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GRITOS DESESPERADOS DE SAUDADE

UMA ÚNICA PALAVRA



Uma palavra te erguerá ao céu
Uma palavra te lançará por terra
Uma só palavra, uma única palavra

 

 


CASTIGOS CONCEBIDOS SEM PECADO



O que é o amor? Que tempestade fulminante é esta
Que nos abateu nos primódios de nossa vida,
Que acalentou e traiu, que nos surpreendeu crianças
E nos tornou homens para apresentar o que é dor



Jovens tão fracos foram postos diante de tanto poder
E lhe rendemos homenagens curvando-nos incautos
Para sermos ultrajados e roubados do que não tínhamos
Argüidos do que não sabíamos, do que não tem resposta

Por que o medo? Por que a dúvida e a razão insensata?
Por que não brilhou reluzente o que é digno de louvor?
E por que furta os melhores anos de nossa juventude
E nos machuca o peito e ensina sem piedade o que é dor?



Eis o que hoje trago: um coração amargurado
De sentimento escasso, de vontade fria
Incrédulo quanto ao mundo, incrédulo quanto a vida
E um tanto quanto envergonhado por falar de amor

 

FATIGA



Que dias fatigantes!

Quando a aflição se sentou ao meu lado
Como terrível companheira
E por toda uma noite conversamos

Ela me falou da decadência das civilizações
Da ruína de reis e da desgraça de famílias
E em meio a seu discurso lastimoso
Ela me exigiu serenidade

 

DESALENTO

Eu fui criança para consolar a criança que chorava
Fui doce, mas pouco doce para não pareceres amarga
E fui triste, porque assim foi teu olhar como também meu canto
Canto de melancolia que ouvi sozinho em meu quarto escuro
Tendo fel sobre uma taça e meu coração jogado ao chão
Tudo foi ilusão! Não me restou mais que saudade...

Quiseste fazer moradia no aconchego e calor de meus braços
Quiseste saciar a sede de teu espírito com a poesia de meus olhos
Quiseste meramente minha voz a consolar teu pranto incontido
Então ergui um castelo e foi meu reino por teus desejos
Mas os sorrisos mais sinceros vi se perderem num vazio corrupto
E tudo foi ilusão! Não me restou mais que saudade...

Quiseste a liberdade das cadeias frias do desencanto
Quiseste o sorriso e por ti eu fiz o sonho
Tiveste medo e então eu fui ternura
Quiseste a paz e por ti eu fui sossego
Enfim, a fantasia pela qual gritou tua alma
Mas tudo foi ilusão! Não me restou mais que saudade...

Embrulhos de presentes, propagandas de jornais, escritórios de cidades
As damas que caminhavam sedutoras pelas praias
A solidão incerta da noite, as rosas e as crianças doces
As lembranças e tudo quanto mais esteve aqui um dia
Infeliz engano, ao fim eu só conheci mentiras!
Tudo foi ilusão! Não me restou mais que saudade...

INSÔNIA

Ah! Quanto prazer eu conheci em teu nome e quanta dor me restou no entanto
Tão pouco me faltava num instante e logo tudo me faltou
Busco hoje no percurso fatigante dos dias um sentido para o vazio
Que perpetuou-se com tua ausência e eclodiu num grito
Que estendeu a loucura e a angústia desde peito até o céu
E precipitou-o no inferno e teve ali morada cativa a sua mágoa

Evitei o delírio dos dias, evitei a lembrança, minha única alegria
Contentação efêmera que tem em si a perda, esta última certeza
Que fez da vida uma dúvida e deste leito um altar a almas nuas
Que em prantos lamentam, intentam consolo e meu sofrer contemplam
Choram tudo que resta neste mausoléu que na ventura chamei lar
Já mais nada me vale, que o verbo finde e cale este canto de desgraça

Restou uma lágrima em um rosto que foi radiante um dia
Calaram-se lábios que cantavam com indizível beleza
Lábios que sorriam e que beijaram tenramente teus doces lábios,
Que encerraram juras enamoradas para não serem ditas
E que se perderam para sempre negligenciadas pelo tempo
Quando ousei um canto novo e me calei frustrado na incerteza do silêncio


Quis dormir novamente para encontrar aquilo que se perdera
Queria de novo o sonho, mas não era o sonho que a noite me trazia
Antes o silêncio, a certeza amarga do vazio, a lembrança dos dias
O leito incomoda, a cabeça se agita, sei-me num insone desabrigo
Sento sobre a cama, enfim desisto e ouço da insensível noite a verdade:
Sim, eu quis o sonho e quão negro é o destino que me legou saudade!

VAIDADE DAS VAIDADES



Algo brilhou mais profundo em um olhar sedutor
Como um convite ao que entendemos por prazer
Com uma afronta ao que chamamos de sensato

E a magia do vinho encontrou sentido nos ritmos da noite
É assim que funciona, sempre acaba onde havia começado:
Com maquiagem borrada entre as luzes turvas da cidade

E mais uma vez o frio foi lascivo e o rude se fez doce e foi suave
Oh, inebriado! Em teu calor eu conheci torpor, eu conheci pecado
E o colorido de gemidos depravados e o paladar de um sorriso ensandecido

Mas do sonho desvanece a fantasia e logo silencia a canção
Vaidade das vaidades! Não há delírio que resista a luz da aurora
Efêmero e fugas devaneio, tudo é vaidade, tudo é passageiro!

O VELHO E O CORAÇÃO MENINO 


Sou um homem velho, entristecido pelo tempo. Os poucos anos de minha juventude acinzentaram minha alma. Hoje me basto da solidão vazia de meu mausoléu úmido, mas tenho um coração menino que teima em jogar jogos que desconhece. Inconseqüente como toda criança, repetidas vezes nos machuca nas mesmas brincadeiras que voltará a brincar com igual alegria. É um menino faceiro, de sentimento indomado cujas travessuras este adulto tenta equivocadamente controlar e sempre sem sucesso.
— Ah, coração menino, já era hora de parar. Que cantigas são estas que cantas convidando as meninas pra dançar? Não sabes que são muitos os corações ariscos e não estão dispostos a brincar? São corações feridos com um certo medo de amar. Ah, meu coração menino, já era tempo de parar!
Eu o advirto, mas ele não me escuta e corre pelas ruas a cantar enquanto o velho homem se recolhe ao frio e fome do seio de sua solidão. Perdidos entre estes opostos, deliramos por caminhos distintos e nossa poesia nos resta carregada de um ruído dissonante porque nos distanciamos e não mais nos encontramos. Esta distância me fere porque eu amo este jovem menino. Amo sua alegria trigueira que não se cansa de cantar e que me levou a incorrer em enganos porque ousei um canto mais profundo quando só conhecíamos a poesia e as travessuras de quem só quer brincar.
Ah, que terrível engano! Foi assim que eu me perdi por reinos que desconheço e ainda sigo a procura de abrigo. Levo esta história de dor que causa encanto e repulsa. Os bardos decantam minha desventura, os poetas recriam meu amor, comumente equivocados pois desconhecem como a angústia e o contentamento se deitam sobre o mesmo leito para chorarem lágrimas distintas.
Oh, amor de despedida e de saudade! Eu prossegui ferido por levar-te, eu me senti sozinho por querer-te. Mas não me arrependo, pois o que me mata é também o que me faz viver. Ele me nutre e me cultiva sob o sol, mas me fere e me molesta frente à lua.
Nestes dois mundos onde vivo e morro delicio-me de um sentimento grandioso que a luz do dia me cobre de uma alegria entusiástica. Que rara vestimenta, que relicário incomparável! Com a graça que tal fortuna concede me sento à sombra do palácio dos reis para entoar cantos de glória em sua homenagem e ser exaltado por aqueles que se admiram de minha ventura.
Mas ao findar o dia, com as vestes embebidas em lágrimas e sonhos, e atormentado pela solidão da noite, retirar-me-ei além dos limites da cidade para acercar-me de andrajosos pedintes cuja semelhança de infortúnio nos torna íntimos em miséria e desgraça.
Contraditórias impressões por algo que é sem dúvida alguma imensamente maior que o homem. Um gigante que ora nos ergue ao céu revestidos de louvor para tão logo nos lançar por terra esmagados por seus braços poderosos.
Entendei todos vós que um dia foram vítimas destes enganos que diante de tais mistérios um homem de imaturos sentimentos encontra facilmente o erro. Erros muitas vezes terríveis, mas, por sua natureza, sempre dignos de um perdão misericordioso por serem nascidos do seio de um coração menino, ainda assustado por não saber amar, mas com a grandeza própria daqueles que estão sempre dispostos a aprender.

© 2013 Igor Anatoli                                   Created at Razzoit Studios - Berlin, Germany.     

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