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HINOS E CANÇÕES

0 Introdução

 

Saiba hoje, oh incauto, tu que buscas encanto

Nas palavras carregadas de ternura de um poeta

Que há mais que poesia no verbo que te encanta

Há sonhos, que foram capazes de preencher toda uma vida.

 

 

 

1 Aos Poetas Que Se Foram

 

Há muita dor no coração de um poeta

Eis o que o difere dos outros homens

Entre tantos ser capaz de senti-la

Sem a morte impedi-lo de cantá-la

 

O poeta é uma alma atormentada

Onde por muitas vezes o tormento

Deste mundo não permite que parta

Sem pela arte o fardo aliviado

 

Ausente a eloquência antes concedida

Eu conjuro os espíritos errantes

A perder vossas paixões em meus versos

E em meu mundo os dons que inda carregam

 

Cantai aqui vossos versos mais belos

Não permita a morte vos impeça o canto

Vinde a mim e de meus lábios, vos juro

Que assim tereis viva vossas palavras

 

Trazei a meu peito a intensa mágoa

Mesmo esta que vos impede de partir

Deixai aqui toda dor em arte

Livrai-vos da marca dos que não partem

 

Quero ouvir teus sonhos mais secretos

Como se eles de fato fossem meus

Preciso que conte-me sobre a vida

Aproxime-se e diga-me o que enxerga

 

E assim virão os pássaros da noite

Que clamam a alma dos que se perderam

Ou concedem a salvação eterna

Aos que terminam de cantar seus cantos.



 

2 Juras

 

Toda dor que hoje aflige, todo medo que atormenta

E tudo quanto mais me falta teria por completo saciado

Se a mão agora estendida fosse por ti aceita

Como o caminho por onde sigo e que de certo conduz distante

 

Para um lugar onde possuiria poder, porque teria você

E juntos teríamos o mundo e eu te daria tudo

Daria os meus sonhos, meu próprio ser

E isso seria pequeno perto da grandeza dos dons do meu querer

 

Neste mundo o que não te pertence não existe 

Então só haveria você e eu e o que nosso amor tocasse

Que cresceria posto que do nosso amor em comum se faria vida

Seria meu filho, que concebido por ti seria como tal fruto nosso

 

Sinta e se aceitares tudo que te ofereço

Ainda hoje viria reclamar o que de ti me pertence

E eu teria para mim, de teu próprio ser, tua alma

Do teu corpo, a essência de tua vida, que faria minha

 

Isto que em meu peito arde é o que este mundo nutre

E suas portas se abrirão se você aceitar vir comigo

Entre e olhe o céu, veja como ele é mais belo

Porque em tudo se vê sonho quando no olhar há mais que um br



 

3 Canções ao Oceano

 

Escutai, oh, Senhor dos Mares, que perante mim hoje cessa vosso martírio

A maldição que desde o início das eras é a ti imposta

Como tormento que repassas aqueles que adentram vossos domínios

 

Acalmai vossas águas hostis e tornai manso o manto que te cobre

É o que vos conjuro posto que minha criança assim o deseja

E não é de minha vontade que nada a perturbe

 

Honrai-vos por minha criança citar vossos reinos em um seu sonho

Desde logo minha razão de ser é satisfazê-la e por isso eu vim

Para vos apresentar e apontar-lhe o infinito de vossos horizontes

 

Enviai vossa espuma mais doce para tocar suave sua pele singela

Não quero o temor em seus olhos, mas o anseio de estar em seus braços

E quando a possuirdes, dai graças pelo momento mais glorioso de vossa existência

 

Concedei todos vosso dons a minha donzela, ordenai vossos criados

Que a sirvam e que vossos súditos se prostrem diante de sua doçura

E assim será, enquanto ela deseje banhar-se em vossas águas

 

Então mais um mundo se desfaz, posto que saciada ela partirá

Deixando-vos entregue a eternidade de vosso suplício, sabendo pois,

Que foi válida vossa existência para vivenciar esse momento de glória. 



 

4 Radiá

 

Ergue-se a margem do deserto minha tenda repleta de tristeza

Porque ela partiu levando consigo a alegria que recobria esta esplanada

Tudo é frio no seio do deserto, na cabana de um homem que se desfaz em lágrimas

E mesmo a natureza por um instante para a contemplar uma alma que chora

 

Por anos mantém-se estático o sol poente ambientando um cenário de lamento

E a púrpura luz do crepúsculo é ademais negada a uma cabana desgraçada

Sou assim entregue a solidão desde que meu peito rasgado teve o amor perdido

E sua luz, que iluminara meu mundo e fizera dia minha vida fora por completo apagada

 

Uma alma melancólica vaga errante pelas areias escaldantes do deserto

Levo a lembrança a tenda abandonada envolta a labaredas e línguas revoltosas

Do inferno em chamas, que o fogo como o sentimento não aquece

Que não reluz como o brilho esplêndido de minha amada hoje distante

 

Sim, tudo se perdera, posto que nada vale frente a perda maior de minha vida

Foi-se com teus olhos a inspiração de um poeta num caderno de páginas vazias

Foi-se a pintura, que na parede da cabana imunda, o seu sorriso concedia graça

Tudo de valor fora um dia contigo, o que possuo é lixo e o que resta é nada

 

Por noites insones caminho solitário pelas ruas obscuras da cidade

Há mais que solidão em seus becos perfumados por pétalas de rosas:

Ela esteve aqui e partiu, mas a chuva da madrugada varrerá seus passos

Lavará minha alma e talvez leve consigo a lembrança de um dia ter amado

 

Só pude cessar minha marcha ao vir a encontrá-la entre aqueles que dormem

Prostrei-me diante de seu leito para velar em prantos seu sono

E velarei alheio a vida por todas as noites até o dia em que virei a dormir convosco

E deitarei ao seu lado, para sonharmos juntos sonhos por toda a eternidade.



 

5 Porto Seguro

 

Conheça pois, do mar, o marinheiro que contra as águas luta para vir a tona

Quem é este que enfrenta o abominável sem temer a morte?

Entre os oceanos ele fizera estrada sem deixar pegadas suas

Ao se perder sem forças na tormenta sem contudo desistir da vida

 

Mas dos deuses, a graça, aos homens que de fato é por direito merecida

Assim eu vim a aportar naufrago no seio desta praia bendita 

Que concedera abrigo como uma mãe a um filho, a um filho querido

Que se perdeu na imensidão do vazio tendo sobrevivido por haver persistido

 

Guardei-me a selva entre ruínas a muito esquecidas de um altar

Que tornei lar, fortaleza de um homem que cansou de vagar

E do regresso afasto-me o desejo, permito dos navios o passar alheio

Cuja a lembrança, a noite, aproxima a nostalgia, reabre a ferida

 

Mas peço ao tempo que apascente a alma deste que os mares desbravara

Já apreciei das sereias o canto, narrei histórias de vida, levei fantasia

Porém hoje só desejo a paz que se permite a todo homem sonhar

Para adormecer sorrindo coberto pelas areias que certa vez ofereceram abrigo



 

6 Entre as Dunas do Deserto

 

Conte-me, peregrino, da árida e infértil areia do deserto

Conte-me da solidão do caminho vazio e incerto

Porque esta dor entendes, mas ela não te atormenta

Porque tu a temes e ela te respeita

 

Não é o calor insuportável ou todo ardor do corpo suado o que mais fere

Mas a incessante marcha solitária, onde tombo, mas que a ti indefere

E apesar de nada valer a pena quando se está sozinho, em ti vejo fortaleza

Pois na vastidão do deserto, tu te completas, irradiando sabedoria e beleza

 

Conte-me, peregrino, de tua força, se no olhar não tens a magia de quem ama

Em pleno vazio, apesar de sozinho, dê-me força viva como chama

Erga-me da queda e ao nos encontrarmos de novo eu te chamarei de amigo

Eis a magia, que hoje compartilho e onde fores a levarás contigo

 

Abra-se entre dunas e tempestades meu caminho

Faça-se do caminho direção segura a meu destino

Conduza-me então, peregrino, sirva-se de minha magia

E na peleja do deserto, saberás que é ela que te guia.



 

7 Quem Inspira a Canção

 

Ausente-se de mim por completo a dor

E desde logo se calará o canto

Posto que qualquer sofrimento é suspeito ao poeta

Para inspirar-lhe em versos o que lhe convém a vida

 

Quem é capaz de retratar a beleza de modo tão intenso a encantar

É porque viu de perto a ruína sabendo a maravilha do que fala

E se recusa em permitir tal existência alheia aos tolos

Que desconhecem a magia que os sábios eternizam em arte

 

Mesmo os amantes que descrevem virgens perfumadas

Reconhecem na distância a melhor maneira de cantá-las

Quando solitários em seus quartos e pela saudade entorpecidos

Se reconhecem em versos agraciados em senti-la

 

Sagrada são as páginas ungidas pelo pranto sincero 

Pois na mais aguda dor se compadecem os deuses do poeta 

E do beijo que lhe toca os lábios surge a canção

Então o chorar é gratidão, pela beleza que em desventura se fizera

 

Quem lê quer sentir-se tocado pelo que afeta a quem escreve

Anseia pela mais impetuosa emoção, a qual seu peito não se atreve

Mas que abunda no melhor poema do poeta que em sentimento sofre

Que em tudo lamenta a perda, que sente as feridas e eloqüente chora



 

8 As Casas da Colina

 

É a primeira vez que o menino vê o negro oceano com olhos de saudade

A rubra luz apagando-se no firmamento  relembra o sangue que se perdera

Levando-se consigo a vida daquela mulher que fora amada por dois homens

 

Melancólicos como eles, as águas encontram consolo no colo da areia fria da praia

É mais difícil para um pai que lamenta a dor de um filho que se desfaz em lágrimas

Ao filho, a certeza da perda destrói as fantasias de criança que o pai havia lhe dado  

 

Com toda pureza da idade, sereno, ele lhe cobra a verdade

Tudo é dor quando, da vida, um pai tem que dizer a um filho

Que tudo se perde e só o que realmente temos levamos conosco

 

Qualquer mágoa hoje não é tão distante do jovem ferido

Mas o que ele entende de Deus é bastante para aceitar que é preciso abrir mão

De tudo que aqui possuímos para atravessar as fronteiras da vida.



 

9 Lamentações das Almas

 

Pecador que está sonhando, acordai quem está calado

Pecador que está acordado, acordai quem está dormindo

Para que suas almas não se juntem aquelas que caminham

Por desejarem estar longe daqueles que morrem, do seu destino

 

Eis a data maldita em que se apagam as luzes da cidade

Para que o brilho dessas almas iluminem a noite

Enquanto avançam pelas ruas manchadas de sangue

Entoando seus lamentos pelos pecados em vida

 

Aos mortais, o apego a carne vil os convulsiona

E os leva a temer pelo que não tem valor algum

Em receio eles trancam suas janelas, se escondem

Enquanto ouvem cantos que decantam suas vidas

 

E quem não teme a verdade tendo o peito puro desnudo

É repleto de admiração frente ao brilho esplêndido das tochas

Onde ardem os pecados que estes amaldiçoados cometeram 

E privados da paz, hoje a buscam nesta vigília de flagelos

 

Eis o dia das almas que se perderam entoarem seus lamentos

Por não terem feito magia em vida, por não viverem fantasia

E elas imploram o indulto ostentando seu martírio para advertir

Aos pecadores que dormem, acordem, para não terem o mesmo fim.



 

10 Pneumonia

 

Quando um vento frio adentrou minha porta

E tocando meu peito disse que eu deveria voltar

Eu entendi ter que retornar da vida sem ainda ter vivido

E pela última vez ouviu-se um grito de lamento em meu lar

 

Majestosa Dama da Noite que tudo trata de perder

Do campo, inundou-me os aposentos com suaves aromas

Para no próprio leito velar um corpo doentio em desgraça

Alheia a dor da partida solitária que causara

 

Valha-me os anjos pelos atos de bondade

Valha-me a abnegação ainda que por virtudes forjadas

Permita-me sabor aos lábios, olhares e desejos ainda em vida

E afaste de mim a donzela e seu beijo de minha boca ferida

 

De certo é fato que um dia me conduzirão os pássaros da noite

Mas só venha a fechar-me olhos ao terminar de cantar meu canto

E antes que em prantos se perca qualquer minha lembrança

Em toda dor de nosso reencontro, eu lhe sorrirei no entanto



 

11 Salmo 35


 

Saiba os ímpios que sem causa me odeiam, tramaram-me laços

Levantam iníquos testemunhos, me argüem de coisas que não sei. 

Quando tropecei eles se alegraram e se reuniram contra mim

Não falam de paz, tramam enganos contra os pacíficos da terra

 

Estando eles enfermos, as minhas vestes se fizeram pano

Reclinei-me em oração sobre o leito velando-os em jejum

Portava-me como se fossem meus amigos ou irmãos

Andava curvado de luto, como quem chora por sua mãe

 

Não te calas, Senhor, não te ausentes de mim!

Acorda e desperta para me fazeres justiça

Peleja, Senhor, contra os que pelejam comigo

Livra o aflito daquele que é por demais forte para ele

 

Sejam confundidos os que buscam tirar-me a vida

Retrocedam consternados os que tramam contra mim

Torne-lhes o caminho tenebroso e escorregadio 

Envergonhem-se os que se alegram com o meu mal

 

Alegrem-se em júbilo os que tem prazer em minha retidão

Pois exulto-me no Senhor e me deleitarei em sua salvação

Dar-te-ei graças e louvar-te-ei em meio a multidão 

A glorificar Este que se compraz na prosperidade de seu servo



 

12 Grito de Justos

 

A verdade será ouvida porque os bons a repetiram

E hoje requisitadas minhas palavras em audiência

De minha boca nada mais que a verdade se ouvirá

E qualquer julgamento enaltecerá minha fortaleza

 

Prestigio minha alma pela perseverança na verdade

E prodigiosamente manterei altiva minha voz

Junto a bravos que sustentarão o mesmo clamor

E em coro decantaremos a sublime beleza da verdade

 

Outrora se escapara de minha boca a infecta mentira

E tão rápido sobre mim se abateu o castigo dos maus

Porque em tal instante me igualara em perversidade

E admitira para mim o mesmo erro dos hipócritas

 

Dos tolos só obterei a dúvida por serem alheios a verdade

E apesar de esperarem a falsidade de meu testemunho

Se frustarão, e a força de minha virtude manterá tal decepção

Até que outras vozes entoem o mesmo brado clamando por justiça

 

Homens serão punidos por fazerem o que é certo

E sua voz se calará ante a força opressora da violência

A arma que cala o grito dos justos desejosos da verdade

Tão perniciosa que tanto o mau quanto o inocente fere 

 

E mesmo que caído pela força, um grito que evoca a verdade  soa

Para ecoar mais alto no peito de quem se vê injustiçado

E ante esse apelo, sempre que alguém se ver distante da liberdade

Erguerá seus braços lançando-se a uma luta pelo que acredita certo

 

Mas indifere-me os riscos ao proclamar verossímia palavra

Nada afligiria-me mais que declarar um depoimento deturpado

E de certo em tal momento a vergonha calaria minha boca

Por jamais ausentar-se de mim a virtude que sustenta meu caráter

 

Faça-se baixa minha voz entre sussurros escandalizado dos corruptos

Pois eles se admirarão ao ouvirem a verdade que tanto repugnam

E enquanto audível for meu canto, os bons se juntarão a minha luta

Por acreditarem que a liberdade é responsabilidade de todos.



 

13 Uivos na mata

 

Eu ouço o sussurro dos lobos famintos

Por uma criança que corre na mata

Mas já é noite e elas não deveriam estar rindo

Deveriam estar presas em seus quartos caladas

 

É por isso que ordenam que elas parem de cantar

Para que um dia seus cantos não ecoem como gritos

Distintos das canções que já foram cantadas

Aquelas que se confundem com os uivos da mata

E impelem nossas crianças a seus quartos caladas

 

Saiba que elas não precisam jogar

Que apesar dos lobos existe o luar

Deixá-las cantar e pela mata correr

Deixai em seu peito o que existe crescer



 

14 Nostalgia

 

Por sempre haver partido e no lugar passado

Cada emoção sentida, amargurada ou pura 

No peito, cativa e apascenta por carinho a perda

Hoje, a distância, resta à lembrança a dor que fica

Como chaga dolorosa que profundo vai e fere

E a outros se repassa por quem a compartilha

Se percebe e entende como mágoa aquilo que se deixa

 

Urge a partida se o destino convém e a guia

A uma meta que distorce o que outrora foi verdade

E mesmo saudade, se desmerece o jubilo da chegada

Abrilhanta e enaltece a nostalgia que então nasce

Tornaria assim, por mais virtuoso, ao mirar-se magia que se passa

Conservar aquilo que em si vale e engrandece

E levá-lo consigo à partida derradeira como prestigiosa vitória



 

15 Valsa

 

Entre damas e cavalheiros, o mais ousado

Entre cavalheiros e damas, a mais prendada

Insensato coração que a desejou ciente da partida

Não poderia ser minha, ficar, não deveria 

 

Ousadia do desejo da alma, o prazer de uma valsa

Foi a despeito da música num silêncio dançar:

Uma folha caindo, no mar o navio, uma noite a bailar

Uma folha caindo, no mar o navio, uma noite a bailar

 

Ela tocou-me os lábios e me pediu para calar

Disse que não era preciso palavras, não era preciso falar:

— Não olhe nos meus olhos, desvie o olhar

— Os olhos dizem muito e eu não quero falar

 

O tempo é sensato, o coração incoerente

No silêncio pulsando o peito a lamentar

Os acordes não cessavam, mas urgia a partida

A noite é efêmera, infinita a cantiga

 

Não quero mais histórias que se sonham numa noite

Abdiquei-as ao esquecer às luzes quem fora predileta

Segui meu caminho sem olhar para trás, talvez o destino

Reviver a cantiga, ficar ou partir talvez, sem precisar



 

16 Saudade

 

É o pardo de uma carta envelhecida pelo tempo

É um olhar distante que não mira coisa alguma

Um gosto amargo a incomodar a garganta

São olhos melancólicos sob a chuva

 

É recostar sua cabeça ao leito insone

Calar a pergunta sem se contentar com a dúvida

Um motivo para chorar escondido

Um caminhar lento pela rua

 

Lembrar, na angústia do desejo de esquecer

É a razão para se reviver uma cantiga

Porque um homem beberia sozinho

A praia vazia, noites frias, os dias

 

É querer estar em outro lugar

Uma breve lembrança do que é felicidade

É a dor mais doce e mais amarga que se sente

É saudade.



 

17 A Estrada Velha da Saudade

 

A Estrada Velha da Saudade

Nos remete a lembranças então reveladas

E na velocidade de cada curva revivida

 

O que nos separa daquilo que mais amamos

É também o que nos une, é a estrada

Que tem princípio na saudade e não nos leva a nada

 

A beleza da paisagem, querer estar lá

Recôndito de lembranças perdidas

Percorrer estes campos, recordar

 

No olhar um sonho, nostalgia

Rostos, paisagens, lembranças e canções

O que a janela nos revela foi a vida

 

Muito de nós ficou entre o asfalto e a montanha

Perdemos poesia nesta pista maldita

Deixamos nossa vida.



 

18 Poeira de estrada

 

Poeira de estrada

Coberto de pó o suor não nos incomoda o corpo

E ninguém pode tirar isso de nós

Enquanto trouxermos no olhar um sonho

 

Conhecer as praças de um país recortado por estradas

Seus templos e construções, o próprio mapa

Nas trilhas de barro abrir porteiras

Libertar manadas

 

As mais belas mulheres, camponesas de recato

Devassa selvagens, de matas e cidades

Embriagar-me e embriagado deixá-las

Festas de estrada

 

Preferir a colônia do porto a marina

Na vazante do rio baloar na barra

Ter com os pescadores

E do pescado a praia

 

Poeira de estrada

Coberto de pó o suor não nos incomoda o corpo

E ninguém pode tirar isso de nós

Enquanto trouxermos no olhar um sonho

 

 

 

19 Cacheiro Viajante

 

Menestrel pelas praças e pampas do sul

A cantar saudades da amada abandonada

Ao seguir candango ao centro do país

E fazer morada nas palafitas do Araguaia

 

Balseiros nos rios do norte

Jagunço de grileiros, seringueiro em seringais

Migrante bóia fria do sertão ao canavial

Fora o caboclo na caça ao jacaré, conheceu o pantanal

 

Nos baixos da Bahia em dias de verão

Baloou com o caiçara por toda madrugada

Seguiu estradas de ferro e de barro batido

Sucumbiu ao frio no Ita para o Rio

 

Astuto cacheiro viajante

Maldito meliante errante

Levara o escambo aos quatro campos

Para envelhecer na metrópole ambulante



 

20 No Silêncio do Teatro

 

Tornou-se dos homens a maior personagem

Ao permitir que entre as cenas se perdesse o ator

Fizera um plágio de um mero ensaio que chamou de vida

 

Não foram suas as palavras e sequer seu o sentir

Não mais que um improviso pelo ato requerido

Uma farsa que ao grande público agradara

 

Fora alheio ao instante da catarse

Indiferente ao entusiasmo que causara

Por trás da máscara que a tragédia interpretava

 

E ao deixar o tablado tendo as falas encerradas

E apagarem-se as luzes do teatro entre aplausos

Que caia a máscara e reste o ator que se perdera.



 

21 Nos Trilhos da Estrada de Ferro

 

Era o gosto do corpo das noites passadas que amargava

Eu caminhei embriagado pelos trilhos de trem abandonado

De um lado o perdão, do outro o pecado, sem tê-los tocado

Caminhei por toda a noite desorientado, eu caminhei calado

 

Cortejo de vultos demoníacos entre as árvores e ruínas

Questionavam as juras e riam, selvagens injúrias incontidas

Medonhas feições a enfeitiçar com o mal a noite maldita

Fitavam-me desde o inferno, minhas promessas e mentiras

 

Cansei-me em meio a desgraçada caminhada 

Pelas ruas obscuras de uma cidade adormecida

Almas que vagavam melancólicas vieram me advertir da vida

Que eu seria julgado pelos erros, que me cobrariam mentiras

 

Contaram-me do julgamento e que eu não suportaria a punição

Pois recairia sobre mim a fúria divina por debochar da vida

Pela heresia de serem maléficas as palavras e as ações destrutivas 

Por ferir o puro com toda virtude que me fora concedida em demasia



 

22 Casas Escuras

 

Um olhar de agonia em corpos deformados

Gestos insanos acusavam feições doentias

A expressão da dor estampada em cada rosto

Eram almas que clamavam pela morte

Elas gritavam sem serem ouvidas 

 

Lancei lamentos e blasfêmias por tais criaturas

Por sabê-las inocentes da pena que as perturba

Então as deixo a entoar seus cantos de desgraça

Sabendo que minha tristeza na noite se perderia 

Mas o suplício daqueles homens seria pela vida



 

23 Filhos do Mal




 

24 A Estrada

 

O mundo estava mudando e alguns homens estavam se perdendo

Eles seguiram o caminho errado e talvez não houvesse como voltar

Porque cometeram erros e terão que pagar as conseqüências

Por preferirem acreditar em mentiras do que não acreditar em nada

Porque eles estavam tentando se encontrar, mas não gostavam do que achavam

 

Eles tinham planos que foram deixados para trás

Porque queriam respostas, mas procuraram nos lugares errados

E compreenderam que estavam longe, longe de onde deveriam estar

Por ousarem saber demais, mais do que deveriam saber

Porque não há limites para o mal em ocultar a verdade

 

Então eles choraram, sem motivos para chorar

Porque alguns homens conheceram a verdade e ela machuca

E ainda assim eles ousaram sonhar um sonho que fora esquecido

Havia um caminho a ser trilhado árduo demais

Onde se cogitava a morte como uma das opções

 

Porque já não valeria a pena viver se fosse para perder 

Então eles aceitaram lutar uma luta perdida

Porque perderam tudo, mas estavam dispostos a tentar

E sabiam que conseguiriam voltar, se estivessem vivos

Porque eles tentariam enquanto houvessem possibilidades

 

Eles doaram seu sangue pela vitória

Mostrando que os bons não desistem, não reconhecem a derrota

E que a dor não os mata, o tempo não os fere

Assim foram além do que realmente são, foram mais alto

Porque sempre podemos ser mais e melhor.



 

25 Pedidos

 

O sonho ainda não acabou, mas a era das canções se foi

Nas lágrimas que lavaram dos olhos a ternura

Por isso preciso que faça-me sorrir, somente por fazê-lo

Pelo mero fato de amar-me

 

Então me dê as mãos 

E me convide a caminhar novamente pelos campos

A soltar minha voz como tantas vezes já fizera

Antes de se fazerem amargurados os lábios que te beijam

 

Faça-me cantar e eternizá-la em verso pela vida

Faça-me sonhar como jamais sonhara

Faça-me sorrir como a muito não sorrio

E amar-te, como nunca antes fora amada por ninguém



 

26 A Coroa

 

Sabe-se do poderoso rei

Que de nada lhe velaria a coroa

Se o privassem de sua preciosa rainha

Posto que a riqueza convém ao trono

Mas só o amor satisfaz o homem

 

E sabe-se mais do rei

Os sábios que conhecem sua fraqueza

São os que estão ao seu lado 

E compartilham seu sentimento

Meramente por amá-lo

 

Saiba o que edifica seu reinado:

A humildade de seu coração

A pureza de seus atos.

Conheça pois tua majestade

Faça-se rei e seja coroado



 

Das Canções

 

 

27 Elísios de Partida

 

Cantarei aos ventos outros cantos

Cantos que outrora já cantei

Hoje apenas lembranças de uma vida de ventura

Com lembranças que não tive de sonhos que sonhei

 

O sol não diz nada, não sabemos se ainda tenta

Num silêncio que se ouve se o vento cessa o seu ventar

São coisas que te disse e aos outros sei que diria 

Se os cantos que eu canto o vento fosse levar

 

Frente a chuva, vento e água

É lento e não deixa esquecer 

Gotas nos contam rancores dos traumas

Lembranças que não se consegue perder

 

Há cantos que os ventos cantam para nós

Coisas bonitas que não deixaremos morrer

Belas canções que decantam grandes amores

Contra as dores e contra as canções de outros cantores

 

Que o vento voe e leve embora lembrança das dores 

Que o vento voe e traga a mim o que cantares

E assim, como chegará a mim o que cantas

Rogamos que leve nossas canções por cantarmos a paz. 



 

28 O Poeta

 

Sou um dragão de fogo alado enfurecido pela dor

Sou a covardia do verme ao devorar um corpo inerte

Sou o próprio mal que cobre a terra, sou a vingança

Sou um lobo faminto que ruge e a mesma dor que o perturba

Sou a fúria de legiões de vândalos a promover barbáries

Sou um tornado, pestes e pragas a devastar cidades

 

Sou a completa frustração, da derrota o derrotado

Sou revoadas de pássaros que voam e que se perdem

Sou a decepção de um tuberculoso que caminha

O doente terminal e seu filho, sou sua filha

Sou as lágrimas que molham o rosto de quem ama

Sou quem chora, quem mata, quem destrói, quem se encanta

 

Sou o bardo a decantar os feitos de heróis

Sou suas canções, fazendeiros e plantações

Sou o prisioneiro no calabouço que se inunda

Sou os ratos que na noite correm pelas ruas

Sou explosões, genocídios, povos em guerra

Manadas em fuga, incêndios, florestas

 

Sou o soldado tombado no campo de batalha

Sou as lembranças da criança, os ventos, a amada

Sou o escravo e seu senhor, a humildade e o escárnio

Sou o aconchegante poder do sono, o carrasco

Sou o profeta, o abismo, pássaros, cinismo

Sou profano, sou eterno, imortal, sou o destino

 

Sou o prazer carnal, sexo, convulsões

Sou das igrejas orações, sou o amor, paixões

Eu sou o tudo sem sentido, sou divino, sou herege

Sou eu quem glorifica a palavra, quem escreve

E o que puder me transformar os versos 

E tudo aquilo que me permitir a poesia



 

30 Carpe Diem

 

Eu vim trazer sonhos

Abra seu coração

Inunde-o de desejos

Eu quero magia em seus olhos

 

Eu vim trazer sonhos

Eu vim entoar poemas

Eu vim ouvir crianças

Eu vim cantar cantos

 

Eu vim trazer sonhos

Esse é nosso tempo

É nosso último dia

Eu vim trazer vida

 

Eu vim trazer sonhos

Eu digo carpe diem

Essa é nossa lei

E ai de quem descumpri-la



 

31 Bem-Te-Vi

 

Oh! Bem-te-vi

O que afirmas ter visto

Que não nos conta?

 

Voaste ao longe

A saber de coisas 

A nós distantes

 

Pelo que então cantas

Em tardes que me calo

Sem esperança?

 

Pelo que então cantas?

Lágrimas por uma amada,

Sonhos ou venturança?

 

Volte, oh, Bem-te-vi

E revele teus segredos

Lágrimas, sonhos ou desejos



 

32 Mensagens

 

Libertem estes pássaros encarcerados

Deixem-nos partir a levar mensagens

E dizer a quem amo que sinto saudades

 

Voem e digam a minha amada

Que aquele que a ama ainda a espera

E aguarda ansioso sua chegada

 

Digam-na quem decanto em minhas canções

Digam por quem peço em minhas orações

Que queria lembrar um rosto e lembrava o dela

 

Contem-na como passo minhas noites

E sobre quem os anjos vem perguntar em meus sonhos

Contem como é ruim esta solidão, como dói estar sem ela

 

Libertem-nos apesar de incerta sua chegada a algum lugar

Pois junto a dúvidas eles levarão esperança

De um coração que chora e que é feliz enquanto sonha

 

Eu conheço o rumo dos pássaros

Deixem-nos irem para onde sempre voaram

Eu sei para onde eles foram e sei que nunca voltaram



 

33 Lágrimas no Oceano

 

Observe, fixados teus pés a esta galera,

Atentamente a linha do horizonte

Compreenda que assim como é para ti duvidoso

O ponto de encontro entre o mar e o firmamento

É de modo similar angustiante para mim

A incerteza acerca dos sentimentos

Que aquecem o coração da donzela

Que hoje motiva o pranto então chorado

Posto que a amo, mesmo sem saber

Quem é por ela amado.



 

34 Pássaros

 

Quem não se alegraria em revê-la

Quem não se alegrará

Pois é como o pássaro que canta

Sem a intenção de encantar

É como o pássaro que encanta

No simples ato de cantar 



 

35 Quem Não Se Alegraria

 

Doce é meu caminho e suave meu caminhar

Pois quem não se alegraria em revê-la, quem não se alegrará

Findada a noite, num beijo entrego-te em teu lar

Quem não se entristece em deixá-la, quem não gostaria de ficar

 

Quem, conhecendo-a, não a desejara

E vendo-a partir não caiu a lamentar

Fui incapaz de entender teus olhos, por quê?

O que eu ignoro quem não se ocuparia em compreender

 

Por que de tua partida manténs duvidoso o dia que retornará?

Velarei as noites te esperando aguardando tua hora de chegar

Pois doce é meu caminho e suave meu caminhar. 

Quem não se alegraria em revê-la, quem não se alegrará. 



 

36 Lembranças de Pecar

 

Que pereça ante ao tempo todo bem

E a própria vida se consuma no passado

Entre as ruínas tal registro não se perca

Que viva e permaneça este relato

 

Me consuma a infâmia deste grito

Por jurar cantar teu nome mesmo em pranto

Indeferida a sorte que me anima

Mesmo a morte teu nome irei cantando

 

Salve a Musa que me inspira a arte

Declamo em verso prazer de vê-la amada

Vendo-a, me basto em sagrar sua lembrança

Para, ausente, valer-me o gosto de lembrá-la

 

Confesso à dor ingrata que me pune

Se em tudo foi pecado dizer amo

Recuso o perdão oferecido e bramo

Castigue-me Deus por continuar pecando.



 

37 Abnegação

 

Eu morreria por ela

Porque ao seu lado conheci felicidade

E sem isso não vale a pena

Não vale nada

 

Eu abriria mão de minha própria honra

E não há outra coisa que sustente o homem

Mas despojado de orgulho, eu implorei perdão

Pedi que ficasse

 

Por ti deixaria meu castelo, minha espada

Pois fora tu minha única rainha

Porque te vi bela em meus sonhos

E te faria amada em vida



 

38 Anjos

 

Fora o ápice da criação divina

Quando o criador desenhou algo belo

Por desejar que eu aprendesse a amar

Ele a enviou, o anjo que o criador criou

 

Fora meu motivo maior para sorrir

Mas o celeste entre os que morrem não caminha

Porque deles ao mundo é preciso o canto

Distante das canções que entoamos

 

Fui feliz ao entender o destino como graça

E a fiz a razão do poema nos versos do poeta

E apesar de sozinho, assim entendi o anjo dela

Vendo no amor que causara uma dor que liberta.



 

39 Uma Noite Longa

 

Fora a noite mais longa de minha vida

Ela sentou ao meu lado e não disse muito

Ela evitou dizer e me pediu para não chorar

 

Fora o beijo mais amargo de minha vida

Eu a toquei sabendo que seria pela última vez

Foi tê-la, sem em instante algum possuí-la

 

Fora o desejo mais sincero de toda minha vida

Que durasse para sempre o momento

Ou que ao menos a lembrança fosse plena

 

Foram as palavras mais difíceis de minha vida

Da boca sedenta não se escapara o adeus

O lábio inconstante não pronunciou o fique

 

Fora o sonho mais triste de toda minha vida

A revoada de pássaros levou consigo a primavera

Eu quis ir com eles, mas amanheci sozinho

 

Fora o que de mais precioso eu tive em minha vida

Fora o sorriso do meu rosto, foram as rosas do jardim

Fora tudo que eu tive, fora tudo que perdi



 

40 Eu Vim Dizer Adeus

 

Eu vim dizer adeus

E sabia que as palavras doeriam

Mesmo a mim e aqueles que a ouvissem

 

Eu me aproximei da praia

Com um pouco de amargura no olhar

Com um pouco de tristeza

 

Mirei o vazio e tentei lembrar

Lembrar para em definitivo esquecer

Então eu soube que não conseguiria

 

O gosto amargo na garganta

Meu próprio silêncio incomodava

E me calei por medo de chorar, eu evitei falar

 

Eu vim dizer adeus

Com lágrimas nos olhos

E com vontade de ficar



 

40 Partidas

 

Lembrando-me daqueles que partem 

Receba agora da distância saudades

E sei das partidas a dor

Por tantas vezes haver partido

Deixando partes magoadas de mim

Na dor de perder o que nunca lhe pertencera

Falta que para saciar esforços não mediria

Eu deixaria tudo por mais um dia ao seu lado,

Contentaria-me com mais uma hora,

Talvez um único olhar me deixasse satisfeito.



 

41 Canção de Um Único Acorde

 

Eu fiz uma linda canção

De um único acorde

Inspirada na dor amarga da saudade

Eu fiz uma canção triste

 

Eu fiz uma linda canção

Que serviu de homenagem

Anônima e efêmera

Mas de refinado recato

 

Eu fiz uma linda canção 

De melodia melancólica

Porque em tristeza se consumia minha alma

E é ela quem compõem as canções

 

Eu fiz uma linda canção

Onde os arranjos surgiam das lembranças

Que preencheram toda uma vida

E que agora não significam nada

 

Eu fiz uma triste canção

Cuja letra me fora revelada em sonho

E com lágrimas foi escrita a canção

E eu não fui capaz de cantá-la



 

42 Lembra de Mim

 

Lembra de mim

Sou aquele que um dia te amou

E conheceu a dor

Que se apresenta a todo aquele que ama

 

Lembra de mim e de tudo que por ti se fez

Minha primeira e mais bela canção

Um jardim em meu lar, meu olhar,

Minha oração, nas noites de chuva, solidão

 

Lembra de mim nos teus dias de felicidade

Lembra das lágrimas

Que caíram distantes pela ausência

E foram incessantes

 

Lembra de mim

E que meus lamentos foram unicamente por ti

Em teu nome soube o que era frustração

Conheci saudade

 

Lembra-te então de mim

E do carinho do toque de minha mão

Do amor, das flores do jardim

Lembra da canção



 

43 Esquecer para Lembrar

 

Eis o mais belo pássaro

A entoar a mais linda canção.

Eis o poente

A convidar aqueles que voam a seus leitos.

Eis a solidão

 

Eis o outono

Quando tal pássaro migra

Rumando ao norte sem se despedir

E leva consigo canções

Que jamais voltarei a ouvir

 

Voe pois,

E leve consigo meus sonhos

Leve consigo a esperança

E deixe que se esqueça, que se perca

Deixe, contudo, aqui, a lembrança.



 

44 O Dia Seguinte

 

Veja, o dia está tão frio, está nublado

E esta manhã os pássaros ainda não cantaram

Eles sabem o que está acontecendo

E eu também sei

 

Veja, os sorrisos que encontro pelo caminho

Já não dizem nada, já não encantam

Tão diferentes do que tinha ao meu lado

Tão vazios

 

Veja, o silêncio mórbido que me envolve

Ainda me lembro das antigas canções

Quem as cantará novamente?

Quem?



 

45 Ousadia

 

Quem conhece esta história já contada

E acredita ser melhor estar calado

Ignorando o sonho que se passa

Não sabe o que vale a pena ser sonhado

 

Te glorias no valor de ter tentado

Foi tua parte que cumpriste com coragem

Foste maior que o medo do fracasso

Foste forte e destemido por lutares



 

46 Tolice

 

Onde estiveste por toda  noite 

Que perguntei por ti e não  obtive resposta

E eu não mais perguntarei

E não permitirei que eles respondam

 

Fiz das lágrimas abrigo

Sem saber se tu virias

E eu não me julguei tolo

Por verter por ti meus lamentos

 

Senti frio e mirei meus olhos no vazio

Ao  arder em meu peito a verdade que feria

Umedeci meu rosto em tuas lembranças

Ao perder o que nunca me pertencera; na dor de querer

 

Por ti esperaria a sorrir por toda a vida

Mas é mera frustração esta vigília em prantos

E por ela ao amanhecer eu estarei partindo

E mesmo sem querer, eu partirei sozinho. 



 

47 Como o Vento Voa

 

Não será o desencanto, mas a dor

Que impedirá os versos ao poeta

Ou a calará para sempre o cantor

Se o tempo não libertá-lo da prisão

 

Posto então, revelou-se uma canção

E por ela não esquecerei de cantar

Pois sei o que é repouso ao vento

Quando a dor o impede de voar

 

Mas eu voei e voando cantei

Canções a muito não cantadas

Como é para a mulher em solidão

Enfim ter alguém para amá-la

 

Diga quem é capaz de ver o mar

E em cada vez que vê-lo encantar-se?

Quem é capaz de amar a flor

E afastar-se sem ao menos tocá-la?

 

E assim voei como o vento voa

Sem saber se um dia chegará

Voei como só o vento voa

Na ânsia do desejo de chegar



 

48 Teus Olhos no Espelho

 

Perdera-se todo o jardim

Frente a fúria avassaladora do lobo

Que contemplou a rosa

Sabendo-se indigno de tocá-la



 

49 Carta a Um Suicida

 

Tome tua espada

Crave-a em teu peito

Faça-a teu castigo

Cesse teu tormento

 

Redima-te de tua dor

Eis que te serve o punhal

Admire sua beleza

Sua beleza mortal

 

No fim de teu lamento

A adaga sim é tua amiga

Teu inimigo é o tempo 

E quem te pune é a vida



 

50 O Céu e o Inferno

 

Conhecer o céu

O próprio paraíso

Folhas, flores

Uma canção

Mas ao pecado o castigo

O vazio, punição

 

Cair

No próprio inferno perecer

Do mal, saber da dor

E dela o vazio preencher

 

O que machuca 

É o mesmo que constrói

Estar no fundo

De baixo olhar

Ver a velha praia

Chorar 

 

A dor percorre o corpo

Contorce e destrói

Mas faz forte, como morrer

E retornar da morte

 

Da dor, coração

Fez-se um brado, uma canção

E pediu-se ao vento

Que nos levasse lá

Talvez por outro caminho

Ou apenas chegar



 

51 Fim

 

Fora a inspiração maior de um poeta apaixonado

Os dias se mostram pálidos, a alma chora e o poeta se cala

Tudo é dor — Repetia-se o que parecia inusitado

 

Foi ver em ruínas o que fora um templo

E ainda assim depositei rosas em teu leito

Antes nosso e hoje tão vazio

 

Foi a dor tão intensa que sequer  pranto permitiu-ma a face

O olhar se perdeu em meio esse vazio corrupto

Que me despojara de todo Dom já concedido

 

Se por hora a dor me cala o canto, que cale por completo então

Que destrua o poeta ou reviva a canção

Em versos mais belos, uma melhor composição

 

Calo, resta-me a dor e calado insisto

A toquei como ninguém jamais a tocou

E ela não foi capaz de perceber isso.



 

52 Os Heróis Nunca Morrem 

                         ( Epílogo )

 

Curvo-me reconhecendo o erro

Indefeso, evoco os que me odeiam:

Aproveitem-se de minha imprudência

E apliquem a vingança que anseiam

 

Chutem meu ventre 

Golpeiem minha face

E servindo-se da covardia

Desfiram-me quantos golpes desejarem

 

Pois a despeito deles

Eu não morrerei

Porque os heróis nunca morrem

Eles voltam mais fortes

E eu voltarei.

PÁSSAROS

Quem não se alegraria em revê-la
Quem não se alegrará
Pois é como o pássaro que canta
Sem a intenção de encantar
É como o pássaro que encanta
No simples ato de cantar



LEMBRANÇAS DE PECAR

Que pereça ante ao tempo todo bem
E a própria vida se consuma no passado
Entre as ruínas tal registro não se perca
Que viva e permaneça este relato



Me consuma a infâmia deste grito
Por jurar cantar teu nome mesmo em pranto
Indeferida a sorte que me anima
Mesmo a morte teu nome irei cantando



Salve a Musa que me inspira a arte
Declamo em verso prazer de vê-la amada
Vendo-a, me basto em sagrar sua lembrança
Para, ausente, valer-me o gosto de lembrá-la

Confesso à dor ingrata que me pune
Se em tudo foi pecado dizer amo
Recuso o perdão oferecido e bramo
Castigue-me Deus por continuar pecando.





​CANÇÕES DO OCEANO



Escutai, oh, Senhor dos Mares, que perante mim hoje cessa vosso martírio

A maldição que desde o início das eras é a ti imposta
Como tormento que repassas aqueles que adentram vossos domínios



Acalmai vossas águas hostis e tornai manso o manto que te cobre
É o que vos conjuro posto que minha criança assim o deseja
E não é de minha vontade que nada a perturbe



Honrai-vos por minha criança citar vossos reinos em um seu sonho
Desde logo minha razão de ser é satisfazê-la e por isso eu vim
Para vos apresentar e apontar-lhe o infinito de vossos horizontes



Enviai vossa espuma mais doce para tocar suave sua pele singela
Não quero o temor em seus olhos, mas o anseio de estar em seus braços
E quando a possuirdes, dai graças pelo momento mais glorioso de vossa existência



Concedei todos vosso dons a minha donzela, ordenai vossos criados
Que a sirvam e que vossos súditos se prostrem diante de sua doçura
E assim será, enquanto ela deseje banhar-se em vossas águas

Então mais um mundo se desfaz, posto que saciada ela partirá
Deixando-vos entregue a eternidade de vosso suplício, sabendo pois,
Que foi válida vossa existência para vivenciar esse momento de glória.

© 2013 Igor Anatoli                                   Created at Razzoit Studios - Berlin, Germany.     

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