inúmeras vezes eu fui contigo

Acreditando que me era amigo

Prisioneiro de um mundo mentiroso

 

Perdi-me e perdido onde prossigo

Ainda ostento um olhar lastimoso

Retratando um destino desditoso 

Que legou-me pesares por castigo

 

Trago suas perdas, rude Coração

Com lembranças feridas do verão

Entre cores que o inverno desbotou

 

Restam tons de uma vida acinzentada

Preço que sua vinda me custou

Feriu e magoou, sem lucrarmos nada



 

9

O mar que surge a noite em nostalgia

Solidão guardou-me sempre e no entanto

Fez desejo onde outrora havia pranto

E sorrir quando já não mais sorria

 

Mulher de lindas formas (forma esguia!)

Alheia ao belo e de fascínio tanto

Que findou meu fardo e calou meu pranto

P`ra inspirar outro cantar à poesia

 

Suave e delicada, doce menina!

Atributos pelos quais me encantava

Encanto como em sonho se imagina

 

Com um brilho repleto de magia

Da lua que no céu me iluminava

Da estrela que no mar me seduzia



 

10

Guarda-me a noite bem mais que boêmia

Às vezes dor, nem sempre inspiração

Pranto às vezes e às vezes sem razão

 

Se acolhesse o céu a oração

Que o dia recolhe ao coração

Escondendo o que a noite lembraria

 

Noturno céu de fascinantes astros!

Tão intenso brilho, tão belos rastros

Mas não inspiram poesia a esta fala

 

Pois inda busco insano aquela estrela

E me fiz homem ao ousar compreendê-la

E poeta ao atrever-me a decantá-la

11

Ferino espinho de uma doce flor

Incomodo amargo ao coração

Incontido em estranha inspiração

Que põe-se a decantar ingrata dor

 

Rude roseira, traiçoeira paixão

Celebrarei a lembrança onde for

Com o anseio inerente ao sonhador

Que nutre de saudade uma ilusão

E hei de embriagar-me, conhecer torpor

Que me inspire em doloroso ardor

Ver na rude flor minha flor dileta

 

Puro encanto, fascínio sedutor!

Quem fascina e fere senão o amor,

A mais nobre confissão de um poeta



 

12

Há um mundo aqui dentro prisioneiro

Em busca da liberdade dos versos

A um peito de sentimentos adversos

Que sobrevoam minha alma em nevoeiro

 

São amigos e caros companheiros

De intentos comumente controversos

Instigam a dor, incitam os versos

Como os sonhos são amigos traiçoeiros

 

Mas não me basto, ainda que magoado

Da catarse do verso apaixonado

Que busca a um mundo aflito liberdade

 

Quero a mais doce e tenra inspiração

Gritos desesperados de saudade 

Declarações sublimes de paixão



 

13

Não sei se é ventura ou ousadia

Seduzido ser pelo horizonte

E na glória de seu mais alto monte

Ver distante a glória que queria

 

Prossigo, busco um destino que aponte

Outro objetivo, mar de calmaria

Como o sedento que busca um dia

Saciar-se plenamente em tenra fonte

 

Se outra opção tivesse para a vida

Diferente desta a mim escolhida

E distinto de um destino como esse

 

Renegaria esta infame ousadia

E outro caminho então escolheria

Se a vida uma vez mais não escolhesse



 

14

A canção que cantei mais tenramente

Foi a mesma da maior desilusão

Que coincidiu com doce inspiração

Nascida de uma dor funda e pungente

 

Teu gosto pela mágoa, coração,

É liberdade do que te é latente

Que em poesia te escapa docemente

Quando amargura te instiga a canção

 

Mas um dia ( e que ele não demore)

Me virá uma inspiração maior

Para que toda vida eu comemore

 

Com alegria tanta e tão contente

Que qualquer canto há de ecoar menor

Que as canções que entoarei eternamente



 

15

Encantos de uma noite envergonhada

Frente as carícias próprias dos amantes

Isenta das dores que sentira antes

Só beijos de uma dama apaixonada

 

Não mais que o pastoreio da manada

Por vales e montanhas deslumbrantes

Ter dos campos os sabores e as fontes

E o aconchego dos braços da amada

 

Anseio que inda guarda o menino

Esquecido, desbotado em poesia

Como ingrata recusa do destino

 

Mas certo que este sonho não é meu

O poeta não comete a ousadia

De crer no que o poema prometeu



 

16

Se houvesse do silêncio seu torpor

Não teria mais que luzes da estrada

Receio de seguir sem levar nada

E perder os motivos de compor

 

Preço este de ver desacreditada

A esperança e trocá-la pela dor

Como quem parte e vendo o sol se pôr

Reconhece sua alma apaixonada

 

Justa troca: ter praias à memória

Solos férteis a sonho e coqueirais

Com templos que de um povo guarda a glória

 

Mas não me restou beleza, há saudade

Pelos sorrisos que não vejo mais

(certeza que nem tudo foi verdade)



 

17

Quantas vezes me deixei enganar

Pelas aparências, esta traidora

De lindas formas (forma sedutora!)

Que fascinam e encantam meu olhar

 

Errei, e outras mil vezes vou errar

Não mais por esta rude impostora

Mas para tudo que um dia já se fora

Não se renda ao medo de tentar

 

Hoje vejo a cidade equivocar-se

Em preconceitos e medos que enganam

E encobrem a verdade em vil disfarce

 

Tolero, não cabe a mim questionar

A quem caberá? Os juizes não amam

E os homens comuns não sabem julgar



 

18

Corações ariscos: trauma profundo

Que vai além de si mesmo e inspira

A aproximação do sonho à mentira

E o sincero ao que é tido por imundo

 

Eis a mágoa, sentimento infecundo

Que de tudo que é belo guarda ira

A lembrança da perda e de mentira

Desprezando o mais nobre deste mundo

 

Alma aflita, corações maltratados

Perdida a esperança, sonhos frustrados

Com sua perda nunca ressarcida

 

Mas a vítima é como o autor do crime

Que recusa provar o que é sublime

E alheio vai desmerecendo a vida



 

19

O poeta é um eterno enamorado

E pela vida de amores perdido

Encantado às vezes, às vezes traído

Como por traí-la é também forçado

 

E cairá se ousar caminhar calado

Pois nada aquecerá o entorpecido

Que solitário vaga sem sentido

Levando um coração dilacerado

 

Canto, ainda esta inglória desventura

Para que o grito de minha alma cale

E se proceda o fim desta procura

 

Quando em ventura me arrebate o dia

Em que tudo que minha boca fale

Não se escute nada além de poesia



 

20

Não deixem que ela pinte seu cabelo

Pois desde que nascera foi imposto

Um casamento perfeito em seu rosto

E na cor de seu olho posso vê-lo

 

Não permitam que pinte seu cabelo

Pois a natureza, em seu bom gosto

Teve o Dom da lã e da seda posto

Onde só pode o tempo desfazê-lo

 

E mesmo que o tempo a desfigurasse

Eu reconheceria sua face

Mas não quero o que não é próprio dela

 

Porque outra mulher viria a meus sonhos

Uma que não tem cabelos castanhos

E que não é tão linda quanto ela

21

Mais uma alma se aproxima perdida

Sei sua dor, é a mesma que a minha

Só quer a paz que até então não tinha

E entoar canções que não cantou em vida

 

Grande agonia, sensação daninha:

Ter a dor que trago incompreendida

A dor de todos, por poucos sentida

E mesmo à morte ainda tê-la minha

 

Fardo que um dia hei de carregar

Como escrever o que não foi escrito

É sina que de outro também será

 

Tão logo eu parta e o sentir aflito

Dará a luz de um útero maldito

E um outro amaldiçoado nascerá



 

22

Vi a ferida e vim para curá-la

Sua dor, me esforcei para senti-la

Como a um filho, a uma doce pupila

Cujos erros ao mestre não abala

 

Mas quem conhece a dor pode explicá-la?

E há como compreendê-la sem senti-la?

Só eu a vi chorar e por ouvi-la

Fui ferido e chorei por sua fala

 

Bem pouco lhe esperava, quase nada

Somente os mesmos dons que lhe guardava

E não a mágoa dela ver ser minha

 

Foi esta a homenagem a mim prestada

Pouco apreço ao apreço que lhe dava

Pouco pelo carinho que lhe tinha



 

23

Conte-me por que, alma inconseqüente

Adentra e encanta o peito alheio

E tão logo o toma por inteiro

Parte e fere outro peito novamente?

 

Seu vício parasita não pressente

Forte dor que me causa o devaneio

De querer constante o que é passageiro

E cair como tuas vítimas doente?

 

( Porque teu desejo me desagrada

E eu me esforço pela arte que me excita

Fascinar sem sentir-me fascinada

 

E tua dor é tola, sempre passa

E o que faço me torna parasita

Para que tua vida tenha graça



 

24

A vésper brilha apesar da aurora

E em que negra noite não brilharia

Se ofusca com doces dons da poesia

Todo verso que ousei compor outrora

 

Tantos astros surgem ao céu agora

Nada valem, não trazem alegria

Se isso não é amor, o que seria

O constante querer ao que se adora?

 

Pobre homem que olha o céu e vê estrelas

Tão pequena visão que pode vê-las

Sem que uma ouse roubar o seu olhar

 

Não mais vejo pessoas pela rua

No céu não vejo o sol, não vejo a lua

Nem outro astro que inspire meu cantar



 

25

Por que choras a dor que é sem igual?

Por este capricho que me é sincero?

É justo, pois respeito e tolero

Os valores que chamas de moral

 

Sei, minha vinda de fato é desleal

Adentro o peito alheio e o dilacero

E nada além do que prazer espero

Legando a cada amante imenso mal

 

Mas pare de chorar, estou cansado

De tua dor, do peito machucado

Por remorso ao que me é necessidade

 

─Choro, alma minha, pois sou humano

E cada crime teu é meu engano

Onde se perde minha humanidade



 

26

Vá! Traga-nos refrescos e licores

Traga-nos agora o mel e a cevada

Saciem a sede de minha amada

E meu louco desejo por amores

 

Não lhes peço muito, é quase nada:

Sonhos que distraiam as minhas dores

Compor versos que a sirvam como flores

E servi-la por toda madrugada

 

E assim trarei comigo o verso e o vinho

Pelas mesas de um bar de qualquer rua

Mesmo as ruas mais sujas que caminho

 

Pois tê-la a noite inteira em companhia

Como as estrelas tem o céu e a lua

É tudo que eu ousei sonhar um dia



 

27

Meu corpo co’outros corpos saciado

É a forma que engano minha mente

É minha droga, meu entorpecente

É a trilha que me leva ao pecado

 

A estes vícios me entrego envergonhado

Fere-se meu peito, e a dor que sente

Não permite uma alma negligente

Frente aos erros odiosos do passado

 

O que mais machuca é querer minha

De volta a virtude que eu tinha

E que este caminho tem negado

 

Lançando-me ao inferno, entorpecido,

Ao qual me entrego, pois não quer sentido

Nem perdão quem de tudo foi roubado


 

28

Liberte-me, insensato coração,

Da deliciosa prisão que é seu nome

Delírio insano que a tudo consome

E dilacera as regras da razão

 

O que foi desejo em ti, o que é fome?

Tua vinda de fato foi prisão?

Ou a regra imposta a um coração

Que cada noite minha torna insone?

 

Mas quão intenso e estranho é o desejo

Do escravo que não quer se ver liberto

Da boca que sedenta escolhe o beijo

 

Como reféns de um vício a que me entrego,

Gigante que me toca, mas não vejo

Injúria que me ofende, mas não nego


 

29

Quando o amor eu tiver maculado

Com tudo que me fora concedido

Provarei com um erro cometido

Desonrando o sublime com pecado

 

E vendo-me indigno de ser amado

E ainda assim, amado eu tiver sido

Dando causa e razão a ser punido,

Ser traído, ser banido e desonrado,

 

Lembra-te que eu amei sem ser amado

Eu amei como quem o faz sem medo

E já não posso mais ser castigado

 

Pois errar e sofrer é meu destino

E quem me amou conhece este segredo

E a dor de amar um coração menino


 

30

Como belo é o homem apaixonado

Que de si abre mão pelo que sente

Revelando-se um ser abnegado 

A servir a quem ama docemente

 

Belo, porém tolo, ainda que amado

E tão estranho o que lhe busca a mente:

Os desejos de um corpo saciado

Fim a fome de um coração carente

 

Beleza tola, que tolice bela!

Eu erro por amar sem ter cautela

Por erguer-me ao céu e por cair por terra

 

Mas Deus perdoa homens apaixonados

Perdoa-lhes seus medos e pecados

Por conhecer a alma de quem erra

31

Se a porta se abrir e vier contigo

A grata ilusão que vem com o sonho

Deixa-a aberta e entra como amigo

Ajuda-me co’os versos que componho

 

Mas se a linha do real que eu transponho

Vencer-me e revelar-se um falso abrigo,

E vendo o lar onde plantei meu sonho

Ser tumba onde ergueu-se um jazigo;

 

Que me valha o prazer de ter sonhado

E assim, como antes da morte o soldado

Espera que para a luta reencarne,

 

Tentarei ver saciado meu desejo

De sede à boca em saboroso beijo,

De fome ao corpo em calorosa carne


 

32

Guardo bem os momentos que se vão

E lamento que me reserve a vida

Ilusão, que em breve verei perdida,

E lembranças como último quinhão

 

Mas chegado pó instante da partida

Findada a alegria, quando os sonhos va

Que desejos me ardam o coração

Pela paixão que não me foi vivida

 

Pois da lembrança, ingrata irmã

Não me contento desta dor que é va

Embora toda dor ter seu sentido

 

Mas a ingrata diz: “nada aqui foi seu!”

Lembrando que tudo que em mim cresceu

Nada valeu a pena ser vivido


 

33

Curioso é não ver queimar a chama

Estranha é ferida que não arde

E o que dizer do coração covarde

Que não ousa sacrifícios quando ama?

 

Feliz de quem sofre, teme, vive o drama

De hesitar, mas tenta, inda que tarde

Este é valente, sim, não é covarde

Por ouvir quando o coração lhe chama

 

Por isso tente tudo, vá sem medo

Não esconda contigo este segredo

De temer arriscar-se a uma paixão

 

Mas sê fiel a ti, a mais ninguém

E acredita no que diz teu coração

Que fez por merecer o amor que tem

 

9

 

© 2013 Igor Anatoli                                   Created at Razzoit Studios - Berlin, Germany.     

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