
Igor ANATOLI
Trechos de livros e trabalhos do autor
0 Introdução
Saiba hoje, oh incauto, tu que buscas encanto
Nas palavras carregadas de ternura de um poeta
Que há mais que poesia no verbo que te encanta
Há sonhos, que foram capazes de preencher toda uma vida.
1 Aos Poetas Que Se Foram
Há muita dor no coração de um poeta
Eis o que o difere dos outros homens
Entre tantos ser capaz de senti-la
Sem a morte impedi-lo de cantá-la
O poeta é uma alma atormentada
Onde por muitas vezes o tormento
Deste mundo não permite que parta
Sem pela arte o fardo aliviado
Ausente a eloquência antes concedida
Eu conjuro os espíritos errantes
A perder vossas paixões em meus versos
E em meu mundo os dons que inda carregam
Cantai aqui vossos versos mais belos
Não permita a morte vos impeça o canto
Vinde a mim e de meus lábios, vos juro
Que assim tereis viva vossas palavras
Trazei a meu peito a intensa mágoa
Mesmo esta que vos impede de partir
Deixai aqui toda dor em arte
Livrai-vos da marca dos que não partem
Quero ouvir teus sonhos mais secretos
Como se eles de fato fossem meus
Preciso que conte-me sobre a vida
Aproxime-se e diga-me o que enxerga
E assim virão os pássaros da noite
Que clamam a alma dos que se perderam
Ou concedem a salvação eterna
Aos que terminam de cantar seus cantos.
2 Juras
Toda dor que hoje aflige, todo medo que atormenta
E tudo quanto mais me falta teria por completo saciado
Se a mão agora estendida fosse por ti aceita
Como o caminho por onde sigo e que de certo conduz distante
Para um lugar onde possuiria poder, porque teria você
E juntos teríamos o mundo e eu te daria tudo
Daria os meus sonhos, meu próprio ser
E isso seria pequeno perto da grandeza dos dons do meu querer
Neste mundo o que não te pertence não existe
Então só haveria você e eu e o que nosso amor tocasse
Que cresceria posto que do nosso amor em comum se faria vida
Seria meu filho, que concebido por ti seria como tal fruto nosso
Sinta e se aceitares tudo que te ofereço
Ainda hoje viria reclamar o que de ti me pertence
E eu teria para mim, de teu próprio ser, tua alma
Do teu corpo, a essência de tua vida, que faria minha
Isto que em meu peito arde é o que este mundo nutre
E suas portas se abrirão se você aceitar vir comigo
Entre e olhe o céu, veja como ele é mais belo
Porque em tudo se vê sonho quando no olhar há mais que um br
3 Canções ao Oceano
Escutai, oh, Senhor dos Mares, que perante mim hoje cessa vosso martírio
A maldição que desde o início das eras é a ti imposta
Como tormento que repassas aqueles que adentram vossos domínios
Acalmai vossas águas hostis e tornai manso o manto que te cobre
É o que vos conjuro posto que minha criança assim o deseja
E não é de minha vontade que nada a perturbe
Honrai-vos por minha criança citar vossos reinos em um seu sonho
Desde logo minha razão de ser é satisfazê-la e por isso eu vim
Para vos apresentar e apontar-lhe o infinito de vossos horizontes
Enviai vossa espuma mais doce para tocar suave sua pele singela
Não quero o temor em seus olhos, mas o anseio de estar em seus braços
E quando a possuirdes, dai graças pelo momento mais glorioso de vossa existência
Concedei todos vosso dons a minha donzela, ordenai vossos criados
Que a sirvam e que vossos súditos se prostrem diante de sua doçura
E assim será, enquanto ela deseje banhar-se em vossas águas
Então mais um mundo se desfaz, posto que saciada ela partirá
Deixando-vos entregue a eternidade de vosso suplício, sabendo pois,
Que foi válida vossa existência para vivenciar esse momento de glória.
4 Radiá
Ergue-se a margem do deserto minha tenda repleta de tristeza
Porque ela partiu levando consigo a alegria que recobria esta esplanada
Tudo é frio no seio do deserto, na cabana de um homem que se desfaz em lágrimas
E mesmo a natureza por um instante para a contemplar uma alma que chora
Por anos mantém-se estático o sol poente ambientando um cenário de lamento
E a púrpura luz do crepúsculo é ademais negada a uma cabana desgraçada
Sou assim entregue a solidão desde que meu peito rasgado teve o amor perdido
E sua luz, que iluminara meu mundo e fizera dia minha vida fora por completo apagada
Uma alma melancólica vaga errante pelas areias escaldantes do deserto
Levo a lembrança a tenda abandonada envolta a labaredas e línguas revoltosas
Do inferno em chamas, que o fogo como o sentimento não aquece
Que não reluz como o brilho esplêndido de minha amada hoje distante
Sim, tudo se perdera, posto que nada vale frente a perda maior de minha vida
Foi-se com teus olhos a inspiração de um poeta num caderno de páginas vazias
Foi-se a pintura, que na parede da cabana imunda, o seu sorriso concedia graça
Tudo de valor fora um dia contigo, o que possuo é lixo e o que resta é nada
Por noites insones caminho solitário pelas ruas obscuras da cidade
Há mais que solidão em seus becos perfumados por pétalas de rosas:
Ela esteve aqui e partiu, mas a chuva da madrugada varrerá seus passos
Lavará minha alma e talvez leve consigo a lembrança de um dia ter amado
Só pude cessar minha marcha ao vir a encontrá-la entre aqueles que dormem
Prostrei-me diante de seu leito para velar em prantos seu sono
E velarei alheio a vida por todas as noites até o dia em que virei a dormir convosco
E deitarei ao seu lado, para sonharmos juntos sonhos por toda a eternidade.
5 Porto Seguro
Conheça pois, do mar, o marinheiro que contra as águas luta para vir a tona
Quem é este que enfrenta o abominável sem temer a morte?
Entre os oceanos ele fizera estrada sem deixar pegadas suas
Ao se perder sem forças na tormenta sem contudo desistir da vida
Mas dos deuses, a graça, aos homens que de fato é por direito merecida
Assim eu vim a aportar naufrago no seio desta praia bendita
Que concedera abrigo como uma mãe a um filho, a um filho querido
Que se perdeu na imensidão do vazio tendo sobrevivido por haver persistido
Guardei-me a selva entre ruínas a muito esquecidas de um altar
Que tornei lar, fortaleza de um homem que cansou de vagar
E do regresso afasto-me o desejo, permito dos navios o passar alheio
Cuja a lembrança, a noite, aproxima a nostalgia, reabre a ferida
Mas peço ao tempo que apascente a alma deste que os mares desbravara
Já apreciei das sereias o canto, narrei histórias de vida, levei fantasia
Porém hoje só desejo a paz que se permite a todo homem sonhar
Para adormecer sorrindo coberto pelas areias que certa vez ofereceram abrigo
6 Entre as Dunas do Deserto
Conte-me, peregrino, da árida e infértil areia do deserto
Conte-me da solidão do caminho vazio e incerto
Porque esta dor entendes, mas ela não te atormenta
Porque tu a temes e ela te respeita
Não é o calor insuportável ou todo ardor do corpo suado o que mais fere
Mas a incessante marcha solitária, onde tombo, mas que a ti indefere
E apesar de nada valer a pena quando se está sozinho, em ti vejo fortaleza
Pois na vastidão do deserto, tu te completas, irradiando sabedoria e beleza
Conte-me, peregrino, de tua força, se no olhar não tens a magia de quem ama
Em pleno vazio, apesar de sozinho, dê-me força viva como chama
Erga-me da queda e ao nos encontrarmos de novo eu te chamarei de amigo
Eis a magia, que hoje compartilho e onde fores a levarás contigo
Abra-se entre dunas e tempestades meu caminho
Faça-se do caminho direção segura a meu destino
Conduza-me então, peregrino, sirva-se de minha magia
E na peleja do deserto, saberás que é ela que te guia.
7 Quem Inspira a Canção
Ausente-se de mim por completo a dor
E desde logo se calará o canto
Posto que qualquer sofrimento é suspeito ao poeta
Para inspirar-lhe em versos o que lhe convém a vida
Quem é capaz de retratar a beleza de modo tão intenso a encantar
É porque viu de perto a ruína sabendo a maravilha do que fala
E se recusa em permitir tal existência alheia aos tolos
Que desconhecem a magia que os sábios eternizam em arte
Mesmo os amantes que descrevem virgens perfumadas
Reconhecem na distância a melhor maneira de cantá-las
Quando solitários em seus quartos e pela saudade entorpecidos
Se reconhecem em versos agraciados em senti-la
Sagrada são as páginas ungidas pelo pranto sincero
Pois na mais aguda dor se compadecem os deuses do poeta
E do beijo que lhe toca os lábios surge a canção
Então o chorar é gratidão, pela beleza que em desventura se fizera
Quem lê quer sentir-se tocado pelo que afeta a quem escreve
Anseia pela mais impetuosa emoção, a qual seu peito não se atreve
Mas que abunda no melhor poema do poeta que em sentimento sofre
Que em tudo lamenta a perda, que sente as feridas e eloqüente chora
8 As Casas da Colina
É a primeira vez que o menino vê o negro oceano com olhos de saudade
A rubra luz apagando-se no firmamento relembra o sangue que se perdera
Levando-se consigo a vida daquela mulher que fora amada por dois homens
Melancólicos como eles, as águas encontram consolo no colo da areia fria da praia
É mais difícil para um pai que lamenta a dor de um filho que se desfaz em lágrimas
Ao filho, a certeza da perda destrói as fantasias de criança que o pai havia lhe dado
Com toda pureza da idade, sereno, ele lhe cobra a verdade
Tudo é dor quando, da vida, um pai tem que dizer a um filho
Que tudo se perde e só o que realmente temos levamos conosco
Qualquer mágoa hoje não é tão distante do jovem ferido
Mas o que ele entende de Deus é bastante para aceitar que é preciso abrir mão
De tudo que aqui possuímos para atravessar as fronteiras da vida.
9 Lamentações das Almas
Pecador que está sonhando, acordai quem está calado
Pecador que está acordado, acordai quem está dormindo
Para que suas almas não se juntem aquelas que caminham
Por desejarem estar longe daqueles que morrem, do seu destino
Eis a data maldita em que se apagam as luzes da cidade
Para que o brilho dessas almas iluminem a noite
Enquanto avançam pelas ruas manchadas de sangue
Entoando seus lamentos pelos pecados em vida
Aos mortais, o apego a carne vil os convulsiona
E os leva a temer pelo que não tem valor algum
Em receio eles trancam suas janelas, se escondem
Enquanto ouvem cantos que decantam suas vidas
E quem não teme a verdade tendo o peito puro desnudo
É repleto de admiração frente ao brilho esplêndido das tochas
Onde ardem os pecados que estes amaldiçoados cometeram
E privados da paz, hoje a buscam nesta vigília de flagelos
Eis o dia das almas que se perderam entoarem seus lamentos
Por não terem feito magia em vida, por não viverem fantasia
E elas imploram o indulto ostentando seu martírio para advertir
Aos pecadores que dormem, acordem, para não terem o mesmo fim.
10 Pneumonia
Quando um vento frio adentrou minha porta
E tocando meu peito disse que eu deveria voltar
Eu entendi ter que retornar da vida sem ainda ter vivido
E pela última vez ouviu-se um grito de lamento em meu lar
Majestosa Dama da Noite que tudo trata de perder
Do campo, inundou-me os aposentos com suaves aromas
Para no próprio leito velar um corpo doentio em desgraça
Alheia a dor da partida solitária que causara
Valha-me os anjos pelos atos de bondade
Valha-me a abnegação ainda que por virtudes forjadas
Permita-me sabor aos lábios, olhares e desejos ainda em vida
E afaste de mim a donzela e seu beijo de minha boca ferida
De certo é fato que um dia me conduzirão os pássaros da noite
Mas só venha a fechar-me olhos ao terminar de cantar meu canto
E antes que em prantos se perca qualquer minha lembrança
Em toda dor de nosso reencontro, eu lhe sorrirei no entanto
11 Salmo 35
Saiba os ímpios que sem causa me odeiam, tramaram-me laços
Levantam iníquos testemunhos, me argüem de coisas que não sei.
Quando tropecei eles se alegraram e se reuniram contra mim
Não falam de paz, tramam enganos contra os pacíficos da terra
Estando eles enfermos, as minhas vestes se fizeram pano
Reclinei-me em oração sobre o leito velando-os em jejum
Portava-me como se fossem meus amigos ou irmãos
Andava curvado de luto, como quem chora por sua mãe
Não te calas, Senhor, não te ausentes de mim!
Acorda e desperta para me fazeres justiça
Peleja, Senhor, contra os que pelejam comigo
Livra o aflito daquele que é por demais forte para ele
Sejam confundidos os que buscam tirar-me a vida
Retrocedam consternados os que tramam contra mim
Torne-lhes o caminho tenebroso e escorregadio
Envergonhem-se os que se alegram com o meu mal
Alegrem-se em júbilo os que tem prazer em minha retidão
Pois exulto-me no Senhor e me deleitarei em sua salvação
Dar-te-ei graças e louvar-te-ei em meio a multidão
A glorificar Este que se compraz na prosperidade de seu servo
12 Grito de Justos
A verdade será ouvida porque os bons a repetiram
E hoje requisitadas minhas palavras em audiência
De minha boca nada mais que a verdade se ouvirá
E qualquer julgamento enaltecerá minha fortaleza
Prestigio minha alma pela perseverança na verdade
E prodigiosamente manterei altiva minha voz
Junto a bravos que sustentarão o mesmo clamor
E em coro decantaremos a sublime beleza da verdade
Outrora se escapara de minha boca a infecta mentira
E tão rápido sobre mim se abateu o castigo dos maus
Porque em tal instante me igualara em perversidade
E admitira para mim o mesmo erro dos hipócritas
Dos tolos só obterei a dúvida por serem alheios a verdade
E apesar de esperarem a falsidade de meu testemunho
Se frustarão, e a força de minha virtude manterá tal decepção
Até que outras vozes entoem o mesmo brado clamando por justiça
Homens serão punidos por fazerem o que é certo
E sua voz se calará ante a força opressora da violência
A arma que cala o grito dos justos desejosos da verdade
Tão perniciosa que tanto o mau quanto o inocente fere
E mesmo que caído pela força, um grito que evoca a verdade soa
Para ecoar mais alto no peito de quem se vê injustiçado
E ante esse apelo, sempre que alguém se ver distante da liberdade
Erguerá seus braços lançando-se a uma luta pelo que acredita certo
Mas indifere-me os riscos ao proclamar verossímia palavra
Nada afligiria-me mais que declarar um depoimento deturpado
E de certo em tal momento a vergonha calaria minha boca
Por jamais ausentar-se de mim a virtude que sustenta meu caráter
Faça-se baixa minha voz entre sussurros escandalizado dos corruptos
Pois eles se admirarão ao ouvirem a verdade que tanto repugnam
E enquanto audível for meu canto, os bons se juntarão a minha luta
Por acreditarem que a liberdade é responsabilidade de todos.
13 Uivos na mata
Eu ouço o sussurro dos lobos famintos
Por uma criança que corre na mata
Mas já é noite e elas não deveriam estar rindo
Deveriam estar presas em seus quartos caladas
É por isso que ordenam que elas parem de cantar
Para que um dia seus cantos não ecoem como gritos
Distintos das canções que já foram cantadas
Aquelas que se confundem com os uivos da mata
E impelem nossas crianças a seus quartos caladas
Saiba que elas não precisam jogar
Que apesar dos lobos existe o luar
Deixá-las cantar e pela mata correr
Deixai em seu peito o que existe crescer
14 Nostalgia
Por sempre haver partido e no lugar passado
Cada emoção sentida, amargurada ou pura
No peito, cativa e apascenta por carinho a perda
Hoje, a distância, resta à lembrança a dor que fica
Como chaga dolorosa que profundo vai e fere
E a outros se repassa por quem a compartilha
Se percebe e entende como mágoa aquilo que se deixa
Urge a partida se o destino convém e a guia
A uma meta que distorce o que outrora foi verdade
E mesmo saudade, se desmerece o jubilo da chegada
Abrilhanta e enaltece a nostalgia que então nasce
Tornaria assim, por mais virtuoso, ao mirar-se magia que se passa
Conservar aquilo que em si vale e engrandece
E levá-lo consigo à partida derradeira como prestigiosa vitória
15 Valsa
Entre damas e cavalheiros, o mais ousado
Entre cavalheiros e damas, a mais prendada
Insensato coração que a desejou ciente da partida
Não poderia ser minha, ficar, não deveria
Ousadia do desejo da alma, o prazer de uma valsa
Foi a despeito da música num silêncio dançar:
Uma folha caindo, no mar o navio, uma noite a bailar
Uma folha caindo, no mar o navio, uma noite a bailar
Ela tocou-me os lábios e me pediu para calar
Disse que não era preciso palavras, não era preciso falar:
— Não olhe nos meus olhos, desvie o olhar
— Os olhos dizem muito e eu não quero falar
O tempo é sensato, o coração incoerente
No silêncio pulsando o peito a lamentar
Os acordes não cessavam, mas urgia a partida
A noite é efêmera, infinita a cantiga
Não quero mais histórias que se sonham numa noite
Abdiquei-as ao esquecer às luzes quem fora predileta
Segui meu caminho sem olhar para trás, talvez o destino
Reviver a cantiga, ficar ou partir talvez, sem precisar
16 Saudade
É o pardo de uma carta envelhecida pelo tempo
É um olhar distante que não mira coisa alguma
Um gosto amargo a incomodar a garganta
São olhos melancólicos sob a chuva
É recostar sua cabeça ao leito insone
Calar a pergunta sem se contentar com a dúvida
Um motivo para chorar escondido
Um caminhar lento pela rua
Lembrar, na angústia do desejo de esquecer
É a razão para se reviver uma cantiga
Porque um homem beberia sozinho
A praia vazia, noites frias, os dias
É querer estar em outro lugar
Uma breve lembrança do que é felicidade
É a dor mais doce e mais amarga que se sente
É saudade.
17 A Estrada Velha da Saudade
A Estrada Velha da Saudade
Nos remete a lembranças então reveladas
E na velocidade de cada curva revivida
O que nos separa daquilo que mais amamos
É também o que nos une, é a estrada
Que tem princípio na saudade e não nos leva a nada
A beleza da paisagem, querer estar lá
Recôndito de lembranças perdidas
Percorrer estes campos, recordar
No olhar um sonho, nostalgia
Rostos, paisagens, lembranças e canções
O que a janela nos revela foi a vida
Muito de nós ficou entre o asfalto e a montanha
Perdemos poesia nesta pista maldita
Deixamos nossa vida.
18 Poeira de estrada
Poeira de estrada
Coberto de pó o suor não nos incomoda o corpo
E ninguém pode tirar isso de nós
Enquanto trouxermos no olhar um sonho
Conhecer as praças de um país recortado por estradas
Seus templos e construções, o próprio mapa
Nas trilhas de barro abrir porteiras
Libertar manadas
As mais belas mulheres, camponesas de recato
Devassa selvagens, de matas e cidades
Embriagar-me e embriagado deixá-las
Festas de estrada
Preferir a colônia do porto a marina
Na vazante do rio baloar na barra
Ter com os pescadores
E do pescado a praia
Poeira de estrada
Coberto de pó o suor não nos incomoda o corpo
E ninguém pode tirar isso de nós
Enquanto trouxermos no olhar um sonho
19 Cacheiro Viajante
Menestrel pelas praças e pampas do sul
A cantar saudades da amada abandonada
Ao seguir candango ao centro do país
E fazer morada nas palafitas do Araguaia
Balseiros nos rios do norte
Jagunço de grileiros, seringueiro em seringais
Migrante bóia fria do sertão ao canavial
Fora o caboclo na caça ao jacaré, conheceu o pantanal
Nos baixos da Bahia em dias de verão
Baloou com o caiçara por toda madrugada
Seguiu estradas de ferro e de barro batido
Sucumbiu ao frio no Ita para o Rio
Astuto cacheiro viajante
Maldito meliante errante
Levara o escambo aos quatro campos
Para envelhecer na metrópole ambulante
20 No Silêncio do Teatro
Tornou-se dos homens a maior personagem
Ao permitir que entre as cenas se perdesse o ator
Fizera um plágio de um mero ensaio que chamou de vida
Não foram suas as palavras e sequer seu o sentir
Não mais que um improviso pelo ato requerido
Uma farsa que ao grande público agradara
Fora alheio ao instante da catarse
Indiferente ao entusiasmo que causara
Por trás da máscara que a tragédia interpretava
E ao deixar o tablado tendo as falas encerradas
E apagarem-se as luzes do teatro entre aplausos
Que caia a máscara e reste o ator que se perdera.
21 Nos Trilhos da Estrada de Ferro
Era o gosto do corpo das noites passadas que amargava
Eu caminhei embriagado pelos trilhos de trem abandonado
De um lado o perdão, do outro o pecado, sem tê-los tocado
Caminhei por toda a noite desorientado, eu caminhei calado
Cortejo de vultos demoníacos entre as árvores e ruínas
Questionavam as juras e riam, selvagens injúrias incontidas
Medonhas feições a enfeitiçar com o mal a noite maldita
Fitavam-me desde o inferno, minhas promessas e mentiras
Cansei-me em meio a desgraçada caminhada
Pelas ruas obscuras de uma cidade adormecida
Almas que vagavam melancólicas vieram me advertir da vida
Que eu seria julgado pelos erros, que me cobrariam mentiras
Contaram-me do julgamento e que eu não suportaria a punição
Pois recairia sobre mim a fúria divina por debochar da vida
Pela heresia de serem maléficas as palavras e as ações destrutivas
Por ferir o puro com toda virtude que me fora concedida em demasia
22 Casas Escuras
Um olhar de agonia em corpos deformados
Gestos insanos acusavam feições doentias
A expressão da dor estampada em cada rosto
Eram almas que clamavam pela morte
Elas gritavam sem serem ouvidas
Lancei lamentos e blasfêmias por tais criaturas
Por sabê-las inocentes da pena que as perturba
Então as deixo a entoar seus cantos de desgraça
Sabendo que minha tristeza na noite se perderia
Mas o suplício daqueles homens seria pela vida
23 Filhos do Mal
24 A Estrada
O mundo estava mudando e alguns homens estavam se perdendo
Eles seguiram o caminho errado e talvez não houvesse como voltar
Porque cometeram erros e terão que pagar as conseqüências
Por preferirem acreditar em mentiras do que não acreditar em nada
Porque eles estavam tentando se encontrar, mas não gostavam do que achavam
Eles tinham planos que foram deixados para trás
Porque queriam respostas, mas procuraram nos lugares errados
E compreenderam que estavam longe, longe de onde deveriam estar
Por ousarem saber demais, mais do que deveriam saber
Porque não há limites para o mal em ocultar a verdade
Então eles choraram, sem motivos para chorar
Porque alguns homens conheceram a verdade e ela machuca
E ainda assim eles ousaram sonhar um sonho que fora esquecido
Havia um caminho a ser trilhado árduo demais
Onde se cogitava a morte como uma das opções
Porque já não valeria a pena viver se fosse para perder
Então eles aceitaram lutar uma luta perdida
Porque perderam tudo, mas estavam dispostos a tentar
E sabiam que conseguiriam voltar, se estivessem vivos
Porque eles tentariam enquanto houvessem possibilidades
Eles doaram seu sangue pela vitória
Mostrando que os bons não desistem, não reconhecem a derrota
E que a dor não os mata, o tempo não os fere
Assim foram além do que realmente são, foram mais alto
Porque sempre podemos ser mais e melhor.
25 Pedidos
O sonho ainda não acabou, mas a era das canções se foi
Nas lágrimas que lavaram dos olhos a ternura
Por isso preciso que faça-me sorrir, somente por fazê-lo
Pelo mero fato de amar-me
Então me dê as mãos
E me convide a caminhar novamente pelos campos
A soltar minha voz como tantas vezes já fizera
Antes de se fazerem amargurados os lábios que te beijam
Faça-me cantar e eternizá-la em verso pela vida
Faça-me sonhar como jamais sonhara
Faça-me sorrir como a muito não sorrio
E amar-te, como nunca antes fora amada por ninguém
26 A Coroa
Sabe-se do poderoso rei
Que de nada lhe velaria a coroa
Se o privassem de sua preciosa rainha
Posto que a riqueza convém ao trono
Mas só o amor satisfaz o homem
E sabe-se mais do rei
Os sábios que conhecem sua fraqueza
São os que estão ao seu lado
E compartilham seu sentimento
Meramente por amá-lo
Saiba o que edifica seu reinado:
A humildade de seu coração
A pureza de seus atos.
Conheça pois tua majestade
Faça-se rei e seja coroado
Das Canções
27 Elísios de Partida
Cantarei aos ventos outros cantos
Cantos que outrora já cantei
Hoje apenas lembranças de uma vida de ventura
Com lembranças que não tive de sonhos que sonhei
O sol não diz nada, não sabemos se ainda tenta
Num silêncio que se ouve se o vento cessa o seu ventar
São coisas que te disse e aos outros sei que diria
Se os cantos que eu canto o vento fosse levar
Frente a chuva, vento e água
É lento e não deixa esquecer
Gotas nos contam rancores dos traumas
Lembranças que não se consegue perder
Há cantos que os ventos cantam para nós
Coisas bonitas que não deixaremos morrer
Belas canções que decantam grandes amores
Contra as dores e contra as canções de outros cantores
Que o vento voe e leve embora lembrança das dores
Que o vento voe e traga a mim o que cantares
E assim, como chegará a mim o que cantas
Rogamos que leve nossas canções por cantarmos a paz.
28 O Poeta
Sou um dragão de fogo alado enfurecido pela dor
Sou a covardia do verme ao devorar um corpo inerte
Sou o próprio mal que cobre a terra, sou a vingança
Sou um lobo faminto que ruge e a mesma dor que o perturba
Sou a fúria de legiões de vândalos a promover barbáries
Sou um tornado, pestes e pragas a devastar cidades
Sou a completa frustração, da derrota o derrotado
Sou revoadas de pássaros que voam e que se perdem
Sou a decepção de um tuberculoso que caminha
O doente terminal e seu filho, sou sua filha
Sou as lágrimas que molham o rosto de quem ama
Sou quem chora, quem mata, quem destrói, quem se encanta
Sou o bardo a decantar os feitos de heróis
Sou suas canções, fazendeiros e plantações
Sou o prisioneiro no calabouço que se inunda
Sou os ratos que na noite correm pelas ruas
Sou explosões, genocídios, povos em guerra
Manadas em fuga, incêndios, florestas
Sou o soldado tombado no campo de batalha
Sou as lembranças da criança, os ventos, a amada
Sou o escravo e seu senhor, a humildade e o escárnio
Sou o aconchegante poder do sono, o carrasco
Sou o profeta, o abismo, pássaros, cinismo
Sou profano, sou eterno, imortal, sou o destino
Sou o prazer carnal, sexo, convulsões
Sou das igrejas orações, sou o amor, paixões
Eu sou o tudo sem sentido, sou divino, sou herege
Sou eu quem glorifica a palavra, quem escreve
E o que puder me transformar os versos
E tudo aquilo que me permitir a poesia
30 Carpe Diem
Eu vim trazer sonhos
Abra seu coração
Inunde-o de desejos
Eu quero magia em seus olhos
Eu vim trazer sonhos
Eu vim entoar poemas
Eu vim ouvir crianças
Eu vim cantar cantos
Eu vim trazer sonhos
Esse é nosso tempo
É nosso último dia
Eu vim trazer vida
Eu vim trazer sonhos
Eu digo carpe diem
Essa é nossa lei
E ai de quem descumpri-la
31 Bem-Te-Vi
Oh! Bem-te-vi
O que afirmas ter visto
Que não nos conta?
Voaste ao longe
A saber de coisas
A nós distantes
Pelo que então cantas
Em tardes que me calo
Sem esperança?
Pelo que então cantas?
Lágrimas por uma amada,
Sonhos ou venturança?
Volte, oh, Bem-te-vi
E revele teus segredos
Lágrimas, sonhos ou desejos
32 Mensagens
Libertem estes pássaros encarcerados
Deixem-nos partir a levar mensagens
E dizer a quem amo que sinto saudades
Voem e digam a minha amada
Que aquele que a ama ainda a espera
E aguarda ansioso sua chegada
Digam-na quem decanto em minhas canções
Digam por quem peço em minhas orações
Que queria lembrar um rosto e lembrava o dela
Contem-na como passo minhas noites
E sobre quem os anjos vem perguntar em meus sonhos
Contem como é ruim esta solidão, como dói estar sem ela
Libertem-nos apesar de incerta sua chegada a algum lugar
Pois junto a dúvidas eles levarão esperança
De um coração que chora e que é feliz enquanto sonha
Eu conheço o rumo dos pássaros
Deixem-nos irem para onde sempre voaram
Eu sei para onde eles foram e sei que nunca voltaram
33 Lágrimas no Oceano
Observe, fixados teus pés a esta galera,
Atentamente a linha do horizonte
Compreenda que assim como é para ti duvidoso
O ponto de encontro entre o mar e o firmamento
É de modo similar angustiante para mim
A incerteza acerca dos sentimentos
Que aquecem o coração da donzela
Que hoje motiva o pranto então chorado
Posto que a amo, mesmo sem saber
Quem é por ela amado.
34 Pássaros
Quem não se alegraria em revê-la
Quem não se alegrará
Pois é como o pássaro que canta
Sem a intenção de encantar
É como o pássaro que encanta
No simples ato de cantar
35 Quem Não Se Alegraria
Doce é meu caminho e suave meu caminhar
Pois quem não se alegraria em revê-la, quem não se alegrará
Findada a noite, num beijo entrego-te em teu lar
Quem não se entristece em deixá-la, quem não gostaria de ficar
Quem, conhecendo-a, não a desejara
E vendo-a partir não caiu a lamentar
Fui incapaz de entender teus olhos, por quê?
O que eu ignoro quem não se ocuparia em compreender
Por que de tua partida manténs duvidoso o dia que retornará?
Velarei as noites te esperando aguardando tua hora de chegar
Pois doce é meu caminho e suave meu caminhar.
Quem não se alegraria em revê-la, quem não se alegrará.
36 Lembranças de Pecar
Que pereça ante ao tempo todo bem
E a própria vida se consuma no passado
Entre as ruínas tal registro não se perca
Que viva e permaneça este relato
Me consuma a infâmia deste grito
Por jurar cantar teu nome mesmo em pranto
Indeferida a sorte que me anima
Mesmo a morte teu nome irei cantando
Salve a Musa que me inspira a arte
Declamo em verso prazer de vê-la amada
Vendo-a, me basto em sagrar sua lembrança
Para, ausente, valer-me o gosto de lembrá-la
Confesso à dor ingrata que me pune
Se em tudo foi pecado dizer amo
Recuso o perdão oferecido e bramo
Castigue-me Deus por continuar pecando.
37 Abnegação
Eu morreria por ela
Porque ao seu lado conheci felicidade
E sem isso não vale a pena
Não vale nada
Eu abriria mão de minha própria honra
E não há outra coisa que sustente o homem
Mas despojado de orgulho, eu implorei perdão
Pedi que ficasse
Por ti deixaria meu castelo, minha espada
Pois fora tu minha única rainha
Porque te vi bela em meus sonhos
E te faria amada em vida
38 Anjos
Fora o ápice da criação divina
Quando o criador desenhou algo belo
Por desejar que eu aprendesse a amar
Ele a enviou, o anjo que o criador criou
Fora meu motivo maior para sorrir
Mas o celeste entre os que morrem não caminha
Porque deles ao mundo é preciso o canto
Distante das canções que entoamos
Fui feliz ao entender o destino como graça
E a fiz a razão do poema nos versos do poeta
E apesar de sozinho, assim entendi o anjo dela
Vendo no amor que causara uma dor que liberta.
39 Uma Noite Longa
Fora a noite mais longa de minha vida
Ela sentou ao meu lado e não disse muito
Ela evitou dizer e me pediu para não chorar
Fora o beijo mais amargo de minha vida
Eu a toquei sabendo que seria pela última vez
Foi tê-la, sem em instante algum possuí-la
Fora o desejo mais sincero de toda minha vida
Que durasse para sempre o momento
Ou que ao menos a lembrança fosse plena
Foram as palavras mais difíceis de minha vida
Da boca sedenta não se escapara o adeus
O lábio inconstante não pronunciou o fique
Fora o sonho mais triste de toda minha vida
A revoada de pássaros levou consigo a primavera
Eu quis ir com eles, mas amanheci sozinho
Fora o que de mais precioso eu tive em minha vida
Fora o sorriso do meu rosto, foram as rosas do jardim
Fora tudo que eu tive, fora tudo que perdi
40 Eu Vim Dizer Adeus
Eu vim dizer adeus
E sabia que as palavras doeriam
Mesmo a mim e aqueles que a ouvissem
Eu me aproximei da praia
Com um pouco de amargura no olhar
Com um pouco de tristeza
Mirei o vazio e tentei lembrar
Lembrar para em definitivo esquecer
Então eu soube que não conseguiria
O gosto amargo na garganta
Meu próprio silêncio incomodava
E me calei por medo de chorar, eu evitei falar
Eu vim dizer adeus
Com lágrimas nos olhos
E com vontade de ficar
40 Partidas
Lembrando-me daqueles que partem
Receba agora da distância saudades
E sei das partidas a dor
Por tantas vezes haver partido
Deixando partes magoadas de mim
Na dor de perder o que nunca lhe pertencera
Falta que para saciar esforços não mediria
Eu deixaria tudo por mais um dia ao seu lado,
Contentaria-me com mais uma hora,
Talvez um único olhar me deixasse satisfeito.
41 Canção de Um Único Acorde
Eu fiz uma linda canção
De um único acorde
Inspirada na dor amarga da saudade
Eu fiz uma canção triste
Eu fiz uma linda canção
Que serviu de homenagem
Anônima e efêmera
Mas de refinado recato
Eu fiz uma linda canção
De melodia melancólica
Porque em tristeza se consumia minha alma
E é ela quem compõem as canções
Eu fiz uma linda canção
Onde os arranjos surgiam das lembranças
Que preencheram toda uma vida
E que agora não significam nada
Eu fiz uma triste canção
Cuja letra me fora revelada em sonho
E com lágrimas foi escrita a canção
E eu não fui capaz de cantá-la
42 Lembra de Mim
Lembra de mim
Sou aquele que um dia te amou
E conheceu a dor
Que se apresenta a todo aquele que ama
Lembra de mim e de tudo que por ti se fez
Minha primeira e mais bela canção
Um jardim em meu lar, meu olhar,
Minha oração, nas noites de chuva, solidão
Lembra de mim nos teus dias de felicidade
Lembra das lágrimas
Que caíram distantes pela ausência
E foram incessantes
Lembra de mim
E que meus lamentos foram unicamente por ti
Em teu nome soube o que era frustração
Conheci saudade
Lembra-te então de mim
E do carinho do toque de minha mão
Do amor, das flores do jardim
Lembra da canção
43 Esquecer para Lembrar
Eis o mais belo pássaro
A entoar a mais linda canção.
Eis o poente
A convidar aqueles que voam a seus leitos.
Eis a solidão
Eis o outono
Quando tal pássaro migra
Rumando ao norte sem se despedir
E leva consigo canções
Que jamais voltarei a ouvir
Voe pois,
E leve consigo meus sonhos
Leve consigo a esperança
E deixe que se esqueça, que se perca
Deixe, contudo, aqui, a lembrança.
44 O Dia Seguinte
Veja, o dia está tão frio, está nublado
E esta manhã os pássaros ainda não cantaram
Eles sabem o que está acontecendo
E eu também sei
Veja, os sorrisos que encontro pelo caminho
Já não dizem nada, já não encantam
Tão diferentes do que tinha ao meu lado
Tão vazios
Veja, o silêncio mórbido que me envolve
Ainda me lembro das antigas canções
Quem as cantará novamente?
Quem?
45 Ousadia
Quem conhece esta história já contada
E acredita ser melhor estar calado
Ignorando o sonho que se passa
Não sabe o que vale a pena ser sonhado
Te glorias no valor de ter tentado
Foi tua parte que cumpriste com coragem
Foste maior que o medo do fracasso
Foste forte e destemido por lutares
46 Tolice
Onde estiveste por toda noite
Que perguntei por ti e não obtive resposta
E eu não mais perguntarei
E não permitirei que eles respondam
Fiz das lágrimas abrigo
Sem saber se tu virias
E eu não me julguei tolo
Por verter por ti meus lamentos
Senti frio e mirei meus olhos no vazio
Ao arder em meu peito a verdade que feria
Umedeci meu rosto em tuas lembranças
Ao perder o que nunca me pertencera; na dor de querer
Por ti esperaria a sorrir por toda a vida
Mas é mera frustração esta vigília em prantos
E por ela ao amanhecer eu estarei partindo
E mesmo sem querer, eu partirei sozinho.
47 Como o Vento Voa
Não será o desencanto, mas a dor
Que impedirá os versos ao poeta
Ou a calará para sempre o cantor
Se o tempo não libertá-lo da prisão
Posto então, revelou-se uma canção
E por ela não esquecerei de cantar
Pois sei o que é repouso ao vento
Quando a dor o impede de voar
Mas eu voei e voando cantei
Canções a muito não cantadas
Como é para a mulher em solidão
Enfim ter alguém para amá-la
Diga quem é capaz de ver o mar
E em cada vez que vê-lo encantar-se?
Quem é capaz de amar a flor
E afastar-se sem ao menos tocá-la?
E assim voei como o vento voa
Sem saber se um dia chegará
Voei como só o vento voa
Na ânsia do desejo de chegar
48 Teus Olhos no Espelho
Perdera-se todo o jardim
Frente a fúria avassaladora do lobo
Que contemplou a rosa
Sabendo-se indigno de tocá-la
49 Carta a Um Suicida
Tome tua espada
Crave-a em teu peito
Faça-a teu castigo
Cesse teu tormento
Redima-te de tua dor
Eis que te serve o punhal
Admire sua beleza
Sua beleza mortal
No fim de teu lamento
A adaga sim é tua amiga
Teu inimigo é o tempo
E quem te pune é a vida
50 O Céu e o Inferno
Conhecer o céu
O próprio paraíso
Folhas, flores
Uma canção
Mas ao pecado o castigo
O vazio, punição
Cair
No próprio inferno perecer
Do mal, saber da dor
E dela o vazio preencher
O que machuca
É o mesmo que constrói
Estar no fundo
De baixo olhar
Ver a velha praia
Chorar
A dor percorre o corpo
Contorce e destrói
Mas faz forte, como morrer
E retornar da morte
Da dor, coração
Fez-se um brado, uma canção
E pediu-se ao vento
Que nos levasse lá
Talvez por outro caminho
Ou apenas chegar
51 Fim
Fora a inspiração maior de um poeta apaixonado
Os dias se mostram pálidos, a alma chora e o poeta se cala
Tudo é dor — Repetia-se o que parecia inusitado
Foi ver em ruínas o que fora um templo
E ainda assim depositei rosas em teu leito
Antes nosso e hoje tão vazio
Foi a dor tão intensa que sequer pranto permitiu-ma a face
O olhar se perdeu em meio esse vazio corrupto
Que me despojara de todo Dom já concedido
Se por hora a dor me cala o canto, que cale por completo então
Que destrua o poeta ou reviva a canção
Em versos mais belos, uma melhor composição
Calo, resta-me a dor e calado insisto
A toquei como ninguém jamais a tocou
E ela não foi capaz de perceber isso.
52 Os Heróis Nunca Morrem
( Epílogo )
Curvo-me reconhecendo o erro
Indefeso, evoco os que me odeiam:
Aproveitem-se de minha imprudência
E apliquem a vingança que anseiam
Chutem meu ventre
Golpeiem minha face
E servindo-se da covardia
Desfiram-me quantos golpes desejarem
Pois a despeito deles
Eu não morrerei
Porque os heróis nunca morrem
Eles voltam mais fortes
E eu voltarei.
PÁSSAROS
Quem não se alegraria em revê-la
Quem não se alegrará
Pois é como o pássaro que canta
Sem a intenção de encantar
É como o pássaro que encanta
No simples ato de cantar
LEMBRANÇAS DE PECAR
Que pereça ante ao tempo todo bem
E a própria vida se consuma no passado
Entre as ruínas tal registro não se perca
Que viva e permaneça este relato
Me consuma a infâmia deste grito
Por jurar cantar teu nome mesmo em pranto
Indeferida a sorte que me anima
Mesmo a morte teu nome irei cantando
Salve a Musa que me inspira a arte
Declamo em verso prazer de vê-la amada
Vendo-a, me basto em sagrar sua lembrança
Para, ausente, valer-me o gosto de lembrá-la
Confesso à dor ingrata que me pune
Se em tudo foi pecado dizer amo
Recuso o perdão oferecido e bramo
Castigue-me Deus por continuar pecando.
CANÇÕES DO OCEANO
Escutai, oh, Senhor dos Mares, que perante mim hoje cessa vosso martírio
A maldição que desde o início das eras é a ti imposta
Como tormento que repassas aqueles que adentram vossos domínios
Acalmai vossas águas hostis e tornai manso o manto que te cobre
É o que vos conjuro posto que minha criança assim o deseja
E não é de minha vontade que nada a perturbe
Honrai-vos por minha criança citar vossos reinos em um seu sonho
Desde logo minha razão de ser é satisfazê-la e por isso eu vim
Para vos apresentar e apontar-lhe o infinito de vossos horizontes
Enviai vossa espuma mais doce para tocar suave sua pele singela
Não quero o temor em seus olhos, mas o anseio de estar em seus braços
E quando a possuirdes, dai graças pelo momento mais glorioso de vossa existência
Concedei todos vosso dons a minha donzela, ordenai vossos criados
Que a sirvam e que vossos súditos se prostrem diante de sua doçura
E assim será, enquanto ela deseje banhar-se em vossas águas
Então mais um mundo se desfaz, posto que saciada ela partirá
Deixando-vos entregue a eternidade de vosso suplício, sabendo pois,
Que foi válida vossa existência para vivenciar esse momento de glória.