
Igor ANATOLI
Trechos de livros e trabalhos do autor
Introdução
Não intento a vontade de compor a poesia
Quisera escrever uma única lírica ditosa
Que eternizasse a alegria e a dor aliviasse
Sonhos
Vou te contar o meu sonho, de todo singular a outras noites
Mas não ouses julgar aquilo que não compreendes
Se não entendes em teu peito a dor que deveras sentes.
Pois estes são os teus planos: delírios de minhas noites insones.
Mãos Indignas
Algo me tocou, eu não era assim
A mancha cresce cada dia mais
Me ferem e as feridas me deixam sujo
Foi o que restou, a sujeira e a dor
Acreditar é melhor do que estar vazio
Mas não era assim, algo se perdeu
Algo ficou para trás, algo importante
E agora, sozinho, é a hora que sinto
Começamos do nada e puros
Somente a nobreza de um sentimento
Até certa noite em que me perdi
Quando algo me tocou e não sei o que
Grandes sonhos ficaram no caminho
Abri mão de mim mesmo sem saber
Meu sorriso nunca mais foi sincero
E algo se aproveitando me tocou.
Quando as Luzes se Apagam
De tudo que sinto me afligem dúvidas
Algo aqui arde e nenhuma resposta
Vejo que pouco sei sobre mim mesmo
Talvez nada e, a noite, isso não é bom
No escuro sequer vejo meu rosto
Sou obrigado a sentir a maldade
Porque o lado negro é sempre o mais forte
E dele resulta o nosso poder
Mas, temeroso, se esconde nas sombras
E nos cantos mais obscuros da mente
Se não for controlado vem a tona
Trazendo tudo que temos de ruim
E mesmo assim é parte do que somos
Temos que aceitá-la, nos aceitarmos
Ao apagarem-se as luzes, você sobra
Se não se sentir bem, não sobra nada.
Soneto de Morte
Eu sempre quis ver a morte de perto
Talvez para conhecer seu rosto
Mas não gostei em nada do que vi
Pude ver mais que a vítima do mal
Sofrer a maldição a ela imposta
Pagar pelo erro que não cometera
Fugi de seus braços, de seu mundo
Temi a única constante na vida
E guardei comigo o que presenciei
Que a morte é mais do que o fim dos sonhos
É quando anoitece e as luzes se apagam
Flores se fecham e as pessoas choram.
Caminhos do Mal
Toda humildade me escravizara
Queria ser livre, meu querer em vão
E a liberdade distante demais
Eu fugi, vendo mais do que devia
Foi o fim de tudo que julgava belo
Presenciei a destruição de mundos
Vi o medo, enfrentei minha ruína
Muito chorei, antes de cair em desgraça
Foram momentos difíceis aqueles
E os anjos me trouxeram de volta
Ao sangue e lágrimas que surgem do nada
Malditos que só me fizeram mal
As coisas foram assim para mim
Fora o fim do mundo que eu conhecera
A felicidade, não posso vê-la
Eu acordei cego, nada valeu a pena
Selvagem vaguei só na escuridão
Sons e odores se confundem, não entendo
Consegui resistir, mas estou longe
Longe de onde deveria estar.
Arcanjos Celestes
Antes era o céu, lembro com saudade
Os anjos estavam comigo
Simples e puro de coração
Brincávamos enquanto sonhávamos
Com um futuro que julgava bom
E os anjos sonhavam comigo
Mostravam 7um mundo de possibilidades
Podia ser grande e belo também
Ansioso, aguardei, tempo demais
Tempo que perdi
Contemplei o mundo
A vida que sempre se fazia mais forte
A sagrada inocência dos sonhos
Toda a beleza do que éramos, do que tínhamos
E os anjos me fizeram sorrir
Mas não éramos só isso
Descobri coisas que estavam escondidas
Sentimentos guardados que nutrimos
Tudo que somos, que nos manteve vivos
E os anjos me mostraram a verdade
Verdade revelada que se tornou pecado
Meu minh`alma maculada, eles partiram
É sempre fácil enganar, é fácil fugir
'Mas não consegui, fiquei só
E os anjos me deixaram chorando.
Lágrimas na Noite
A noite avançava no meio da mata
E lágrimas rompiam o silêncio.
Eram homens fortes que sentiam medo,
Homens que sentiam saudade.
Há um pouco de coragem nos que partem.
Há um pouco de fraqueza nos que ficam,
Talvez por não terem algo em que acreditar,
Talvez por quererem acreditar em algo.
Pude ver sonhos nos olhos dos que chegavam
No olhar, um brilho que já houvera
Não era com isso que sonhávamos
Mas era com isso que estávamos sonhando.
Meios Ilícitos
Eu menti
E fugi
Eu enganei
E manipulei
Eu chantageei
E ameacei
Tudo para tentar chegar
E não cheguei
Completamente Insano
Olhos nos olhos, pensamentos são revelados
Segredos mais íntimos, pecados
Tento evitar, motivos, sei que não tem
Por que resistir ao que nos convém?
Mãos, um leve toque, pouco, muito pouco
Uma brava ânsia de sentir seu corpo
Entendo sua alma ardendo por mim
E nos entregamos a um desejo sem fim.
Calmo mapeio o naturalmente sedutor
E o natural nos domina num louco furor
Não há mais espaços e nada nos separa
Acaba-se a mentira e a farsa também acaba.
Cresce o fogo que queima nessa luta alucinante
Permitimos um ao outro como infiéis amantes
Agora é mais que braços e pernas, é na pele o suor
Nisso nos atemos, para sermos um só.
Olhos nos olhos e não vejo mais nada
O instinto nos venceu e a razão foi derrotada
Em minha boca só restou o gosto da tua com saudade
Das palavras que não foram ditas por maldade.
Caminhos Sem Volta
Pergunto-me o que é desejar a morte
Vejo o castigo e exijo a punição
Mesmo prisioneiro se que os carrascos
Choram por mim quando choram por eles.
Vã é minha resistência, como antes
Não é hoje, mas com certeza um dia
E as noites não me deixam esquecer,
Elas tentam me lembrar da fraqueza
O brilho é mais intenso e me domina
As sombras oferecem redenção
Pois eu já conheço o que há sobre a luz
E não sou eu quem toma as decisões.
É o tudo sem sentido, desgraça
Não querer ir, mas era lá que estava
Era a porta errada e sabendo abrir
No fundo, querendo não conseguir.
No êxtase supremo sinto o pecado
Poder ir além do que se é, subir
Saber que deus não é tão poderoso
Ter o poder para tocá-lo e cair.
É em um mesmo instante o céu e o inferno
É saber onde se guardam os sonhos
E esquecer, Ter os poderes do mal
E servir-se deles para vencer.
É ser vitorioso e querer perder
Querer perder por não saber jogar
Então, sozinho, esqueço o caminho
Mesmo sabendo que irei me lembrar.
Ulceras
Arde-me as entranhas em agonia
Qual meu crime e que anjo me castiga
Sem o pesar do ventre e sua ferida
Da boca que expelindo sangue grita
Ao mal, como castigo a dor não basta
É preciso mais, destruir o sonho
Maldizer a alma, odiar o corpo
Tudo perder-se, não restar-me nada
Mire a pena de um punhal de prata
Que abre o ventre que atravessa contraído
Indiferente as vísceras que rasga
Quanto ao fim, não importa a que rezava
Visto os pecados, desde já expiados
Posto que o sonho, desde já perdido.
Duas Faces de Um Mesmo Lado
Quando a espada tem dois gumes
E as pessoas possuem duas faces
Nasce a desconfiança entre homens desarmados
É difícil crer que o rosto seja pintado
Mas o flanco sangrando não nega a traição
E a perda é maior que a dor, a mágoa maior que o perdão
Como a faca corta seu portador?
Como fere quem nela confia?
Despreza um companheiro, machuca um amigo?
Acima de qualquer suspeita ficou a traição
Agora estamos preparados e, desconfiados,
Deixamos as portas trancadas.
Pós-nupciais
Talvez eu seja chamado a declarar
O que ouvi sobre um altar em certa noite:
Jovens fazerem um juramento para toda a vida
Com promessas que não foram capazes de cumprir
Eles usaram belas palavras para selar uma aliança
Mas indiferente aquele amor, em mim a dúvida
Por diante do sacerdote testemunhar suas juras
Que um dia serão usadas contra eles mesmos
Pois o tempo torna pálido o sentimento,
Arruina um lar onde se perdem gestos de carinho
E quando esse dia chegar eu serei convocado
Para testemunhar tudo que presenciei no passado
Hoje interrogado eu direi a verdade:
Que eles juraram perante Deus e mentiram
E nesse momento uma criança e suas lágrimas solitárias
Talvez sejam as únicas coisas que me venham a cabeça
Entenda um casal que caminha pelas ruas
Sem saber porque eles não se deram as mãos
Talvez tenham se esquecido do juramento
E será que eles serão punidos por isso?
Pelo Que Nos Pagam
Quem são estes que adentram o impenetrável?
Do que lhes valerá estas madrugadas?
Eles terão oportunidade de escrever seus nomes?
Quem mantém acessas as luzes da cidade?
Por toda a noite velamos seu sono
E ao acordarem, alguém se lembrará de nós?
A respeito daquele que partiram
Deixando entre nós aquilo que tinham de melhor
Lhes restará saber que seu sacrifício foi em vão?
Trabalhos e planos, sonhos que sonhamos
E tudo quanto mais fizemos, nos valerá?
Ou eles ainda ousarão dizer que não somos nada?
O que é isso que temos? Por quem o fazemos?
Mas findada a dúvida, ao tocarem-se os sinos da fábricas
Retornando ao lar, talvez a verdade nos seja revelada.
Quando os Grandes Jogam
É de peões que esta precisando o jogo
E de homens que saibam jogá-lo
E de homens que possam vencê-lo
Foram estas as opções que nos deram
Vencer neste jogo sujo é tudo que se quer
E assim valorizamos coisas sem valor algum.
O sucesso hoje é deturpado, é mesquinho
Não é mais algo que nos faz crescer
Não há mais uma história a se contar
Ao tentarmos ousar éramos punidos
Punidos por tentarmos ser nós mesmos
E estão punindo nossas crianças agora
Não haviam muitas opções, mas isso mudará
Há um caminho traçado para os jovens
E há um caminho que eles podem traçar.
Os Declarantes da Verdade
Os declarantes da verdade mentem
E permitem que a hipocrisia prepondere
Fazendo questão de deturpar a verdade
Desmerecendo toda fé que lhes foi depositada
Todo poder e ouro os corromperam
Por em tudo se submeterem aos desejos
De perniciosos facínoras poderosos
E do tolo brilho da ganância
O seu interesse vil distorce a verdade
E assim lançam os fatos com impacto
Ou qualquer mal é atenuado por estas mãos
Onde não há mentira que não prevaleça
Toda veracidade hoje é suspeita
Como o caráter de heróis forjados
Heróis que representam uma nação
E que escondem sua verdadeira face
Eles manipulam a massa de ignorantes
E fazem de cultos letrados, incrédulos
Caluniam justos, enaltecem corruptos
Valendo-se da omissão em todos os seus atos
Há uma conspiração onde não existem inocentes
Da grande devassa ninguém sairá ileso
Imponha-se a nova ordem para que todos saibam
Que os declarantes da verdade mentem
As Cores da Bandeira
Ousamos pintar o céu de outrora
Sem saber o que havia sobre a terra
Damos às armas o primor da aurora
E muito poder em uma mão que erra
Dezoito velas caídas junto ao mar
Onde a boa luta o ébano travou
O seu querer: da dor irmãos poupar
Heróis que mesmo o tempo não matou
São homens que não falarão jamais
Rubros erros de um velho que ainda erra
E hoje armado espera a morte em paz
Mas ainda sonha os seus sonhos de guerra
A alguns interessa que o rio pare
Quem tem poder para parar o rio
Os que pintaram tintas sem caráter
No pendão que rege desprezo ao filho
E quando o ouro der ao homem mais que anseia
E os bons, por revolta, derem as mãos
Que cores terão nossas bandeiras?
Que cores nossas bandeiras terão?
Acaso Meu Nome Fosse Zeus
Acaso meu nome fosse Zeus
Talvez nada fosse como é
Viveríamos entre os bons
E seríamos um deles
Poderia ensinar e seria fácil aprender
Todos teriam o mesmo reflexo
Saberíamos o momento de parar
E a vitória seria a conquista sobre nós mesmos
Apertos de mãos seriam mais que gestos
Pelos olhos reconheceríamos pessoas
Assim ninquém iria se magoar
E talvez não houvessem lágrimas
Compreenderíamos o íntimo de cada um
Saberíamos sorrir sorrisos sinceros
Em momento algum seria preciso sangrar
E jamais viríamos a temer a noite
As crianças brincariam até tarde
Muros não separariam quintais
A saliva só ficaria em nossa boca
E pelos cantos não correriam ratos
Jamais teríamos dúvidas
Veríamos nossos filhos crescer
Teríamos milhões de amigos
E estaríamos sempre juntos
Não seria preciso saber a verdade
E no final nem tudo seria mentira
Pois talvez não chegasse a lembrar
Que, por acaso, meu nome não era Zeus.
Cidade Em Chamas
Meninas, por que escondem seus rostos?
Há algo que não devemos saber?
Apenas sei que elas vendem bem mais
Do que aqui gostariam de vender
Há lugares onde homens se aproximam
Eles também não queriam, mas precisam
E aqui eles sabem que tanto ferem
Quanto são eles que saem feridos
Por todos os cantos se arrastam ratos
E eles falam, mas sequer são ouvidos
Falam de sujeira, dor, solidão
Da vida que é vivida sem sentido
Por que crédulos deixam-se enganar?
Não há algo concreto a se construir?
Ou é melhor acreditar em mentiras
Do que não ter que acreditar em nada
Deturparam as virtudes de meu filho
Queriam mais um e o fizeram morrer
Agora não sei quem são estas crianças
O que aconteceu com nossas crianças?
Hoje cada um trará no olhar uma lágrima
Por nunca haverem mostrado o que vi
É mais dor do que todos nós sentimos
É mais dor do que virei a sentir
Há tanta maldade por trás de máscaras
Há tantas máscaras por tanta parte
E enter tantas os que brilham se perdem
E perdem mais aqueles que se escondem
Há outros que de coragem admiro
Pois conseguem sorrir fácil demais
É preciso coragem quando o fazem
Coragem para mentir como mentem
Nós não precisamos mais de ninguém
Já estamos bem e somos felizes
E no final nos convencemos disso
Para não aceitarmos a verdade
Esta foi a história que nos contaram
Por prezarmos o que não tem valor
Nossa vida é o que há de mais precioso
Mas poderia ser de outra maneira
Esta é a cidade que construímos
Conheço sua verdadeira face
Foi aqui que nosso sonho começou
E é aqui que iremos terminar.
Criaturas da Noite
Quando o silêncio das ruas vazias ecoar na noite
E as luzes de mercúrio adentrarem onde o sol se omite
Entre os becos mal iluminados da cidade
É possível enxergar ratos, entre outras formas humanas.
Já estive entre eles e jurei não mais voltar
Mas não pude negar minha natureza
Findo o que me prendia ao mundo sórdido dos hipócritas
Eu retornei aonde a dor é constante, mas o sentimento sincero
Estive entre os que não fazem parte do jogo, mas queriam
E jogam tão sujo quanto os grandes jogam
Eu estive entre eles e partilhei o mesmo dinheiro
Que guardei em meus bolsos, embebido em sangue.
Eu as vi venderem seu corpo
Eu as vi perderem sua alma
E eu mesmo as possui sem o ouro que as corrompe
Por ter me compadecido e compartilhado uma dor.
Sentei-me a mesa com eles e os vi se embriagarem
Riam de suas desgraças e choravam ao contar suas vidas
Disseram que se perderam de casa
E disseram que queriam voltar.
Deitei-me entre os homens sujos das calçadas
E juntos sentimos frio sem nos julgar amigos
Por termos perdido a humanidade entre as faces horrorizadas
Alheias a fome que atormenta nosso ventre, a nossa solidão.
Ladrões, prostitutas, bêbados e vagabundos
Nós somos os amaldiçoados que vivem a noite
Porque enquanto os homens comuns dormem seus sonhos
Nossos pesadelos nos mantém acordados.
Exaustão
Estou cansado de toda esta vida sem sentido
Cansei de nos orgulharmos do que não temos
Cansei de toda esta maldade sem explicação
Das inúmeras dúvidas que implicam nosso existir
Cansei dos maiores ordenando que nos calemos
Cansei de ser compreensivo e aceitar
Cansei de ver os humildes serem humilhados
De precisar fugir e ter que me entregar
Estou cansado de valermos tão pouco
Dos baixos preços que pagam por nós
De acreditar apesar de todas as mentiras
Cansei de pais e mães, de casas sem quintais
Estou cansado de grandes e pequenos
Estou cansado de muros e portões
Estou cansado de regras e leis
Cansei de lágrimas e sonhos
Cansei de todo este caos e desordem
Do horror pessoal que os dias nos impõem
Nossa natureza vil e destrutiva me cansou
E cansado demais, cansei de mim mesmo.
O Sangue das Ruas
Quando um grito de dor soar nas ruas
E apesar de ouvido não ecoar em seu peito
Parte de você escapa com ele
E a alma de seus filhos se molha nesse sangue
Nós fazemos parte disso
Quando lá fora um corpo tomba.
É um dos nossos que cai
É um dos nossos que o derruba
As mãos que ferem são as mesmas feridas
Calejadas a mercê de quem se escandaliza
Alheio a cura da busca da ferida,
Ao alívio da corrente que escraviza
Mãos sujas macularam o outorga puro
Com o poder de destruir destrui
E nos prova que somos indignos
De tudo que nos foi concedido
Soubemos quando alguém viu morto aos seus pés
Um seu companheiro e de joelhos chorou
Vendo nas mãos sangue e o sangue era dele
Assim fora Caim, assim somos nós
Todos os Dias, de Todos os Anos, de Toda Uma Vida
Não mais que um jogo,
Assim resumo nossa realidade
Provinda de nossa medíocre sociedade.
Luta-se para vencer
E os vencedores são recompensados:
Com a alegria da vitória
Do trabalho bem feito
O auge da glória.
Os perdedores também ganham,
A humilhação da derrota
A decepção do fracasso
A frustração pelo erro.
E sempre será assim:
A mediocridade dos que conseguem subir
Que olhando para baixo riem
Dos infelizes que se arrastam aos seus pés
Num eterno antro de angústia profundo.
Juras Quebradas
Hoje os dias são iguais
Mas eles nos forçam ao passado
Quando um juramento foi quebrado
E sonhos ficaram para trás
Começamos do nada é começar sozinho
A mão estendida diz que algo foi perdido
São belas palavras que foram ditas
Palavras que foram perdidas
Pelo que entoaremos nossos hinos
Se nossas histórias ecoam no passado
É isso que contaremos a nossos filhos
Contos que descrevem um fracasso.
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Hoje os dias se mostram iguais
E lembranças nos forçam ao passado
Quando um juramento foi quebrado
Quando sonhos ficaram para trás
Começar do nada e tentar sozinho
Mão estendida por algo esquecido
São belas palavras que foram ditas
São belas palavras que foram perdidas
Por quem entoaremos nossos hinos
Se nossas lendas ecoam no passado
É isso que contaremos a nossos filhos
Histórias que descrevem um fracasso.
O Joio e o Trigo
Tu não te encontravas em meu caminho
E eu não procuravas
Mas tu quiseste mirar bem teus olhos
No fundo dos meus
Quiseste me domar em tal momento
Sem haver pedido
Tornou-me escravo do teu querer
Não sei se após saciada ou por desgosto
Abandonou-me
Agora vagueio entre outros caminhos
A te procurar
Desorientado, eu mesmo me perdi
Solitariamente
E a muito tempo não sei o que faço
Compreendi tardiamente que eras só
Mais uma entre as outras
E encontrei novamente meu caminho
Estava vazio
Pude trilhá-lo, escolhi meu destino
Foi quando cresci
E a frente tudo me pertenceria
Mas tu voltaste a invadir meus domínios
Não daquele jeito
Desejo e ambição trouxeram-te a mim
Estavas impura
Viu algo digno de se conservar
E se perdeu, pois
Dessa vez, o meu olhar foi mais forte.
Águas Cativas
Bela sereia que o mar tem em braços
Vestes não são capazes de cobrir
Quem nos ensina a dominar o medo
E, em tempestade, nos convida a enfrentá-lo
Suas ordens são uma provação
Mas nos atamos ao desafio
Com dúvida, nos lançamos ao mar
Sem saber onde podemos chegar
Logo que meu olhar se torna turvo
Eu sinto o mesmo que todos ali:
Gelo se formando no espelho d`agua
Músculos se contraindo em dor, vejo o medo
Compreendemos que não somos fortes
Eu sou, tenho que provar, preciso
Mas vejo um a um os fracos se entregando
Abandonando a água sobrepujados
Penso em render-me e ir com eles; não posso
Sou guerreiro e lutar é minha vida
Vale a pena viver para perder?
Seus olhos me dizem não e acredito
Cada braçada fez cada segundo
Segundos são horas e faltam muitas
Solitário, em meio ao oceano obscuro
Exausto e tomado pela dor, cesso.
Por que o grito arrogante me incentiva?
Continuo, não por mim, mas por ela
Corpo frágil e doentio resiste
Em cada braçada menos segundos
Além do limite encontrou-se a fé
Eu sou o único bravo que restou
Para reclamar as glórias da vitória
E se hoje algo nos separa é o medo
Líquido e suave faz parte de mim
Falta pouco, apenas fecho os olhos
Para deixar as ondas me levarem
Consegui, sorrio, o forte venceu
Ergo-me vitorioso e até as águas
Em respeito, reconhecem meu triunfo
Próximo dela espero aprovação
Mas ela se virá e faz-se silêncio
Indiferentes, seus olhos me ignoram
Deixando-me cair naquele vazio
Sinto-me pequeno, de novo fraco,
Gosto amargo que a vitória concede
Tudo acabou e volto a ser o que era
Eu só queria que dissesse algo
Qualquer coisa, mas ela não diz nada
( Por que não diz nada? Por que não sorri? ).
Gostaria de Pedir Desculpas
Gostaria de pedir desculpas a quem magoei
Peço perdão aos meus pais, pois sei que os decepcionei
Desculpem-me, amigos, se suas amizades perdi
Desculpas, para quem frustei ao acreditar em mim
Peço perdão aos fracos se não deixei que sonhassem
Desculpem-me aqueles que permiti que se enganassem
Perdoe-me quem me amou se não soube retribuir
Lamento pelas vezes que não consegui sorrir
Peço perdão a todos que ajudei a derrubar
Perdão, meus inimigos se consegui me vingar
Desculpem-me pelas vezes que não soube o que fazer
Perdoem-me por fracassar ao precisar vencer
Mas peço desculpas também se tentei melhorar
Se ficou difícil e não vi mãos a me ajudar
Perdão se me lembrei e não te deixei lamentar
Desculpem se olhei de longe para não incomodar
Peço perdão se me escondi para poder chorar
Ao sofrer pelo que sentia e ninguém se importar
Pelas vezes que fiquei sozinho e evitei lutar
Peço que me perdoem, pois não consegui me perdoar.
Gostaria de Dizer Obrigado
Gostaria de agradecer todos os sorrisos irônicos
De quem disse que o meu melhor nunca foi bom demais
De quem sempre duvidou e me julgou ser incapaz
Agradeço por me obrigarem a ser melhor, a fazer mais
Obrigado a quem mentiu, quem me fez acreditar, quem me traiu
A quem se serviu de meios ilícitos para me sobrepujar
Nutro gratidão por terem feito aquele ingênuo morrer,
Por terem lhe ensinado outras formas de vencer
Gostaria de dizer obrigado aos homens que impõem a justiça
Por fazerem questão de desconhecer a verdade
Por não saberem o quanto ferem, por se vingarem
Por me tornarem forte ao resistir aos castigos, a crueldade
Estou grato a estes que disseram que eu não era um deles
A quem se afastou, a quem não quis meu amor
E a todo e qualquer erro que provou que eu não lhes servia
Me fiz por mim mesmo, fortaleza que a solidão não afligia
O passado ensinou em algo da dor que ficou
Por isso agradeço a quem a causou, a quem me magoou
E a todo mal caráter que qualquer lágrima tenha derrubado
Sei que algo aprendi e lhes digo obrigado.
Adeus a Companheiros
__Já estamos com saudades, amigos!
Foi o que disseram por amizade
Sentindo companheiros que partiram
Eles choravam suas primeiras lágrimas
Mas distante de tantas que já chorei
Por todo sofrimento já sentido
Estava entre homens que sentiam
E tive em meu peito a vergonha
Vendo em mim tamanha indiferença
Entendi sentimento nestes homens
Deles brotavam palavras sinceras
Dizendo-me não fazer parte disso
Mesmo entre eles não era um deles
Pois soube que a dor fizera-me frio
E eu chorei, não por eles, mas por mim.
Quando as Pessoas Choram
Estava tudo escuro e me senti perdido
Sentei-me e protegi um simples gato
O menino irá brincar sozinho?
Mas ele quer um amigo.
O vento levou as pessoas
Não queria ter acordado
O dia raiou, por instante chorei
Me vi velho e ainda sentado
O gato fugiu
O menino está brincando sozinho
Queria ter as respostas
Mas está frio, muito frio
Queria que fosse tão fácil
Se eles soubessem, mas eles não sabem
Se eles sentissem, mas eles não sentem
Se eles quisessem, mas eles não querem.
Homens Vazios
Necromânticos estão criando súditos
Povoando com cadáveres cidades
Todos esquecemos que somos únicos
Destruímos nossas mais belas partes
Longínquos desertos, cantos obscuros
Existem pessoas por trás de muros
Sob o olhar sempre atento e tenebroso
De criaturas malignas, de monstros
Homens, elas são largadas por lá!
Pois os grandes juizes não amam
E os homens comuns não sabem julgar
Sabeis que homens são mais que imagens
São a junção de sonho e sentimentos,
Corpo e espírito, de dores e medos.
Os Poetas Estão Mortos
Os poetas se foram
Só ficaram entre nós
Aqueles que não sabem sorrir
Os que não sabem cantar
Crianças brincando, é tão lindo
Deixei-as em paz
Não é hora de saberem a verdade
Deixei-as brincar
E assim virá o dia
Em que elas serão grandes
Senhores de sua vontade
E a liberdade regerá suas ações
Possuíram a força dos que lutam
Daqueles que não se submetem
Terão as punições como obstáculos
De uma sociedade que nos quer fracos
Mas se a nova geração perseverar
Apesar de tudo os bons chegarão ao topo
E os pássaros poderão cantar ( novamente ).
O Caminho Que Seguimos
Quem são esses que caminham e o que eles dizem?
Alguém falou que não diziam nada, alguém que não quis escutar
Talvez não saibam o que dizem, mas é melhor do que estar calado
E eu sei que muitos se calam para ouvir o que falam
A cidade é grande, mas nada aqui é indiferente
Há nossa volta há ódio, amor, admiração e repulsa
Porque nada pode ser indiferente frete a algo tão forte
E nada é suficientemente grande que não nutra respeito
Veja, eles não ousam esta estrada, mas nós a estamos seguindo
Talvez haja muitos obstáculos, mas nós os enfrentamos
Até conseguimos vencê-los e é aí que crescemos
Deixando para trás muros que não conseguirias atravessar
A muita coisa que em nosso peito arde
Mas ele poderia estar vazio
Como vejo pessoas que caminham e que não me dizem nada
Por que não tem nada a dizer
Vamos viver histórias porque um dia será preciso contá-las
Diga que é a estrada errada ou que não leva a lugar algum
Mas enquanto os outros avaliam, nós vamos vivendo
Talvez seja o caminho errado, mas é melhor do que viver a sua vida
Veja, eles não ousam esta estrada, mas nós a estamos seguindo
O que é preciso para seguir este caminho?
Não podemos parar agora, mas estamos deixando um rastro
E se você acreditar, poderá vir conosco.
Domingo
Não mais que um Domingo de sol
Contigo em meus braços seria o nosso sonho
E duraria para sempre e seria só nós dois
E talvez você me fizesse perguntas
Sobre o que em nós não entende, mas percebe
E eu responderia as suas perguntas
Se você quisesse ouvir a verdade
Mas assim você nunca seria feliz
Pois, em seu peito, sentiria a mesma dor que sinto
É a dor de todos que a poucos atormenta
E do que adianta fazer daqui um sonho
Se lá fora uma criança brinca sozinha
É alguém que nunca saberá o que é a vida
E pode ser nosso filho trancado naquele quintal
Se nós quisermos que ele faça parte desse sonho
Saiba que só há verdade aqui dentro
E tudo a nossa volta é mentira
Porque a riqueza só camufla
E o poder não preenche o enorme vazio
Que em seu lugar fica quando parte
Posses não é ter vencido, não é seu filho
Pois esta é a vitória dos que lá fora fazem chorar
São as lágrimas dos que não conseguem vencer
E nossas lágrimas devem ser por eles
Como nosso suor, como nossa luta
É preciso construir para fugir de si mesmo
Servir ao mundo e aos homens
E lutar pelo que acredita certo
Esta é a luta que os grandes lutam
É a luta que os anjos abençoam.
Fortaleza
Relembre que homens são mais que imagens
E saiba do sonho o sentimento
Que isso hoje prepondere
Que isso sempre permaneça
Reviva a dor da chaga que ardia
No peito infeliz do tolo canceroso
Alheio a ventura daquele que sentia,
De tudo quanto é belo ao homem virtuoso
Não são suas palavras que o fazem um poeta
Não é a beleza que a torna preciosa
Não é a riqueza que nos fascina
Mas tudo que reflete um olhar apaixonado em fantasia
Empatia
Lágrimas molhando um rosto amigo
Ferem como se fossem suas
Talvez mais
Não me pergunte sobre o amor
Conte-me sobre aqueles que amam
E sobre quem não queria Ter partido
O que de nós é humano?
Falo do que se sente em empatia
Lembro meu amigo, lembro de quem brilha
Tudo toque e retorne ao coração
Faça teu o meu lamento, amigo
E eu te chamarei de irmão.
Máscaras
Vamos deixar as máscaras de lado
Talvez hoje não enganem ninguém
Vamos mostrar o que temos de bom
Mostremos o que temos de melhor
O essencial está dentro de você
Mostre-o sobre um semblante sereno
A mentira encanta, mas não é real
Limpe toda esta poeira que te cobre
Saiba valorizar pequenas coisas
São elas que firmam uma amizade
Que tornam uma pessoa importante
Elas que fazem de nós o que somos
Veja um olhar tenro, mãos carinhosas
Braços amigos, sorrisos sinceros
E agora decida o que vale a pena
Eu sei a resposta e você também sabe,.
Serenos Sorrisos
Gosto daqueles que sabem sorrir
Mas tenho nojo de vocês, hipócritas
Que tornam difícil olhar ao lado
Que me magoou deixei que partisse
E já se foi tarde, para bem longe
Talvez algum dia junte-se aos seus
Jamais deseje sujar suas mãos
Não queira derramar lágrimas puras
Pois o corpo caído pode ser seu
Algo importante há de ser consistente
Todo amor deve vir do coração
O seu olhar precisa ser sincero
Fico feliz se souberes o certo
O bem que fizer será a ti mesmo
E haverá sempre mais mãos, mais sorrisos.
Felicidade
Resuma o ideal de um homem, ser feliz
Buscá-lo é o que dá sentido a vida
Seja qual for o meio de alcançá-lo
Através do amor, vitória ou vingança
Todos procuram a felicidade
É o objetivo, o sorrir sem motivo
Quando as coisas estão boas demais
E assim deveria ser para sempre
Deveria, mas não, pois tudo acaba
Porque a vida acaba e quando ela acaba
Nos reta apenas chorar nossas perdas
A morte, única constante na vida
Tentamos adiá-la para vivermos,
Vivermos intensamente cada dia
Para ao fim, quando o momento chegar
Possamos dizer que valeu a pena.
Templos e Ruínas
Algo puro, vento , fogo, sorriso
Criança, belo, puro, divino
Insensato, vazio, triste, pobre
Solitário, magoado, chorando, morre.
Repousa em sangue, medo, dor, agonia
Resta revolta, ira, vingança, mentira
Compreende vazio, frustado, o erro
Remorso. piedade, vergonha, desprezo.
Clemência, pondera, piedade, perdão
Apascenta, carinho, amor, paixão
Compensa, luta, empenho, vitória
Aprova, lágrima, abraço, glória.
Ressurge sagrado, forte, altivo
Honrado, másculo, supremo, digno
Mantém, constrói, vive, aprende
Sábio, livre, firme e sempre.
Ruídos
A luz se foi e as trevas ressurgem
Ruídos anunciam a sua chegada
Comuns ruídos provindos do nada
Convocam as águas piedosas que a noite convém
A lua torna-se absoluta no céu
A terra é coberta pelo cristalino véu
Um gélido silêncio domina o ambiente
E só se acabará quando o sol tornar-se nascente
Mas não pois feliz canta o pequeno animal
Seu ruído de resistência é o último sinal
Da vida que teima em não se calar
Brava resiste e quem cede é o luar
Confesso que em algumas noites duvido
Mas os raios de sol começam a despontar
A alvorada anuncia: O dia será lindo!
E a vida me prova que jamais devo duvidar.
Tempos de Glória
Ao som da marcha de um cortejo fúnebre
O poeta relembra seus dias de glória
Quando era aclamado por sua gente
E seu domínio reconhecido
O poeta, guiado pelo sonho,
Abandonou os seus
Lágrimas e pedidos de permanência
Iluminaram sua partida
Sentia-se amado por seu povo,
Mas, ao voltar, na certeza do dever cumprido
Decepcionou-se. Contemplou a rosa
Que agora mucha, por não ser regada, morre
Sua geração se foi e a nova não o reconhecia
Anônimo caminha pelas ruas
Sem ser notado, abandonado
Apenas mais um em meio a multidão
Hoje ele sofre e indiferente o tempo o fere
Vive a errar, sofria pois,
O pior castigo dado ao poeta
É ser esquecido.
Rostos do Passado
Conheço muita gente, Tantos anos!
Estiveram comigo tanto tempo
Tantos nomes que foram importantes,
Pessoas que ficaram para trás
Rostos de companheiros se perderam
São rostos que preencheram minha vida
Rostos que desbotaram até se apagarem
E que agora não significam nada
Me disseram que nunca esqueceria
Verdadeiros amigos, é verdade
Mas sei que outros também foram grandes
Não devia ser assim, desse jeito
Talvez tenham se esquecido, de mim
É muito querer que estejam comigo?
Quando Éramos Muito Jovens
Quando éramos jovens
Estávamos sempre contentes
Nosso sorriso alegrava os mais tristes corações
Acaso chorávamos era sinal de vida
E a vida se estampava em nosso rosto.
Quando éramos jovens
Tínhamos amigos, amigos sinceros
Não haviam mentiras, nem dúvidas
E no fundo dos nossos olhos
Todos podiam ver nossos sonhos.
Quando éramos jovens
Tínhamos um lar, uma família
Gente que se alegrava em nos alegrar
Pessoas que nos amavam
E não deixava o mundo lá fora nos machucar.
Mas já passou, tudo passa
Nos crescemos, sem devermos ser grandes
Pena que éramos jovens demais
Para nos lembrarmos de quando
Éramos muito jovens.
Carta, Por Um Suicida
A morte para os que vão
É só o ponto final
Colocado no poema
Um poema que possui
A obrigação de ser belo
Então ... por que estou chorando?
Não sei ao certo, talvez porque
Saiba que não fui capaz
De terminar o poema.
Hoje aceito que perdi.
As Correntes da Janela
Sei que aqui as correntes vão mais longe
Mas a janela nos concede liberdade e nos leva distante
É como ver o mar e não poder tocá-lo
É ter sua vida, mas, de fato, não a possuir
A janela me mostra muitas coisas
Pois em seus horizontes os sentidos são pequenos
Ela mostra tudo o que queremos ver
Talvez mais do que deveríamos saber
E mesmo por ela nada se oculta
Que ao coração do homem não seja estranho
Somente a janela conhece o sonho
Pois os olhos revelam o que o no peito se esconde
A janela me conta muitas coisas
Talvez nem todas sejam verdades
Ela é indiferente aos bons e aos maus
Aos que choram e aos que fazem chorar
Medo
Olhos se perderam na escuridão
E demais lembranças foram deixadas no passado
Porque alguém preferiu acreditar no medo
Do que ter que acreditar no sonho
São palavras que foram ditas em vão
Palavras que se deixaram perder
Eu não pude duvidar da dor
Por ela ser constante
Eu não pude entender a verdade
Por ele estar ausente
Mas apesar de tudo eu quis acreditar
Mas apesar de tudo eu ousei tentar
Seria teu medo de tentar
Maior que o meu medo de sofrer
Para que me impeça de sonhar meu sonho?
Para que te impeça de viver sua vida?
Saiba que eu olharia para onde você quisesse
Eu olharia ara trás
E se você se dizer machucada
Eu lhe abro o meu coração
Se você me falar em dor
Eu lhe conto o meu passado
E se ainda insistir, medo,
Eu lhe mostrarei meus sonhos.
Alheio
Se aquilo que tanto te afasta
É o que em mim julgas medo, te digo
Que o desconheço, posta que a dor
De cedo apresentou-me sua face
Cobras de mim palavras que não tive
Só poderia contar-te sobre mágoa
Já que a trago comigo desde a infância
Como fiel e atenta companheira
Como queres que aceite tuas mãos
Se tantas mãos outorga me feriram
Impondo a máscara que hoje ostento
E a pedra que pesa em meu peito
Como tu pedes a mim um sorriso
Se qualquer gesto de afeto desconheço
Pois tudo quanto é suspeito a quem ama
Estranha a quem não sabe ser amado
Como entenderia amor em seus olhos
Se em outros olhos só enxerguei vingança
E aquilo que te assusta nos meus
É o ódio que repasso no que vejo
Como esperas de mim teus sentimentos
Se neles conheci minha ruína
Tentei ser bom, mas não bastava pois
Entre os maus, mesmo o justo é castigado
Saiba que há mais que dor em meus olhos
Há mais que mágoa em meu coração
E outras coisas que jamais saberá
Pois eu jamais permitirei que sinta.
Vertigens
Ainda crescia e me encontrar tentava
Mas em meu mundo tudo se perdia
E as coisa que queria para mim
Onde foram parar? Como encontrá-las?
As doenças matava os grandes e os maiores
Eu via os bons caindo um a um derrotados
Poderosos ampliando seu poder
Maus concretizando suas vinganças
Parece que os anjos foram embora
Resta um vazio que fere, que mata
E destrói tudo que temos, que somos
Conduz ao inferno, nos mostra o demônio
E novamente me sinto sozinho
Mais do que nunca me sinto perdido
Não é este o caminho certo, mas...
Aqui as estrelas brilham mais fortes.
Carta a um Suicida
Cesse teu pranto, tome tua espada
Crave-a em teu peito neste momento
Faça-a teu castigo: abra uma chaga
De teu suplicio faça livramento
Redime-te de todo teu tormento
Eis a razão que te serve o punhal
A redenção de todo o sofrimento
Mais que a arma de beleza mortal
No flanco, enterre a faca concedida
E entenda assim o fim de teu lamento
Apascentando então tua alma aflita
Saiba a adaga uma amiga querida
Em verdade o inimigo é o tempo
E o tratante que te pune é a vida.
Carta, Por Um Suicida
I
Lâminas e rosas
E são rosas vermelhas
E não valem nada
Digo apenas lágrimas
Hoje é somente sangue
Mas aqui é tudo o que fica
Aqui é tudo que deixo
E deixo mais, deixo a mim mesmo
Deixo o que não quero
Lâminas e rosas, são rosas vermelhas...
Se hoje as ofereço é tudo que tenho
Chego ao fim e aceito que perdi.
Castelos e Construções
Que fim levou aqueles homens?
Queríamos seguir este caminho juntos
Então por que eles partiram?
E por que não voltaram?
Vamos reaver nossos sonhos
Que em meio a frustrações foram deixados para trás
É o que precisamos para reerguer um castelo
Ao deixarmos no passado a lembrança de tudo que perdemos
Vamos acreditar que nada daquilo morreu
E assim retornaremos ao fim
Pois foi de lá que começamos
E é de lá que tentaremos de novo.
JURAS QUEBRADAS
Hoje os dias são iguais
Mas eles nos forçam ao passado
Quando um juramento foi quebrado
E sonhos ficaram para trás
Começar do nada é começar sozinho
A mão estendida diz que algo foi perdido
São belas palavras que foram ditas
Palavras que foram perdidas
Pelo que entoaremos nossos hinos
Se nossas histórias ecoam no passado
É isso que contaremos a nossos filhos
Contos que descrevem um fracasso.
AS CORRENTES DA JANELA
Sei que aqui as correntes vão mais longe
Mas a janela nos concede liberdade e nos leva distante
É como ver o mar e não poder tocá-lo
É ter sua vida, mas, de fato, não a possuir
A janela me mostra muitas coisas
Pois em seus horizontes os sentidos são pequenos
Ela mostra tudo o que queremos ver
Talvez mais do que deveríamos saber
E mesmo por ela nada se oculta
Que ao coração do homem não seja estranho
Somente a janela conhece o sonho
Pois aos olhos revela o que o no peito se esconde
A janela me conta muitas coisas
Talvez nem todas sejam verdades
Ela é indiferente aos bons e aos maus
Aos que choram e aos que fazem chorar