top of page

1 Eternidade

Quero viver intensamente para decantar

Tuas virtudes, que encheram de magia minha vida

Pois o corpo envelhece, mas em poesia eu vivo intensamente

E que meus versos te eternizem para vivermos juntos

Em cada palavra de carinho repetida por um amante

Que se serve dos versos que tua ternura inspirou

Como um dia eu fui poeta para fazê-lo

Unicamente por ti, por ti unicamente

 

 

 

2 Febos

Não foi o sol teu companheiro

Nas vespertinas horas de descanso

Caro, tenro, jovem, amigo

Infiel e inconstante no entanto

 

Incomum é este teu apreço

Ao astro que no céu se faz reinante

Teu maior rival quando da labuta

Torna eterno o instante torturante

 

E por que enaltecem traiçoeiro rei?

Não pela herança que legaste aos trópicos,

A miséria entre flores e frutos doces,

Mas à glória que entendo às margens do Atlântico

 

 

 

3 Oblações de sangue

Quantos dias curvado à vileza e a vilania

Incontáveis dias sob o jugo áspero do cárcere

Homenagens prestadas a falsidade e a mentira

 

Um altar erguido nas sombras para glorificar o mal

Onde o justo foi julgado e os maus perpetuaram sua vingança

Onde a verdade foi lançada por terra e os anjos se prostraram vencidos

 

Como é inconcisa a covardia, como seus atos se afastam do sensato

E a violência alimenta uma sede insaciável

Eles ainda conspiram, desejosos da ruína de pacatos

 

Eles injuriaram minha moral, mas minha virtude se mantém intocada

Aprisionaram meu corpo, mas minha alma voa radiante sobre os campos e cidades

Pois nada do justo lhe pode ser tomado e qualquer seu sacrifício o remete ao sagrado

 


 

4 Falsos jardins - égide

Margaridas e azaléias, bem-te-vis e pardais

Que forma serena de se escapar à verdade

Ater-me à covardia, esquivar-me a coragem

Mas não buscarei dos campos a magia nem formas serenas de vida

Enquanto não houver lastrado estas ruas com meu sangue podre

 

Quero mais do que calos nas mãos e suor sobre o corpo

Ainda falta o sangue a manchar minha mais clara veste

Sim, por que as pessoas nunca estão dispostas a tudo dar

Mas existem homens grandes e valorosos

Que estão dispostos a dar mais do que podem

 

 

 

5  As regras mudaram

Matamos por dinheiro, garoto, este é o jogo

A vida aqui vale bem pouco e pagamos barato

Não é uma questão de escrúpulos, é a realidade

Não nos importamos, na verdade, ninguém se importa

 

E daí que foi justo e virtuoso?

Eles não virão em teu auxílio

Não virão em teu socorro

Sim, foste bom, porém tolo

 

E se a isso repudias e assim desejares

Arrisca-te, tome de armas e tente a sorte

Entrega-te a essa luta de certo inglória

Teu ideal vale a luta, mas não vale a morte

 

Sabemos o quanto este jogo é sujo, mas aceite

É nossa natureza e as regras mudaram

Não tente fugir, amigo, você não pode

E daí que fede? A sujeira nos faz fortes

 

Jogue, mas se não souber jogar você não é nada

E a lama te domina e te devora

Mas não se preocupe, você aprende rápido

Bem vindo ao jogo, amigo, e jogamos alto!

 

 

 

6  Podemos chorar

Agora eu posso chorar

Materializar em lágrimas os frutos da dor e da angústia

Estes impostores a quem sempre fui servo

Indolente e fraco, merecedor de castigo

E punições severas que fui sempre submisso

 

Mas agora posso chorar

Porque fui forte diante de acusações e dolo

Porque tolerei com honra injurias vis

E suportei sem fraquejar duras penas, castigos cruéis

Fui digno de ostentar com honra as lágrimas que derramo

 

Agora eu posso chorar e não lamentar escondido

Mas minha pequena conquista será motivo de escárnio

E a minha riqueza chamarão tolice

E meu nome e minha lembrança serão ultrajados

Por todo o sempre por aqueles que planejaram minha ruína

 

Mas que o vento voe e que minhas lágrimas caiam como chuva

E que eu seja novamente julgado e humilhado novamente

E que não se converta em ira minha revolta por justiça

E que meu coração permaneça manso e eu enxergue virtude

Onde quer que eu vá, por todos os dias de minha vida

 

 

 

7 Lírica

Quem entenderá o coração de um poeta?

Subi às alturas, conhecei as estrelas:

É preciso ser estrela para conhecer sua solidão

 

E lamentai e em vossos lamentos sede eternos

Como só o inanimado inorgânico desgraçadamente o é

Mas sede de forma lírica, como só os poetas sabem ser

 


 

8 Só por esta noite

Essa noite eu quero um olhar que me liberte de mim mesmo

E torne minha alma radiante e me ensine a dançar

Num ritmo que a música ainda desconhece

Uma canção que ninguém ousou cantar

 

Quero o sentidos que a percepção urbana me frustrou

Quero a eloquência sincera, a palavra verdadeira

Palavra que surge sem precisar dizê-la

Corações alados e olhares que se guiam no infinito

 

Só por esta noite, um olhar que decifre meu pensar

Que emudeça minhas palavras, mas me faça cantar

Sem precisar fazê-lo, quero uma alma que entenda

Sem que me violente com palavras que não sei dizer

 

 

 

9 Esperanças vãs

Lançar os olhos sobre o mar, contemplar sua imensidão

Os sonhos vem e vão, rastro vazio de saudade e seus olhares 

Eis a vida: desventura infinita, negra vastidão

Malditos homens que se atreveram a senti-la

 

Tanta dor! Famílias desgraçadas sem saber

Convulsionados corações em amargura

Foi tanta desventura, tristeza tanta

O que restou da saudade que sentia

 

Crianças colocadas de castigo

Cortejo de mendigo, engano de doutores

Somos seus filhos, somos suas dores

E o que mais restou de esperanças vãs

 

 

 

10 Lágrimas

Tão pequena a poesia, tão grande o sentir

As palavras não são capazes de dizer

Já as lágrimas que caem sobre o papel,

Elas dizem tudo, mas quem poderá entender?

Por isso permito que elas caiam

Para dizerem de sua forma silenciosa

Uma verdade a que nenhum homem é alheio

 


 

11 Nós vamos nos encontrar novamente

Nós vamos nos encontrar novamente

É pequena esta cidade

E estreita as estradas que cortam este país

Por isso eu sei que nós vamos nos reencontrar

Tão logo o destino assim o queira

 

 

 

12 

Covarde tempo que me fere

Em teus designos conheci estrelas

Eu conheci a noite e o coração dos homens

Mas tudo me pareceu tão pouco

 

 

 

13 Torpor

Ela me olha e eu sei o que sugere seu olhar

Algo que repudiei a vida inteira e hoje me fascina

Envolve-me seu brilho e me convida

A um mundo que seduz por seu luxo e enganação

 

Permito-me ao vício mais hediondo

E a todos os males que lhe convém

Que me dominem em suas cores e aromas

Cínico impostor, amantes de mentiras!

 

Tempestade em lua nova, marés de sizígia

Tenho medo de envergonhar a filha que não tive

E de perder no outono a safra que colhi

Sabores estranhos à boca, medos e temores insanos

 

Tantos delírios, drogas leves, tormentos profundos

Que não apuram meu canto nem requintam a cantiga

Desejo então a dor, busco frustração e mágoa

E mais algo que permita por hora a poesia

 

Quero a lírica que se esquiva a estes versos

Quero a rima e a métrica nela expressa

Que foi ausente e constrangeu meu cantar

Por não libertar a dor, não legar poesia a meu sangrar

 

 

 

14 Acordai

Abri difíceis trilhas e por noites senti fome

Para alçar ao cume da mais alta montanha

E de lá cantar nossas vitórias a todos os povos

 

Mas os homens das cidades dormiam em seus quartos descansados

Já era tarde e distante de si não ouviam nada

Senão perenes ruídos de lamento e dor

 

Em sua surdez eles dormiam ser perceber suas vozes

Que vão e voltam às ruas todos os dias

E se somam aos lamentos da cidade a cada noites

 

A cidade chora com seus filhos indiferentes ao próprio pranto

E eu grito em minha dor vossos pecados para que acordem

E calem estes lamentos e entoem um canto novo

 


 

15 Tocha

Não és outro senão o sábio fogo

Que arde revelado pelas chamas

Manifestado na alma incandescente

Quando mesmo do pouco foi privado

 

Tudo viste consumir-se pelas chamas

E tua alma como o fogo se elevara

Ergueu-se e fez-se iluminada a noite

E mais grata a nossos dias foi lançada

 

Vejo sim e sei que tu consolas

A dor como em teu seio foi sedenta

Pois mesmo o fogo vai e se consome

Mas, silente como a brisa, nos aquece

 

Sim, decanto tua ventura, nobre amigo

Pois viste minha alma e meu lamento

Com um saber que a todos permitia

Como a dor que eu trazia então calado

 

Não és outro senão o fogo auspicioso

Acende as paixões nos corações pacatos

Alimenta a chama do sonho envergonhado

Satisfaz a sede ingrata de justiça

 

 

 

16 Deixe estar

Mesquinho é o coração do homem e indiferente seus desejos

As pessoas nunca estão dispostas a dar muito

Mas ainda assim há homens grandes e valorosos 

Que estão dispostos a dar mais do que podem

 

Deixa estar, como as lágrimas que secam em meu rosto

São elas não mais que vestígios do inverno

Que em manchas guardam um pouco de mim nesta mesa

Tenro, adocicado pelo vinho, umedecido de sereno

 

Mas não quero o torpor do álcool, nem a lucidez da vida

Quero o prazer do sonho e que se apresente em sua serena forma

Isso não é muito, como bem pouco é o que precisamos

De um pouco de vinho, de um pouco de sonho

 

Esta é acidade em esta noite eu sou suas ruas

Como meu canto que persiste e ainda se faz doce

Com um pouco de graça, com um pouco de encanto

Com um tanto de dor, com um tanto de pranto

 

 

 

17 Falaciosas cores

Malditas cores! Tingiram o céu de azul intenso

Fizeram verdes os prados, coloriram flores

Para ao fim manchar de sangue cristalinas fontes

Acinzentar os sorrisos mais sinceros

E todo sonho que ainda ousar nascer um dia

 

Ah, hospedeiro hostil! Por que vieste em tão ingrato ardor?

Tomaste de mim a primavera, a meiga infância e a ternura

Sou hoje terras inférteis, tonalidades mortas e obscuras

E o resto de dor que alimenta a saudade para amargurá-la

Que faz frios os dias e entristece a vida por completo

 

Versos de ira! Chora hoje a poesia e seus profetas

Foi a busca por cores de um mundo miserável

Despojos de guerra e os tons pardos de cenas de rancor

Nas perguntas que rasgam o peito ainda

Numa busca que consome e invariavelmente mostra dor

 

 

 

18 O mais maldito dos dias

Desvanece a fantasia: eis o mais maldito dos dias

Sou sua vítima, de sonhos profanados em ultraje

De perdas nunca ressarcidas (que pensei recuperar um dia)

Chorei seu pesar, negando a verdade derradeira que sabia

 

Guardei teu nome por todos estes anos de infeliz espera

A esperança vã pelo que um dia já se fora entre sorrisos

Sorrisos que não se repetiram e ocupam o vazio triste da saudade

Última riqueza maculada, a ferida mais ardente, a chaga mais profunda

 

Juras e promessas pouco valeram, tudo valeu tão pouco

O bastante para dias fatigantes e mágoas ingratas surgirem

Castigos de pecados que não tive, de erros que não cometi

Injusta recompensa, improvidência desmedida do destino

 

Somos seus filhos e eu o único órfão de um vício infindo

Pelo qual eu daria tudo e do qual não obtive nada

Escravos de desejos que ergui e se lançaram por terra desditosos

Como a honra, o respeito e o que me mais me despi sem orgulho

 


 

19 A fila corre

A fila corre e com ela correu um sonho

Correu a admiração e também o respeito

Sem que nenhum deles atingisse sua meta

Sem que nenhum de nós fosse feliz

 

Queimava o incenso, era fumaça cinza e aroma

Tudo a cercava, a ela unicamente (adocicado aroma!)

Um tanto rascante, como árvores do Planalto Central

Árvores de minha infância e que não existem mais

 

Embaraçado, o sol destas manhãs ofuscado,

Restamos senhores, doutores e garotos sem lei

Mulheres sem virtude e homens sem honra

Prossiga a fila! E que sigamos distantes, para nunca mais

 

 

 

20 Receios e temores

Temo que as promessas se confirmem insinceras

Fantasia em que delira um poeta

Para tapear de saudade sua vida

 

Tenho medo de um dia aprender a perder

E que inglórias lutas que lutei se dêem por vencidas

E o sangue se mostre vão, e a dor se revele sem sentido

 

Temo que os sonhos se resumam em fracasso

E que um dia me venha a faltar o verso

E já não mais poeta só me reste a dor

 

Tenho medo de ser julgado por meus erros

Medo de vê-los revelados

Vergonha de tê-los cometidos

 

 

 

21 7º dia

Foi o sétimo dia de minha vida

Lembro de estar cansado e não conseguir levantar

Eu tive vontade de morrer

Dar cabo ao erro que consumou-se com minha vida

 

Pela janela de meu mausoléu frio

Vi montes verdes e pastagens, mangues e plantações

E demais dádivas as quais nunca desejei

E chorei por saber que era tudo que a vida me servia

 

Foi meu sétimo dia e não havia cantos ou cantigas

Tive medo de mim e precisar da vida

Tive frio, e vontade de chorar, e ouvi lamentos

Que não eram distintos dos que já entoei um dia

 

Naquela noite eu chorei e morri um pouco

Mas perto do fim eu retornei à luta

Neguei doces amenidades a mim servidas

Fugi dos mortos e busquei aos vivos que choravam

 

 

 

22 Introdução

Um tanto embriagado, alguns cigarros à mesa

É só mais uma noite e dela se compraz a poesia

Somos cantores, pelos boêmios impostores

Pelos poetas medíocres, mas diferentes do humano

Somos algo novo que a literatura desconhece

 


 

23 Além das fronteiras da cidade

Quão bela é a cidade além de suas fronteiras!

Ultrapassei seus limites, ao cair da noite vi suas luzes

Caminhei por seus prédios, era meu o calor de suas ruas

Mas não ouviram meu canto, não incomodou o silêncio que fazia

E nem os que me amavam percebiam que eu chorava

 

Quisera percebessem, então por que sorrio?

Quisera entendessem, mas por que não falo?

( Acreditei que compreendessem sem que lhes falasse).

E que decifrassem a mentira de minha face

Mas só distante vi que são turvas as luzes da cidade

 

 

 

24 Desventurança

Eu quis erguer um castelo, honrar teu nome da forma mais intensa

Meus reinos foram teus, os mais belos jardins vislumbrei por ti

E tudo arruinou-se, temeroso engano, temor ingrato!

 

A maldição do amor, violenta dor: o que restou da verdade derradeira

Para punir-me, não pelo que não fiz, mas pelo que não tive

Imponderada escolha: lançar mão de um canto de aflição tremenda

 

Desventurança, infortúnio a que meu coração se ateve

Comprometeste a composição mais tenra, a meiga lírica

A poesia mais serena, aquela a qual o verso não se atreve

 

Saudade triste, infeliz esta lágrima sem vida

Feriu-me de morte para calar meu canto, silenciar meu verso

Quando traíste as promessas que fizeste

 

Que esta dor perdure e atravesse meu peito em intensa fúria

Será a última vez que derramarei sangue como lágrimas

Eis o dia em que os sonhos se perderão para sempre

 


 

25 Auto-exílio

A tristeza já me toma às portas do cárcere

Cativeiro frio, o exílio por mim mesmo imposto

A vergonha de ter revelado um rosto derrotado

Dúvidas quanto ao que já tive, a certeza de tudo que perdi

 

O degredo não se basta da insalubridade por castigo

A companhia dos insetos, ratos e da leptospirose

O passado, o mal e a maldade, a lembrança

Tantos companheiros cancerosos, um só motivo para a fuga

 

Aproxima-se o inverno, aflige-se o coração

Tanto me fere, tanto quero acreditar e não posso

Sonhos ariscos, devaneios incrédulos de si mesmos

A estigma da chaga, sua dor mais funda

 

O delírio, a febre, insana companheira

O punhal se ergue redentor em ultraje desafio

Úteros inférteis, deformidades em nossas almas vis

Que destes cantos se lançarão sobre a cidade

 

Permito-me o desespero e a desonra, filhos viris

Os dons já se perderam no limite do erro

O cotidiano, os gemidos, o lamento ou a poesia

Amargura e medo, ou o que mais nos permitir a dor

 


 

26 Luzes da cidade

 Minha alma voa sobre as ruínas da cidade

Tentando entender a razão de seu fracasso

Tentando compreender até que ponto faço parte disso

 

Meus sonhos pairam sobre suas luzes

Posso vê-los e no entanto me parecem tão distantes

É assombrante como brilham intensamente

É difícil crer que faziam parte de mim

Difícil acreditar que me faziam melhor

 

Das luzes que brilharam estes dias, guardei-as comigo

Para lembrá-las em noites de luar intenso

Tê-las, o único meio de guardá-las

Para enfim ter um motivo de perdê-las

 

 

 

27 Versos de ira

O vento frio do inverno revolve a poeira espessa do engano

Revelam lembranças que sob os auspícios do tempo se mostram ainda presentes

Como a mentira que enterrou sentimentos ingênuos e esperanças puras 

Não mais que almas nuas, prisioneiras inconseqüentes de si mesmas

 

Toda uma geração perdida, versos que se inspiraram e se perderam

Sorrisos magoados, molhados por olhares que também sorriam

E que hoje já não dizem nada, antes precedem palavras vazias de ira

De lábios que decantaram o inverno para serem traídos para sempre

 

As formas das bandeirolas das barracas, o colorido dos grafites dos parques

Tantos odores inebriantes, um único torpor pela fortuna que surgia

Palavras que queriam dizer muito, olhares sinceros que não representaram nada

Como promessas de flores que antes da primavera se frustraram perdidas

 

Os versos de mágoa, a poesia que se fez contundente e fria

Gritos de liberdade por um coração que jaz despedaçado

Esmagado entre os formidáveis gigantes da paixão e da perda

Acompanhados pelo medo e a revolta, seus companheiros ingratos

 

Revivam este passado e libertem minha alma encarcerada

Reverenciem seu filho, órfão desde cedo destes encantos

Desesperançados habitantes de angustiante desabrigo e dor

Foi o preço de deliciar-me em suas cores, cores que o inverno desbotou

 

 

 

28 Lamentos 

Talvez ela nunca saiba que eu a amei

Talvez eu nunca a tenha amado de fato

Mas o que senti foi suficiente para consagrá-la

Para honrar sua lembrança com a dor de perdê-la

 

Talvez eu viesse um dia a possuí-la

Mas por quanto tempo teríamos sido um do outro?

Hoje eu sei que meu coração lhe pertence eternamente

Pelo mero fato de nunca ter sido minha

 

Os casais que caminham de mãos dadas

E aqueles que namoram sentados nas praças

Nunca fomos um deles, nunca estivemos ali

E hoje é certo que jamais estaremos

 

 

 

29 De volta à estrada velha da saudade

De volta à estrada velha da saudade

Árvores cresceram às suas margens espinhosas

Com lindas flores, com folhas vistosas

 

Olhares que se lançaram sobre a paisagem ainda estão lá

Se perderam pelas praias, amarguraram os pastos

Tingiram com cores melancólicas este asfalto

 

Sobre o corpo há cicatrizes e cada marca dói

Sugerem à alma uma ferida aberta

Vim curá-la, libertar-me da chaga qu’inda resta

 

Vim colher os pedaços que ficaram

E lentamente percorro este asfalto

De pés descalços, de passo forte

 

 

 

30

As ondas lá fora perguntam por teu nome e não sei o que dizer

A poesia busca o significado do teu sorriso, mas não há resposta

Os pássaros já se recolhem, finda a alegria deste dia

É noite, evidencia-se a falta do que nunca tive

 

Eu espero pelo que não vem: tu não te sentas ao meu lado

Já não te toco e certo de que nunca toquei não mais espero

A mesa não é tão vazia quando a desesperança ocupa teu lugar

Indesejável companheira! Ingrata hora do descanso solitário

 

Ainda te procuro por corredores onde sei que não caminhas

Jaz meu sorriso em uma daquelas salas onde estavas

Teu silêncio o quebrou e não o procuro porque partiste

Só restou uma mágoa que mesmo de sonhos é carente

 

Agora derramas sozinha as lágrimas que quis derramar por ti

Quisera que elas jamais existissem, senão em poemas meus

Que decantassem sonhos que havia em olhos que não mais vejo

Olhos que inconseqüentes juraram mentiras sem saber

 

 

 

31 

Abri novamente meus olhos a verdade

E não há mais como fechá-los

Pois há promiscuidade em fazê-lo

Apesar de tolerar as lágrimas

 

Fecho a porta do quarto

E tento calar os gritos do destino

Deixar a solidão pedir respostas

E contentar-me com o silêncio

 

Sinto o frio ácido deste gosto

E revivo as recordações com tristeza

Para me esquecer do passado

No esforço de esquecer a dor

 

Busco a simplicidade das histórias

Com o sublime poder de quem as sabe

Sem fazer questão de saber

Muito mais do que devia

 


 

32 As mulheres que beijaram meus lábios

As mulheres que beijaram meus lábios hoje choram

Enquanto os mendigos compartilham de minha poesia

Pois não há como falar de amor àqueles que choram

São estranhos ao sonho aqueles que tem fome

 

As mulheres que beijaram meus lábios hoje choram

Trocaram sem saber o sorriso pela intensa mágoa

Sonhos desesperançados: a verdade não redime

Já a mentira, esta sim consola e conforta

 

As mulheres que beijaram meus lábios hoje choram

Infortunados corações que me amaram

Quisera compreendessem meu silêncio, decifrassem minha dor

Pedido que nunca lhes fiz para que pudessem ser felizes

 

As mulheres que beijaram meus lábios hoje choram

Eu choro por elas e pelos meninos que tem fome

Pela maldição dos homens  e das almas que ainda não partiram

Eu choro por mim, e pelas noites que ainda estão por vir

 

 

 

33 Prostitutas

Quanto custa sua alma?

Qual o preço do seu corpo?

Estou disposto a pagar pouco

Pago pouco e barato pelos dois

 

 

 

34 As luzes de mercúrio

São as luzes de mercúrio estas estrelas

De naus que não mais navegam

Que já não me tem como senhor

Que nunca tiveram

 

Tantas estrelas

Tantas milhas de asfalto frio

Estamos sozinho

E nossas almas de igual maneira

 

Não mais se vê o impenetrável

Resta o introspectivo de olhar vazio

Com as mesmas perguntas sem respostas

Que hoje eu já nem preciso

 

Espero em madrugadas frias

Com um coração sereno amanhecido

Entre saudades por um passado esquecido

Com mágoas do que ainda é lembrado

 


 

35 As chaminés da usina

Os homens que atravessam a serra desconhecem o que esconde seu vale

Passam desapercebidos por mistérios que as montanhas calam em segredo

Lá existe um coração forjado no aço quente da usina

Os pais de seus pais sentiram o calor dessas fornalhas

E a vida inteira a fuligem de chaminés que incomodam maus pulmões

 

Mas quem se lembrará? Quem saberá do córrego e dos jardins?

Suas águas suaves passarão e talvez ainda estejam lá

Mas não a florir, ou não como floriam em meus sonhos

Entre o carinho de abraços sinceros e sorrisos que não mais vejo

Desorientados pelo medo que assola os corações ariscos

 

Aprisionado à coqueria, meu coração ainda bate

Ainda é vivo, como a cidade e a chama que a rege

Onde queima um sonho, entre gases tóxicos e saudade

Iluminando a noite e lembrando a cada dia a promessa

Que perante o fogo se deu e enquanto ele arder existirá

 

 

 

36 O centro da cidade

O concreto dos prédios do subúrbio

E o asfalto do centro da cidade

Mesmo se fossem de flores não saberiam

Ainda que fossem de carne não teriam respostas

 

Meu rosto imberbe, densamente maquilado

A cidade não sabe o quanto aqui se esconde

De medo e frustração, de dor e revolta

Sob a máscara espessa e sociável de um sorriso

 

 

 

37 O estouro da boiada

A cidade deserta, com passos que deixaram marcas

Como uma manada que rompe a linha da porteira

Parti, a cidade já não era minha, talvez nunca tenha sido

Hoje sei que a nada pertencia, que não tive a ninguém e a tudo perdi

 

Ah, o estouro da boiada! Que sua fúria atravesse as matas

Os pastos devastados já não representam nada

E onde há flores? Para onde se foi a ternura que havia,

O sonho que houvera e a esperança que não quer surgir

 

 

 

38 Livros que ainda estão por ler

Muitos livros ainda estão por ler

E quantas páginas ainda não foram escritas

Suas palavras perdidas entre preces e orações

Que escondem sentimentos devastadores

 

Palavras, e o desejo de dizer o que o coração esconde

O anseio dos versos e seus amantes

Bem o sabem os poemas, bem o sabem os romances

E as almas entristecidas pela dor da perda;

 

 

 

39 Lembranças

Lembro dos jardins, das flores e das paisagens

Lembro suas cores, o colorido da esperança e das águas

De olhos e olhares repletos de expectativas e seus sonhos

Mas como sonhadores recordam os sonhos mais remotos

 

Lembro de promessas e mentiras, lembro da maldade

Lembro o gosto de palavras que não disse e seu incomodo

Palavras de mágoa que acompanhavam lágrimas e não raro dor

Para se unirem a lembranças que amarguraram meu passado

 

Eu lembro das lambretas, das ostras e dos mariscos

Do lavradio, da ilha, da bela ilha e das praias

Lembro como os homens já não são capazes de recordar

Lembro com saudade e como não gostaria de lembrar

 


 

40 Mãos pequenas, pequenos pés

Mãos pequenas, pequenos pés, corações infames

Prisioneiros pacatos de um corpo doentio

Atormentado por um passado e dominado por vícios

 

Pequeno coração, infame corpo que perpetua o mal

Coração ferido, carente de carícias, carente de sentidos

Envolto a enganos, fraco e suscetível a maldade

 

Compomos canções, mas não nos libertamos de nossa dor

Nos rendemos a nossos vícios, fomos escravos de desejos

Como servos submissos se rendem a vaidades

 

Mas o inferno se fez a terra e escolheu para si os melhores

Estamos entre eles: inflija suas penas, podemos vencê-las

E a tudo que não destrua o que é selvagem

 

Corações infames, pequenos pés, mãos pequenas

Que ousaram tocar o que não devia ser tocado

Como os heróis ousam sonhos que os homens desconhecem

 


 

41 Descompasso

Parti, longas milhas vaguei

Para ferir meu coração ao longe

Infortunada busca de intento aos versos

E lacrimejante os trago, tapeados em mágoas

 

Tomo do ferro, mas do que me vale?

Se o sangue e o punhal não me libertam

Se sua proposta nem a dor encerra

E tão incerta é a voz dessa amizade

 

O leito velado por lamentos de poetas

Profetas, que vislumbram o desacerto das idéias

Sentidos dos aflitos e seus iguais

Em desventura, em pesar e em poesia

 

Não é uma filha a inspiração a que procuras

Um desacerto, um desafeto entre os convivas

Que tão logo te punirá quando consiga

E em dores talvez permita algum relato

 


 

42 Maldições

Hoje os senhores do mal riem de minha ruína

Tenho o medo que os alimenta, sou frio perante sua maldade

E minha desgraça é acompanhada de perto sob o escárnio

Destas criaturas que se comprazem do sofrimento alheio

 

Que alma desgraçada é esta e qual meu crime?

Conheço a maldição e a abomino, abomino esta alma

Que trouxe consigo versos e o sentimento impetuoso

Sem pedir permissão de afligir com agonia meu corpo

 

Se for o preço dos pecados, eu posso pagá-lo

Mas qual deles me cobram nesta noite infeliz?

O mal me atormenta e eu me prostro, permito-me a dor

Que viola meu corpo e convulsiona minha alma

 

Quisera as lágrimas este peito aliviasse

Quisera a morte todo erro redimisse

Mas lhes bastam a dor e ao sonho a ruína,

O fim da esperança e a realização de todos os temores

 

 

 

43 A hora profunda

Esta é a hora maldita entre a dor e o sonho

Entre o lamento e o suspiro, a aflição e o alívio

O instante em que me perdi e caí derrotado

Quando me recolhi sozinho e chorei

A hora que se estendeu para ferir e feriu

 

Esta é a hora a que todas as outras estão fadadas

Entre o sono e o cansaço, a hora profunda

Em que se formam os sonhos, em que se formam as nuvens

E os ventos, e as brisas que ventilam a América

E inspiram a poesia e a composição sincera

 

Mas espero a hora sagrada entre o despertar e o alvorecer

A hora que precede o sonhar, entre o sorriso e o sorrir

Uma hora passageira de encanto, um instante fugaz

Que justifica as horas que já se foram e as que estão por vir

E todas as outras que não vieram e que não virão

 


 

44 Entretantos

Os pormenores do teu rosto intentam fugir-me a memória

Temo esta fuga, perder o pouco que de ti me resta

O vazio que a saudade não preenche e a frustração comigo

 

Já não te toco, mas certo que um dia toquei ainda insisto

Ao recordar o sentir do teu calor que me foi tão precioso

No encontro do teu corpo com a extensão maior de meu carinho

 

Nem só lembranças: em tua janela um vulto meu olhar carrega

E meu pensar se perde pela cidade em tua busca ainda

Por esquinas ingratas que não trazem respostas, que não te mostram

 

Já não vejo a cor de teus cabelos que em outros cabelos vejo

Mas sei da cor, tão pouca cor, que em outros corpos toco

E revivem a noite que foi tão breve e passageira ao teu lado

 

Alguns sabores a boca, o vermelho da maçã aos lábios

O doce sabor do beijo, suave e delicado e ainda sentido

Como um vício, insano delírio nunca saciado

 

São estes os ardis que um dia me enganaram!

Os sonhos que não quero ao acaso ver perdidos

Desejos que anseio realizados, promessas que quero ver cumpridas

 

 

 

45 Amigo íntimo

Não vês como me fere e te machucas

Eu sinto, eu me divirto e choro

E lamento quanto entendo tua busca

Que como nunca em desejos vai embora

 

Não me ouves, não me queres, então me calo

Calado eu adormeço e em teu silêncio escuto

O grito mudo, o sonho que escondes e não sacias

Então me vejo, então me alegro e cresço ainda

 

Eu sou contigo, amigo, eu conheço e sei

Eu soube antes que quisesses, antes que pensasses

Antes mesmo da falta que te fiz eu vim

Eu estava aqui a esperar por ti e ainda estou

 


 

46 Não ouse tocar meu corpo

Não ouse tocar meu corpo

Você já não pode tocá-lo

Porque me banhei em lágrimas e rosas

E lavei minha alma em suor e sangue

E já não posso ser tocado

Por almas que detenham pecados

E mãos inconseqüentes que tragam consigo a dor

 

 

47  Não sei se gosto...

Oh, incauto! Que caminho ingrato!  E não sei se gosto...

Mais uma vez deixou-se arrebatar-se por encantos

E as formas ásperas de teu mundo se tornaram suaves

E os ruídos se harmonizaram para comporem melodias

E junto à luz e ao sonho coloriram o que era desacerto

 

Mas isso por vezes machuca e eu sei o quanto dói

Em desconforto eu habito teu peito na companhia desta mágoa

E tão incomodo me parece isso que nos une

Que fascina e aquece, que aos lábios traz sabor

Em doloroso prazer, em prazerosa dor, e não sei se gosto...

 

É ter flores num caminho com tanta cor e brilho

É primavera nesse mundo novo celebrando uma verdade nova

A mais bela das estações nunca antes vista, bela e passageira

Como é breve a alegria pela gestação do natimorto

Uma dor da qual conheço o gosto, mas não sei se gosto

 

 

 

48 Mais uma vez

Mais uma vez e quantas vezes mais serão?

Minha ingênua pretensão, meu sonho ingênuo!

Acreditei como acreditam aqueles que sonham

Como ousam sonhar aqueles que amam

Que amam sem precisar serem amados

 

Mais uma vez e quantas vezes mais serão?

Que sejam e que venham como quiserem

Pois meus pés por si só buscam este caminho

E se constrangem de serem desviados

Porque eu ainda quero, porque eu preciso

 


 

49 Dedicatória

Hei de proteger o manto branco que te cobre

E honrar por todo o sempre teu nome

Minha deusa, minha rainha, minha princesa

Eu sou teu filho, teu servo, o apaixonado que te ama

E o seria, ainda que não estivesses ao meu lado

Nos passageiros sonhos que à noite me distraem a dor

 

 

 

50 Paraguaçu

Por que não me falaram, por que não me disseram?

Acreditei que entenderia se eles me explicassem

Mas eles se calaram e contrariado me calei

Sem respostas a coisas sem sentido, a perguntas que não sei

 

Tantas cartas sem respostas e ainda espero pelo que não vem

Hoje choro e, como eles, calo, como poetas que um dia desistiram

Que se renderam e caíram, que se deixaram vencer

Dominados por demônios e por uma verdade que também é minha

 

Se foram as rimas e as canções que foram minhas não mais são

Roubou-me-as o vento, roubou-me-as o tempo e o destino

Ingratos amigos, indesejados convivas que se vão

E levam consigo o que não tenho, o que tentei acreditar e não pude

 

O pouco que me resta é esta esperança sem sentido

Sou seu filho, desnutrido e fraco, um natimorto sepultado

E ainda acredito na infame tolice de insistir na vida

De confiar no sonho e num morrer que venha antes de estar morto

 

Quantos dias vividos sem motivo! Eu tive frio e duvidei da vida

Eu tive medo e desisti do sonho, eu me feri e me senti sozinho

Resta-nos celebrarmos estas perdas com lamentos por cartas que não lemos

Por canções que não fizemos e declarações de amor que ficamos por dizer

 

 


 

51 

Eu voltei, mas onde estivemos? Onde estive que não me lembro?

Tantas partes de mim espalhadas por lugares que não me pertencem

E o desejo de percorrer novos caminhos em busca de coisas que não sei

 

Eu fui distante em busca destas verdades, eu fui sem medo

Percorri as ruas do centro da cidade e conheci o frio de seus prédios

Segui estradas, conheci as montanhas e seus vales, encontrei os campos

 

Quantos mistérios descobri! Desvendei segredos, mas nem tudo foi verdade

Era a alma triste da cidade que perseguia um coração magoado e ainda meu

Que mais chorava e em mais dor ardia pela negra verdade revelada

 

Eu conheci os homens e suas leis e perante elas me curvei

Diante de seus juízes e seus reis, pois era fraco e da fraqueza escravo

Tanto quanto amigo, como todos aqueles que curvados me seguiam

 

Conheci altares, a beleza e o que é belo, conheci mentiras

Qual deles me tomou como senhor? Quantos deles um dia me serviram?

Não há respostas, eu fui tão longe para ver aquilo que sabia

 

As máscaras e as mentiras, não era minha a verdade que eu ouvia

Tantos homens calados, a maquiagem espessa de um palhaço

Não mais as quero, vou voltar aonde tenho as verdades que são minhas

 

Não mais canto entre aqueles que se calam, tomo o mausoléu por lar

E a lápide rege o leito que me acolhe, num velório a lamentar por nós

Pois acredito no que o homem abomina, guardo o que não se guarda mais


 

 

 

52 Avise se você for me fazer chorar

Avise se você for me fazer chora

E eu guardarei minhas lágrimas

Para derramá-las unicamente por ti

E meu medo para este que se aproxima

E minha angústia para o que o sucederá

 

Avise se você for me fazer chorar

Porque eu me esconderei para chorar sozinho

E com ninguém compartilhar a mágoa

Com que vou alimentar meus versos

E tapear as noites, e adentrar as madrugadas

 

Avise se você for me fazer chorar

Para que eu prepare meu coração

Para um instante solene de dor

Eternizado pelo intenso sofrimento

Que me acompanhará em cada novo amor

 

Avise se você for me fazer chorar

Para que a meu corpo todo eu antecipe

E ao sentimento eu explique o que ocorre,

O mesmo tantas vezes repetido

A que me entrego indiferente e calmo

 

Avise se você for me fazer chorar

Para que eu saiba o que lhe dizer no instante

Para que eu te abrace sem molhar sua roupa

Para que eu me despeça sem causar-lhe pena

Para que eu parta se morrer um pouco.

 

 

 

53 O caminho dos barcos

Os barcos que aportaram a marina

Conheciam o momento da partida

Conheciam os mares e as brisas

Conheciam os ventos que se vão

 

Suor e lágrimas se unem ao orvalho

Sagrados sabores em deliciosos lábios

Cantos de pássaros, brisas vespertinas

São as lembranças do que tive um dia

 

Sim, eu semeei os campos e, veja:

Seguem as boiadas e os pastores

Segue o suave aroma das flores

Seguem as naus que dos portos partiram

 

Trens se foram e aviões também irão

Os sonhos vêm e vão, são lamentos distintos:

Eles conheciam o momento da partida

E não me falaram desta solidão!

 

Ah! Tripulantes de força, bravos, aguerridos

Homens que levam consigo a saudade

Deixam o vazio de um porto abandonado

Deixam a mágoa por tudo que perdi

 

Restaram-me olhares desconsolados e pesares

Por pássaros jovens e saudáveis a seguir viagem

Enquanto eu, o pássaro velho e adoecido

Para chorar sozinho ao ninho se recolhe

 

 


 

54

Mulher que eu toquei para amar, que pensei minha e que perdi

Caminhava pelas ruas de luzes turvas atordoado

A buscar ao longe aquilo que não via, o que desejo

A imagem do corcel resplandecente que foi teu nome

A cavalgar pelos campos e campinas que foram minha alma

 

Sou eu nestas madrugadas frias à tua lembrança cobiçada

Entre rios de escárnio dos corações vazios que não entendem

O incrédulo receio de não ser verdade um sonho intenso

Da alma arisca que deseja mesmo aquilo o que teme

As promessas de um sonho que ainda anseia ser cumprido

 

Mas eu me perdi, foi solitário que caí, foi sozinho que adormeci ferido

Para saudar teu nome com lágrimas e tua lembrança com intensa dor

De perder-me dos sonhos passageiros, das vespertinas chuvas de verão 

Do engano doce que iludiu meus lábios para amargurá-los

E ensiná-los o que da vida é alegria e o significado terrível de perdê-la

 

A madrugada é de fato fria e ao meu lado há frio e solidão

Essas duas irmãs que me beijam, essas duas serpentes que me traem

O órfão de um destino prometido, o bastardo de um mundo de aflição

Quero o filho ingrato desta vida como amigo, suas cantigas e canções

E esquecer a dor que foi teu nome, e recordar os sabores que se vão

 

 

 

55

Em ti eu morri três vezes 

Mas valeu a pena ter morrido um pouco 

Para que você vivesse mais

Então guarde contigo o que de mim tu levas

Faça valer a pena minha dádiva

Dê algum sentido ao sacrifício que te oferto

 

Eu morri três vezes por ousar amá-la

E por três vezes com lágrimas rendi-lhe homenagens

Que transformaram em jazigo o leito que foi nosso

E em mausoléu o que outrora fora um lar

 

Sim, eu me feri, eu me machuquei e chorei,

Eu morri três vezes por amá-la

E morreria trezentas vezes se preciso

Para tê-la novamente entre meus braços

Para uma vez mais sabê-la minha

 

 

 

56 Poetas

Não há nada mais triste que o coração de um poeta

Não há nada mais doce

Pois quem decantará sua própria dor

E lamentará como se cantasse

Dedicando o silêncio vazio de sua solidão

À imensidão cansada de sua saudade.

 

 

 

57

Há algo mais ingênuo que a pureza? E haverá algo mais puro que o amor?

Neles a certeza do que é perda, mas contentamento pelo pouco que de ti ficou

Porque preciso de algo que seja teu a compor as formas de meu peito dilacerado

Por me sentir sozinho como esqueci que posso, aos limites que a saudade se permite

 

Que armadilha deliciosa foi teu nome, onde o destino veio manifestar caprichos

Fazendo-me sorrir tendo em lágrimas os olhos, e chorar tendo o coração repleto

Eu tive a alegria de honrar-te como um servo e de servir-te como um escravo

Que chora em tristeza por se ver liberto sabendo o fim de sua prisão apreciada

 

Mas deste delírio que foi teu nome trago o gosto auspicioso de teu beijo à boca,

À memória a lembrança dolorosa de tua partida, à pele o toque de tua carinhosa mão

Como quem decanta sua própria dor, quem lamenta com tristeza o que foi felicidade

Dedicando o silêncio vazio de sua solidão a imensidão cansada de sua saudade

 

© 2013 Igor Anatoli                                   Created at Razzoit Studios - Berlin, Germany.     

bottom of page