
Igor ANATOLI
Trechos de livros e trabalhos do autor
1 Eternidade
Quero viver intensamente para decantar
Tuas virtudes, que encheram de magia minha vida
Pois o corpo envelhece, mas em poesia eu vivo intensamente
E que meus versos te eternizem para vivermos juntos
Em cada palavra de carinho repetida por um amante
Que se serve dos versos que tua ternura inspirou
Como um dia eu fui poeta para fazê-lo
Unicamente por ti, por ti unicamente
2 Febos
Não foi o sol teu companheiro
Nas vespertinas horas de descanso
Caro, tenro, jovem, amigo
Infiel e inconstante no entanto
Incomum é este teu apreço
Ao astro que no céu se faz reinante
Teu maior rival quando da labuta
Torna eterno o instante torturante
E por que enaltecem traiçoeiro rei?
Não pela herança que legaste aos trópicos,
A miséria entre flores e frutos doces,
Mas à glória que entendo às margens do Atlântico
3 Oblações de sangue
Quantos dias curvado à vileza e a vilania
Incontáveis dias sob o jugo áspero do cárcere
Homenagens prestadas a falsidade e a mentira
Um altar erguido nas sombras para glorificar o mal
Onde o justo foi julgado e os maus perpetuaram sua vingança
Onde a verdade foi lançada por terra e os anjos se prostraram vencidos
Como é inconcisa a covardia, como seus atos se afastam do sensato
E a violência alimenta uma sede insaciável
Eles ainda conspiram, desejosos da ruína de pacatos
Eles injuriaram minha moral, mas minha virtude se mantém intocada
Aprisionaram meu corpo, mas minha alma voa radiante sobre os campos e cidades
Pois nada do justo lhe pode ser tomado e qualquer seu sacrifício o remete ao sagrado
4 Falsos jardins - égide
Margaridas e azaléias, bem-te-vis e pardais
Que forma serena de se escapar à verdade
Ater-me à covardia, esquivar-me a coragem
Mas não buscarei dos campos a magia nem formas serenas de vida
Enquanto não houver lastrado estas ruas com meu sangue podre
Quero mais do que calos nas mãos e suor sobre o corpo
Ainda falta o sangue a manchar minha mais clara veste
Sim, por que as pessoas nunca estão dispostas a tudo dar
Mas existem homens grandes e valorosos
Que estão dispostos a dar mais do que podem
5 As regras mudaram
Matamos por dinheiro, garoto, este é o jogo
A vida aqui vale bem pouco e pagamos barato
Não é uma questão de escrúpulos, é a realidade
Não nos importamos, na verdade, ninguém se importa
E daí que foi justo e virtuoso?
Eles não virão em teu auxílio
Não virão em teu socorro
Sim, foste bom, porém tolo
E se a isso repudias e assim desejares
Arrisca-te, tome de armas e tente a sorte
Entrega-te a essa luta de certo inglória
Teu ideal vale a luta, mas não vale a morte
Sabemos o quanto este jogo é sujo, mas aceite
É nossa natureza e as regras mudaram
Não tente fugir, amigo, você não pode
E daí que fede? A sujeira nos faz fortes
Jogue, mas se não souber jogar você não é nada
E a lama te domina e te devora
Mas não se preocupe, você aprende rápido
Bem vindo ao jogo, amigo, e jogamos alto!
6 Podemos chorar
Agora eu posso chorar
Materializar em lágrimas os frutos da dor e da angústia
Estes impostores a quem sempre fui servo
Indolente e fraco, merecedor de castigo
E punições severas que fui sempre submisso
Mas agora posso chorar
Porque fui forte diante de acusações e dolo
Porque tolerei com honra injurias vis
E suportei sem fraquejar duras penas, castigos cruéis
Fui digno de ostentar com honra as lágrimas que derramo
Agora eu posso chorar e não lamentar escondido
Mas minha pequena conquista será motivo de escárnio
E a minha riqueza chamarão tolice
E meu nome e minha lembrança serão ultrajados
Por todo o sempre por aqueles que planejaram minha ruína
Mas que o vento voe e que minhas lágrimas caiam como chuva
E que eu seja novamente julgado e humilhado novamente
E que não se converta em ira minha revolta por justiça
E que meu coração permaneça manso e eu enxergue virtude
Onde quer que eu vá, por todos os dias de minha vida
7 Lírica
Quem entenderá o coração de um poeta?
Subi às alturas, conhecei as estrelas:
É preciso ser estrela para conhecer sua solidão
E lamentai e em vossos lamentos sede eternos
Como só o inanimado inorgânico desgraçadamente o é
Mas sede de forma lírica, como só os poetas sabem ser
8 Só por esta noite
Essa noite eu quero um olhar que me liberte de mim mesmo
E torne minha alma radiante e me ensine a dançar
Num ritmo que a música ainda desconhece
Uma canção que ninguém ousou cantar
Quero o sentidos que a percepção urbana me frustrou
Quero a eloquência sincera, a palavra verdadeira
Palavra que surge sem precisar dizê-la
Corações alados e olhares que se guiam no infinito
Só por esta noite, um olhar que decifre meu pensar
Que emudeça minhas palavras, mas me faça cantar
Sem precisar fazê-lo, quero uma alma que entenda
Sem que me violente com palavras que não sei dizer
9 Esperanças vãs
Lançar os olhos sobre o mar, contemplar sua imensidão
Os sonhos vem e vão, rastro vazio de saudade e seus olhares
Eis a vida: desventura infinita, negra vastidão
Malditos homens que se atreveram a senti-la
Tanta dor! Famílias desgraçadas sem saber
Convulsionados corações em amargura
Foi tanta desventura, tristeza tanta
O que restou da saudade que sentia
Crianças colocadas de castigo
Cortejo de mendigo, engano de doutores
Somos seus filhos, somos suas dores
E o que mais restou de esperanças vãs
10 Lágrimas
Tão pequena a poesia, tão grande o sentir
As palavras não são capazes de dizer
Já as lágrimas que caem sobre o papel,
Elas dizem tudo, mas quem poderá entender?
Por isso permito que elas caiam
Para dizerem de sua forma silenciosa
Uma verdade a que nenhum homem é alheio
11 Nós vamos nos encontrar novamente
Nós vamos nos encontrar novamente
É pequena esta cidade
E estreita as estradas que cortam este país
Por isso eu sei que nós vamos nos reencontrar
Tão logo o destino assim o queira
12
Covarde tempo que me fere
Em teus designos conheci estrelas
Eu conheci a noite e o coração dos homens
Mas tudo me pareceu tão pouco
13 Torpor
Ela me olha e eu sei o que sugere seu olhar
Algo que repudiei a vida inteira e hoje me fascina
Envolve-me seu brilho e me convida
A um mundo que seduz por seu luxo e enganação
Permito-me ao vício mais hediondo
E a todos os males que lhe convém
Que me dominem em suas cores e aromas
Cínico impostor, amantes de mentiras!
Tempestade em lua nova, marés de sizígia
Tenho medo de envergonhar a filha que não tive
E de perder no outono a safra que colhi
Sabores estranhos à boca, medos e temores insanos
Tantos delírios, drogas leves, tormentos profundos
Que não apuram meu canto nem requintam a cantiga
Desejo então a dor, busco frustração e mágoa
E mais algo que permita por hora a poesia
Quero a lírica que se esquiva a estes versos
Quero a rima e a métrica nela expressa
Que foi ausente e constrangeu meu cantar
Por não libertar a dor, não legar poesia a meu sangrar
14 Acordai
Abri difíceis trilhas e por noites senti fome
Para alçar ao cume da mais alta montanha
E de lá cantar nossas vitórias a todos os povos
Mas os homens das cidades dormiam em seus quartos descansados
Já era tarde e distante de si não ouviam nada
Senão perenes ruídos de lamento e dor
Em sua surdez eles dormiam ser perceber suas vozes
Que vão e voltam às ruas todos os dias
E se somam aos lamentos da cidade a cada noites
A cidade chora com seus filhos indiferentes ao próprio pranto
E eu grito em minha dor vossos pecados para que acordem
E calem estes lamentos e entoem um canto novo
15 Tocha
Não és outro senão o sábio fogo
Que arde revelado pelas chamas
Manifestado na alma incandescente
Quando mesmo do pouco foi privado
Tudo viste consumir-se pelas chamas
E tua alma como o fogo se elevara
Ergueu-se e fez-se iluminada a noite
E mais grata a nossos dias foi lançada
Vejo sim e sei que tu consolas
A dor como em teu seio foi sedenta
Pois mesmo o fogo vai e se consome
Mas, silente como a brisa, nos aquece
Sim, decanto tua ventura, nobre amigo
Pois viste minha alma e meu lamento
Com um saber que a todos permitia
Como a dor que eu trazia então calado
Não és outro senão o fogo auspicioso
Acende as paixões nos corações pacatos
Alimenta a chama do sonho envergonhado
Satisfaz a sede ingrata de justiça
16 Deixe estar
Mesquinho é o coração do homem e indiferente seus desejos
As pessoas nunca estão dispostas a dar muito
Mas ainda assim há homens grandes e valorosos
Que estão dispostos a dar mais do que podem
Deixa estar, como as lágrimas que secam em meu rosto
São elas não mais que vestígios do inverno
Que em manchas guardam um pouco de mim nesta mesa
Tenro, adocicado pelo vinho, umedecido de sereno
Mas não quero o torpor do álcool, nem a lucidez da vida
Quero o prazer do sonho e que se apresente em sua serena forma
Isso não é muito, como bem pouco é o que precisamos
De um pouco de vinho, de um pouco de sonho
Esta é acidade em esta noite eu sou suas ruas
Como meu canto que persiste e ainda se faz doce
Com um pouco de graça, com um pouco de encanto
Com um tanto de dor, com um tanto de pranto
17 Falaciosas cores
Malditas cores! Tingiram o céu de azul intenso
Fizeram verdes os prados, coloriram flores
Para ao fim manchar de sangue cristalinas fontes
Acinzentar os sorrisos mais sinceros
E todo sonho que ainda ousar nascer um dia
Ah, hospedeiro hostil! Por que vieste em tão ingrato ardor?
Tomaste de mim a primavera, a meiga infância e a ternura
Sou hoje terras inférteis, tonalidades mortas e obscuras
E o resto de dor que alimenta a saudade para amargurá-la
Que faz frios os dias e entristece a vida por completo
Versos de ira! Chora hoje a poesia e seus profetas
Foi a busca por cores de um mundo miserável
Despojos de guerra e os tons pardos de cenas de rancor
Nas perguntas que rasgam o peito ainda
Numa busca que consome e invariavelmente mostra dor
18 O mais maldito dos dias
Desvanece a fantasia: eis o mais maldito dos dias
Sou sua vítima, de sonhos profanados em ultraje
De perdas nunca ressarcidas (que pensei recuperar um dia)
Chorei seu pesar, negando a verdade derradeira que sabia
Guardei teu nome por todos estes anos de infeliz espera
A esperança vã pelo que um dia já se fora entre sorrisos
Sorrisos que não se repetiram e ocupam o vazio triste da saudade
Última riqueza maculada, a ferida mais ardente, a chaga mais profunda
Juras e promessas pouco valeram, tudo valeu tão pouco
O bastante para dias fatigantes e mágoas ingratas surgirem
Castigos de pecados que não tive, de erros que não cometi
Injusta recompensa, improvidência desmedida do destino
Somos seus filhos e eu o único órfão de um vício infindo
Pelo qual eu daria tudo e do qual não obtive nada
Escravos de desejos que ergui e se lançaram por terra desditosos
Como a honra, o respeito e o que me mais me despi sem orgulho
19 A fila corre
A fila corre e com ela correu um sonho
Correu a admiração e também o respeito
Sem que nenhum deles atingisse sua meta
Sem que nenhum de nós fosse feliz
Queimava o incenso, era fumaça cinza e aroma
Tudo a cercava, a ela unicamente (adocicado aroma!)
Um tanto rascante, como árvores do Planalto Central
Árvores de minha infância e que não existem mais
Embaraçado, o sol destas manhãs ofuscado,
Restamos senhores, doutores e garotos sem lei
Mulheres sem virtude e homens sem honra
Prossiga a fila! E que sigamos distantes, para nunca mais
20 Receios e temores
Temo que as promessas se confirmem insinceras
Fantasia em que delira um poeta
Para tapear de saudade sua vida
Tenho medo de um dia aprender a perder
E que inglórias lutas que lutei se dêem por vencidas
E o sangue se mostre vão, e a dor se revele sem sentido
Temo que os sonhos se resumam em fracasso
E que um dia me venha a faltar o verso
E já não mais poeta só me reste a dor
Tenho medo de ser julgado por meus erros
Medo de vê-los revelados
Vergonha de tê-los cometidos
21 7º dia
Foi o sétimo dia de minha vida
Lembro de estar cansado e não conseguir levantar
Eu tive vontade de morrer
Dar cabo ao erro que consumou-se com minha vida
Pela janela de meu mausoléu frio
Vi montes verdes e pastagens, mangues e plantações
E demais dádivas as quais nunca desejei
E chorei por saber que era tudo que a vida me servia
Foi meu sétimo dia e não havia cantos ou cantigas
Tive medo de mim e precisar da vida
Tive frio, e vontade de chorar, e ouvi lamentos
Que não eram distintos dos que já entoei um dia
Naquela noite eu chorei e morri um pouco
Mas perto do fim eu retornei à luta
Neguei doces amenidades a mim servidas
Fugi dos mortos e busquei aos vivos que choravam
22 Introdução
Um tanto embriagado, alguns cigarros à mesa
É só mais uma noite e dela se compraz a poesia
Somos cantores, pelos boêmios impostores
Pelos poetas medíocres, mas diferentes do humano
Somos algo novo que a literatura desconhece
23 Além das fronteiras da cidade
Quão bela é a cidade além de suas fronteiras!
Ultrapassei seus limites, ao cair da noite vi suas luzes
Caminhei por seus prédios, era meu o calor de suas ruas
Mas não ouviram meu canto, não incomodou o silêncio que fazia
E nem os que me amavam percebiam que eu chorava
Quisera percebessem, então por que sorrio?
Quisera entendessem, mas por que não falo?
( Acreditei que compreendessem sem que lhes falasse).
E que decifrassem a mentira de minha face
Mas só distante vi que são turvas as luzes da cidade
24 Desventurança
Eu quis erguer um castelo, honrar teu nome da forma mais intensa
Meus reinos foram teus, os mais belos jardins vislumbrei por ti
E tudo arruinou-se, temeroso engano, temor ingrato!
A maldição do amor, violenta dor: o que restou da verdade derradeira
Para punir-me, não pelo que não fiz, mas pelo que não tive
Imponderada escolha: lançar mão de um canto de aflição tremenda
Desventurança, infortúnio a que meu coração se ateve
Comprometeste a composição mais tenra, a meiga lírica
A poesia mais serena, aquela a qual o verso não se atreve
Saudade triste, infeliz esta lágrima sem vida
Feriu-me de morte para calar meu canto, silenciar meu verso
Quando traíste as promessas que fizeste
Que esta dor perdure e atravesse meu peito em intensa fúria
Será a última vez que derramarei sangue como lágrimas
Eis o dia em que os sonhos se perderão para sempre
25 Auto-exílio
A tristeza já me toma às portas do cárcere
Cativeiro frio, o exílio por mim mesmo imposto
A vergonha de ter revelado um rosto derrotado
Dúvidas quanto ao que já tive, a certeza de tudo que perdi
O degredo não se basta da insalubridade por castigo
A companhia dos insetos, ratos e da leptospirose
O passado, o mal e a maldade, a lembrança
Tantos companheiros cancerosos, um só motivo para a fuga
Aproxima-se o inverno, aflige-se o coração
Tanto me fere, tanto quero acreditar e não posso
Sonhos ariscos, devaneios incrédulos de si mesmos
A estigma da chaga, sua dor mais funda
O delírio, a febre, insana companheira
O punhal se ergue redentor em ultraje desafio
Úteros inférteis, deformidades em nossas almas vis
Que destes cantos se lançarão sobre a cidade
Permito-me o desespero e a desonra, filhos viris
Os dons já se perderam no limite do erro
O cotidiano, os gemidos, o lamento ou a poesia
Amargura e medo, ou o que mais nos permitir a dor
26 Luzes da cidade
Minha alma voa sobre as ruínas da cidade
Tentando entender a razão de seu fracasso
Tentando compreender até que ponto faço parte disso
Meus sonhos pairam sobre suas luzes
Posso vê-los e no entanto me parecem tão distantes
É assombrante como brilham intensamente
É difícil crer que faziam parte de mim
Difícil acreditar que me faziam melhor
Das luzes que brilharam estes dias, guardei-as comigo
Para lembrá-las em noites de luar intenso
Tê-las, o único meio de guardá-las
Para enfim ter um motivo de perdê-las
27 Versos de ira
O vento frio do inverno revolve a poeira espessa do engano
Revelam lembranças que sob os auspícios do tempo se mostram ainda presentes
Como a mentira que enterrou sentimentos ingênuos e esperanças puras
Não mais que almas nuas, prisioneiras inconseqüentes de si mesmas
Toda uma geração perdida, versos que se inspiraram e se perderam
Sorrisos magoados, molhados por olhares que também sorriam
E que hoje já não dizem nada, antes precedem palavras vazias de ira
De lábios que decantaram o inverno para serem traídos para sempre
As formas das bandeirolas das barracas, o colorido dos grafites dos parques
Tantos odores inebriantes, um único torpor pela fortuna que surgia
Palavras que queriam dizer muito, olhares sinceros que não representaram nada
Como promessas de flores que antes da primavera se frustraram perdidas
Os versos de mágoa, a poesia que se fez contundente e fria
Gritos de liberdade por um coração que jaz despedaçado
Esmagado entre os formidáveis gigantes da paixão e da perda
Acompanhados pelo medo e a revolta, seus companheiros ingratos
Revivam este passado e libertem minha alma encarcerada
Reverenciem seu filho, órfão desde cedo destes encantos
Desesperançados habitantes de angustiante desabrigo e dor
Foi o preço de deliciar-me em suas cores, cores que o inverno desbotou
28 Lamentos
Talvez ela nunca saiba que eu a amei
Talvez eu nunca a tenha amado de fato
Mas o que senti foi suficiente para consagrá-la
Para honrar sua lembrança com a dor de perdê-la
Talvez eu viesse um dia a possuí-la
Mas por quanto tempo teríamos sido um do outro?
Hoje eu sei que meu coração lhe pertence eternamente
Pelo mero fato de nunca ter sido minha
Os casais que caminham de mãos dadas
E aqueles que namoram sentados nas praças
Nunca fomos um deles, nunca estivemos ali
E hoje é certo que jamais estaremos
29 De volta à estrada velha da saudade
De volta à estrada velha da saudade
Árvores cresceram às suas margens espinhosas
Com lindas flores, com folhas vistosas
Olhares que se lançaram sobre a paisagem ainda estão lá
Se perderam pelas praias, amarguraram os pastos
Tingiram com cores melancólicas este asfalto
Sobre o corpo há cicatrizes e cada marca dói
Sugerem à alma uma ferida aberta
Vim curá-la, libertar-me da chaga qu’inda resta
Vim colher os pedaços que ficaram
E lentamente percorro este asfalto
De pés descalços, de passo forte
30
As ondas lá fora perguntam por teu nome e não sei o que dizer
A poesia busca o significado do teu sorriso, mas não há resposta
Os pássaros já se recolhem, finda a alegria deste dia
É noite, evidencia-se a falta do que nunca tive
Eu espero pelo que não vem: tu não te sentas ao meu lado
Já não te toco e certo de que nunca toquei não mais espero
A mesa não é tão vazia quando a desesperança ocupa teu lugar
Indesejável companheira! Ingrata hora do descanso solitário
Ainda te procuro por corredores onde sei que não caminhas
Jaz meu sorriso em uma daquelas salas onde estavas
Teu silêncio o quebrou e não o procuro porque partiste
Só restou uma mágoa que mesmo de sonhos é carente
Agora derramas sozinha as lágrimas que quis derramar por ti
Quisera que elas jamais existissem, senão em poemas meus
Que decantassem sonhos que havia em olhos que não mais vejo
Olhos que inconseqüentes juraram mentiras sem saber
31
Abri novamente meus olhos a verdade
E não há mais como fechá-los
Pois há promiscuidade em fazê-lo
Apesar de tolerar as lágrimas
Fecho a porta do quarto
E tento calar os gritos do destino
Deixar a solidão pedir respostas
E contentar-me com o silêncio
Sinto o frio ácido deste gosto
E revivo as recordações com tristeza
Para me esquecer do passado
No esforço de esquecer a dor
Busco a simplicidade das histórias
Com o sublime poder de quem as sabe
Sem fazer questão de saber
Muito mais do que devia
32 As mulheres que beijaram meus lábios
As mulheres que beijaram meus lábios hoje choram
Enquanto os mendigos compartilham de minha poesia
Pois não há como falar de amor àqueles que choram
São estranhos ao sonho aqueles que tem fome
As mulheres que beijaram meus lábios hoje choram
Trocaram sem saber o sorriso pela intensa mágoa
Sonhos desesperançados: a verdade não redime
Já a mentira, esta sim consola e conforta
As mulheres que beijaram meus lábios hoje choram
Infortunados corações que me amaram
Quisera compreendessem meu silêncio, decifrassem minha dor
Pedido que nunca lhes fiz para que pudessem ser felizes
As mulheres que beijaram meus lábios hoje choram
Eu choro por elas e pelos meninos que tem fome
Pela maldição dos homens e das almas que ainda não partiram
Eu choro por mim, e pelas noites que ainda estão por vir
33 Prostitutas
Quanto custa sua alma?
Qual o preço do seu corpo?
Estou disposto a pagar pouco
Pago pouco e barato pelos dois
34 As luzes de mercúrio
São as luzes de mercúrio estas estrelas
De naus que não mais navegam
Que já não me tem como senhor
Que nunca tiveram
Tantas estrelas
Tantas milhas de asfalto frio
Estamos sozinho
E nossas almas de igual maneira
Não mais se vê o impenetrável
Resta o introspectivo de olhar vazio
Com as mesmas perguntas sem respostas
Que hoje eu já nem preciso
Espero em madrugadas frias
Com um coração sereno amanhecido
Entre saudades por um passado esquecido
Com mágoas do que ainda é lembrado
35 As chaminés da usina
Os homens que atravessam a serra desconhecem o que esconde seu vale
Passam desapercebidos por mistérios que as montanhas calam em segredo
Lá existe um coração forjado no aço quente da usina
Os pais de seus pais sentiram o calor dessas fornalhas
E a vida inteira a fuligem de chaminés que incomodam maus pulmões
Mas quem se lembrará? Quem saberá do córrego e dos jardins?
Suas águas suaves passarão e talvez ainda estejam lá
Mas não a florir, ou não como floriam em meus sonhos
Entre o carinho de abraços sinceros e sorrisos que não mais vejo
Desorientados pelo medo que assola os corações ariscos
Aprisionado à coqueria, meu coração ainda bate
Ainda é vivo, como a cidade e a chama que a rege
Onde queima um sonho, entre gases tóxicos e saudade
Iluminando a noite e lembrando a cada dia a promessa
Que perante o fogo se deu e enquanto ele arder existirá
36 O centro da cidade
O concreto dos prédios do subúrbio
E o asfalto do centro da cidade
Mesmo se fossem de flores não saberiam
Ainda que fossem de carne não teriam respostas
Meu rosto imberbe, densamente maquilado
A cidade não sabe o quanto aqui se esconde
De medo e frustração, de dor e revolta
Sob a máscara espessa e sociável de um sorriso
37 O estouro da boiada
A cidade deserta, com passos que deixaram marcas
Como uma manada que rompe a linha da porteira
Parti, a cidade já não era minha, talvez nunca tenha sido
Hoje sei que a nada pertencia, que não tive a ninguém e a tudo perdi
Ah, o estouro da boiada! Que sua fúria atravesse as matas
Os pastos devastados já não representam nada
E onde há flores? Para onde se foi a ternura que havia,
O sonho que houvera e a esperança que não quer surgir
38 Livros que ainda estão por ler
Muitos livros ainda estão por ler
E quantas páginas ainda não foram escritas
Suas palavras perdidas entre preces e orações
Que escondem sentimentos devastadores
Palavras, e o desejo de dizer o que o coração esconde
O anseio dos versos e seus amantes
Bem o sabem os poemas, bem o sabem os romances
E as almas entristecidas pela dor da perda;
39 Lembranças
Lembro dos jardins, das flores e das paisagens
Lembro suas cores, o colorido da esperança e das águas
De olhos e olhares repletos de expectativas e seus sonhos
Mas como sonhadores recordam os sonhos mais remotos
Lembro de promessas e mentiras, lembro da maldade
Lembro o gosto de palavras que não disse e seu incomodo
Palavras de mágoa que acompanhavam lágrimas e não raro dor
Para se unirem a lembranças que amarguraram meu passado
Eu lembro das lambretas, das ostras e dos mariscos
Do lavradio, da ilha, da bela ilha e das praias
Lembro como os homens já não são capazes de recordar
Lembro com saudade e como não gostaria de lembrar
40 Mãos pequenas, pequenos pés
Mãos pequenas, pequenos pés, corações infames
Prisioneiros pacatos de um corpo doentio
Atormentado por um passado e dominado por vícios
Pequeno coração, infame corpo que perpetua o mal
Coração ferido, carente de carícias, carente de sentidos
Envolto a enganos, fraco e suscetível a maldade
Compomos canções, mas não nos libertamos de nossa dor
Nos rendemos a nossos vícios, fomos escravos de desejos
Como servos submissos se rendem a vaidades
Mas o inferno se fez a terra e escolheu para si os melhores
Estamos entre eles: inflija suas penas, podemos vencê-las
E a tudo que não destrua o que é selvagem
Corações infames, pequenos pés, mãos pequenas
Que ousaram tocar o que não devia ser tocado
Como os heróis ousam sonhos que os homens desconhecem
41 Descompasso
Parti, longas milhas vaguei
Para ferir meu coração ao longe
Infortunada busca de intento aos versos
E lacrimejante os trago, tapeados em mágoas
Tomo do ferro, mas do que me vale?
Se o sangue e o punhal não me libertam
Se sua proposta nem a dor encerra
E tão incerta é a voz dessa amizade
O leito velado por lamentos de poetas
Profetas, que vislumbram o desacerto das idéias
Sentidos dos aflitos e seus iguais
Em desventura, em pesar e em poesia
Não é uma filha a inspiração a que procuras
Um desacerto, um desafeto entre os convivas
Que tão logo te punirá quando consiga
E em dores talvez permita algum relato
42 Maldições
Hoje os senhores do mal riem de minha ruína
Tenho o medo que os alimenta, sou frio perante sua maldade
E minha desgraça é acompanhada de perto sob o escárnio
Destas criaturas que se comprazem do sofrimento alheio
Que alma desgraçada é esta e qual meu crime?
Conheço a maldição e a abomino, abomino esta alma
Que trouxe consigo versos e o sentimento impetuoso
Sem pedir permissão de afligir com agonia meu corpo
Se for o preço dos pecados, eu posso pagá-lo
Mas qual deles me cobram nesta noite infeliz?
O mal me atormenta e eu me prostro, permito-me a dor
Que viola meu corpo e convulsiona minha alma
Quisera as lágrimas este peito aliviasse
Quisera a morte todo erro redimisse
Mas lhes bastam a dor e ao sonho a ruína,
O fim da esperança e a realização de todos os temores
43 A hora profunda
Esta é a hora maldita entre a dor e o sonho
Entre o lamento e o suspiro, a aflição e o alívio
O instante em que me perdi e caí derrotado
Quando me recolhi sozinho e chorei
A hora que se estendeu para ferir e feriu
Esta é a hora a que todas as outras estão fadadas
Entre o sono e o cansaço, a hora profunda
Em que se formam os sonhos, em que se formam as nuvens
E os ventos, e as brisas que ventilam a América
E inspiram a poesia e a composição sincera
Mas espero a hora sagrada entre o despertar e o alvorecer
A hora que precede o sonhar, entre o sorriso e o sorrir
Uma hora passageira de encanto, um instante fugaz
Que justifica as horas que já se foram e as que estão por vir
E todas as outras que não vieram e que não virão
44 Entretantos
Os pormenores do teu rosto intentam fugir-me a memória
Temo esta fuga, perder o pouco que de ti me resta
O vazio que a saudade não preenche e a frustração comigo
Já não te toco, mas certo que um dia toquei ainda insisto
Ao recordar o sentir do teu calor que me foi tão precioso
No encontro do teu corpo com a extensão maior de meu carinho
Nem só lembranças: em tua janela um vulto meu olhar carrega
E meu pensar se perde pela cidade em tua busca ainda
Por esquinas ingratas que não trazem respostas, que não te mostram
Já não vejo a cor de teus cabelos que em outros cabelos vejo
Mas sei da cor, tão pouca cor, que em outros corpos toco
E revivem a noite que foi tão breve e passageira ao teu lado
Alguns sabores a boca, o vermelho da maçã aos lábios
O doce sabor do beijo, suave e delicado e ainda sentido
Como um vício, insano delírio nunca saciado
São estes os ardis que um dia me enganaram!
Os sonhos que não quero ao acaso ver perdidos
Desejos que anseio realizados, promessas que quero ver cumpridas
45 Amigo íntimo
Não vês como me fere e te machucas
Eu sinto, eu me divirto e choro
E lamento quanto entendo tua busca
Que como nunca em desejos vai embora
Não me ouves, não me queres, então me calo
Calado eu adormeço e em teu silêncio escuto
O grito mudo, o sonho que escondes e não sacias
Então me vejo, então me alegro e cresço ainda
Eu sou contigo, amigo, eu conheço e sei
Eu soube antes que quisesses, antes que pensasses
Antes mesmo da falta que te fiz eu vim
Eu estava aqui a esperar por ti e ainda estou
46 Não ouse tocar meu corpo
Não ouse tocar meu corpo
Você já não pode tocá-lo
Porque me banhei em lágrimas e rosas
E lavei minha alma em suor e sangue
E já não posso ser tocado
Por almas que detenham pecados
E mãos inconseqüentes que tragam consigo a dor
47 Não sei se gosto...
Oh, incauto! Que caminho ingrato! E não sei se gosto...
Mais uma vez deixou-se arrebatar-se por encantos
E as formas ásperas de teu mundo se tornaram suaves
E os ruídos se harmonizaram para comporem melodias
E junto à luz e ao sonho coloriram o que era desacerto
Mas isso por vezes machuca e eu sei o quanto dói
Em desconforto eu habito teu peito na companhia desta mágoa
E tão incomodo me parece isso que nos une
Que fascina e aquece, que aos lábios traz sabor
Em doloroso prazer, em prazerosa dor, e não sei se gosto...
É ter flores num caminho com tanta cor e brilho
É primavera nesse mundo novo celebrando uma verdade nova
A mais bela das estações nunca antes vista, bela e passageira
Como é breve a alegria pela gestação do natimorto
Uma dor da qual conheço o gosto, mas não sei se gosto
48 Mais uma vez
Mais uma vez e quantas vezes mais serão?
Minha ingênua pretensão, meu sonho ingênuo!
Acreditei como acreditam aqueles que sonham
Como ousam sonhar aqueles que amam
Que amam sem precisar serem amados
Mais uma vez e quantas vezes mais serão?
Que sejam e que venham como quiserem
Pois meus pés por si só buscam este caminho
E se constrangem de serem desviados
Porque eu ainda quero, porque eu preciso
49 Dedicatória
Hei de proteger o manto branco que te cobre
E honrar por todo o sempre teu nome
Minha deusa, minha rainha, minha princesa
Eu sou teu filho, teu servo, o apaixonado que te ama
E o seria, ainda que não estivesses ao meu lado
Nos passageiros sonhos que à noite me distraem a dor
50 Paraguaçu
Por que não me falaram, por que não me disseram?
Acreditei que entenderia se eles me explicassem
Mas eles se calaram e contrariado me calei
Sem respostas a coisas sem sentido, a perguntas que não sei
Tantas cartas sem respostas e ainda espero pelo que não vem
Hoje choro e, como eles, calo, como poetas que um dia desistiram
Que se renderam e caíram, que se deixaram vencer
Dominados por demônios e por uma verdade que também é minha
Se foram as rimas e as canções que foram minhas não mais são
Roubou-me-as o vento, roubou-me-as o tempo e o destino
Ingratos amigos, indesejados convivas que se vão
E levam consigo o que não tenho, o que tentei acreditar e não pude
O pouco que me resta é esta esperança sem sentido
Sou seu filho, desnutrido e fraco, um natimorto sepultado
E ainda acredito na infame tolice de insistir na vida
De confiar no sonho e num morrer que venha antes de estar morto
Quantos dias vividos sem motivo! Eu tive frio e duvidei da vida
Eu tive medo e desisti do sonho, eu me feri e me senti sozinho
Resta-nos celebrarmos estas perdas com lamentos por cartas que não lemos
Por canções que não fizemos e declarações de amor que ficamos por dizer
51
Eu voltei, mas onde estivemos? Onde estive que não me lembro?
Tantas partes de mim espalhadas por lugares que não me pertencem
E o desejo de percorrer novos caminhos em busca de coisas que não sei
Eu fui distante em busca destas verdades, eu fui sem medo
Percorri as ruas do centro da cidade e conheci o frio de seus prédios
Segui estradas, conheci as montanhas e seus vales, encontrei os campos
Quantos mistérios descobri! Desvendei segredos, mas nem tudo foi verdade
Era a alma triste da cidade que perseguia um coração magoado e ainda meu
Que mais chorava e em mais dor ardia pela negra verdade revelada
Eu conheci os homens e suas leis e perante elas me curvei
Diante de seus juízes e seus reis, pois era fraco e da fraqueza escravo
Tanto quanto amigo, como todos aqueles que curvados me seguiam
Conheci altares, a beleza e o que é belo, conheci mentiras
Qual deles me tomou como senhor? Quantos deles um dia me serviram?
Não há respostas, eu fui tão longe para ver aquilo que sabia
As máscaras e as mentiras, não era minha a verdade que eu ouvia
Tantos homens calados, a maquiagem espessa de um palhaço
Não mais as quero, vou voltar aonde tenho as verdades que são minhas
Não mais canto entre aqueles que se calam, tomo o mausoléu por lar
E a lápide rege o leito que me acolhe, num velório a lamentar por nós
Pois acredito no que o homem abomina, guardo o que não se guarda mais
52 Avise se você for me fazer chorar
Avise se você for me fazer chora
E eu guardarei minhas lágrimas
Para derramá-las unicamente por ti
E meu medo para este que se aproxima
E minha angústia para o que o sucederá
Avise se você for me fazer chorar
Porque eu me esconderei para chorar sozinho
E com ninguém compartilhar a mágoa
Com que vou alimentar meus versos
E tapear as noites, e adentrar as madrugadas
Avise se você for me fazer chorar
Para que eu prepare meu coração
Para um instante solene de dor
Eternizado pelo intenso sofrimento
Que me acompanhará em cada novo amor
Avise se você for me fazer chorar
Para que a meu corpo todo eu antecipe
E ao sentimento eu explique o que ocorre,
O mesmo tantas vezes repetido
A que me entrego indiferente e calmo
Avise se você for me fazer chorar
Para que eu saiba o que lhe dizer no instante
Para que eu te abrace sem molhar sua roupa
Para que eu me despeça sem causar-lhe pena
Para que eu parta se morrer um pouco.
53 O caminho dos barcos
Os barcos que aportaram a marina
Conheciam o momento da partida
Conheciam os mares e as brisas
Conheciam os ventos que se vão
Suor e lágrimas se unem ao orvalho
Sagrados sabores em deliciosos lábios
Cantos de pássaros, brisas vespertinas
São as lembranças do que tive um dia
Sim, eu semeei os campos e, veja:
Seguem as boiadas e os pastores
Segue o suave aroma das flores
Seguem as naus que dos portos partiram
Trens se foram e aviões também irão
Os sonhos vêm e vão, são lamentos distintos:
Eles conheciam o momento da partida
E não me falaram desta solidão!
Ah! Tripulantes de força, bravos, aguerridos
Homens que levam consigo a saudade
Deixam o vazio de um porto abandonado
Deixam a mágoa por tudo que perdi
Restaram-me olhares desconsolados e pesares
Por pássaros jovens e saudáveis a seguir viagem
Enquanto eu, o pássaro velho e adoecido
Para chorar sozinho ao ninho se recolhe
54
Mulher que eu toquei para amar, que pensei minha e que perdi
Caminhava pelas ruas de luzes turvas atordoado
A buscar ao longe aquilo que não via, o que desejo
A imagem do corcel resplandecente que foi teu nome
A cavalgar pelos campos e campinas que foram minha alma
Sou eu nestas madrugadas frias à tua lembrança cobiçada
Entre rios de escárnio dos corações vazios que não entendem
O incrédulo receio de não ser verdade um sonho intenso
Da alma arisca que deseja mesmo aquilo o que teme
As promessas de um sonho que ainda anseia ser cumprido
Mas eu me perdi, foi solitário que caí, foi sozinho que adormeci ferido
Para saudar teu nome com lágrimas e tua lembrança com intensa dor
De perder-me dos sonhos passageiros, das vespertinas chuvas de verão
Do engano doce que iludiu meus lábios para amargurá-los
E ensiná-los o que da vida é alegria e o significado terrível de perdê-la
A madrugada é de fato fria e ao meu lado há frio e solidão
Essas duas irmãs que me beijam, essas duas serpentes que me traem
O órfão de um destino prometido, o bastardo de um mundo de aflição
Quero o filho ingrato desta vida como amigo, suas cantigas e canções
E esquecer a dor que foi teu nome, e recordar os sabores que se vão
55
Em ti eu morri três vezes
Mas valeu a pena ter morrido um pouco
Para que você vivesse mais
Então guarde contigo o que de mim tu levas
Faça valer a pena minha dádiva
Dê algum sentido ao sacrifício que te oferto
Eu morri três vezes por ousar amá-la
E por três vezes com lágrimas rendi-lhe homenagens
Que transformaram em jazigo o leito que foi nosso
E em mausoléu o que outrora fora um lar
Sim, eu me feri, eu me machuquei e chorei,
Eu morri três vezes por amá-la
E morreria trezentas vezes se preciso
Para tê-la novamente entre meus braços
Para uma vez mais sabê-la minha
56 Poetas
Não há nada mais triste que o coração de um poeta
Não há nada mais doce
Pois quem decantará sua própria dor
E lamentará como se cantasse
Dedicando o silêncio vazio de sua solidão
À imensidão cansada de sua saudade.
57
Há algo mais ingênuo que a pureza? E haverá algo mais puro que o amor?
Neles a certeza do que é perda, mas contentamento pelo pouco que de ti ficou
Porque preciso de algo que seja teu a compor as formas de meu peito dilacerado
Por me sentir sozinho como esqueci que posso, aos limites que a saudade se permite
Que armadilha deliciosa foi teu nome, onde o destino veio manifestar caprichos
Fazendo-me sorrir tendo em lágrimas os olhos, e chorar tendo o coração repleto
Eu tive a alegria de honrar-te como um servo e de servir-te como um escravo
Que chora em tristeza por se ver liberto sabendo o fim de sua prisão apreciada
Mas deste delírio que foi teu nome trago o gosto auspicioso de teu beijo à boca,
À memória a lembrança dolorosa de tua partida, à pele o toque de tua carinhosa mão
Como quem decanta sua própria dor, quem lamenta com tristeza o que foi felicidade
Dedicando o silêncio vazio de sua solidão a imensidão cansada de sua saudade