
Igor ANATOLI
Trechos de livros e trabalhos do autor
DESACERTOS
1
Menino, agucei os sentidos na presença das flores
E abri as asas para voar ao perceber o vento
Mas o vento cessou e as flores secaram
Sou velho e estou cansado: é hora de partir
2
É primavera, desperto o coração do inverno
Saem estrelas cadentes e botões de rosa
Nas flores há vivas cores estampadas
E nos sonhos há vontade de sorrir
3
Eu vi erguerem monumentos, templos e tribunais sobre as cidades
Eu acompanhei com medo cada evolução do homem
Eu vi ruas se acinzentarem, seus corações se tornarem escravos
E nesse cotidiano infértil se perder sob lágrimas o sonho e o sorriso
Há tanta pressa por tão pouco, muito descaso a tanto cansaço e vou confuso
Por um ruído incômodo de pouca poesia, que a alguns fascina,
Mas que me mata e irrita, amarras a solidão de vidas frias
A que não tenho corpo, não caminho por ruas de loucura sem esforço
Por isso vou voar ao longe, abrir asas ao vento para entoar meu canto
Saborear os campos, deliciar-me de seus aromas e sabores
Pois quero um pouco de vida, um pouco de sonho e suas cores
Quero outras paisagens, sentir outros ares distante da cidade.
4
Estou tão inseguro quanto as certezas deste mundo
Quanto ao futuro, quanto à morte, quanto à vida
Quanto ao amor, quanto à dor, quanto à família
Mas de umas simples e poucas verdades não duvido:
Do gosto deste beijo, do doce deste vinho!
5
Sou o suicida insano que lhe quer o beijo
Dela, que chama a si tudo que é vivo
A encontro pelas ruas, mas não a tenho,
Ela me mira os olhos, mas não me toca
Filha bastarda da beleza e do que é belo
Traz em teu seio a vida após o medo
Traz a crença em tudo que queremos
Guarda a saudade daqueles que deixamos
Que côrte é pouca que não te vale, amiga?
Que sonho é grande que não o perca, ingrata?
Te quero insano entre as coisas que não tenho
E mais vivo entre aquilo que me mata/Te busco sereno quando me entendo a alma
Envolvo as mãos nas cores vivas das feridas
E lavo a alma no arder de muitas lágrimas
Que não são minhas, que não são tuas, mas as sentimos
Como sentimos a perda de tudo aquilo que passa
6
Sou um apátrida, um renegado um suicida
A procura de uma terra que seja minha
Onde compreendam minha poesia
E entendam a vontade que a faz ser dita
Estranha-me o cinza destas ruas
E o pardo dos prédios amarelados pelo tempo
O caminhar apressado das pessoas me distrai
E me distraio entre as coisas que não tenho / incomoda o olhar que não mira coisa alguma
Eles não sabem onde se perderam
Não sabem para onde caminham, nem para onde vão
Eles só sabem que não sou um deles
Que vou distante da verdade que entendem
7
Doce menina, coração entusiasmado
Sou um jovem apaixonado a cultivar jardins
Sou o sorriso que percorre o rosto amado
Sentimento arisco, por doces ardis enamorado
Meu castelo erguido entre colinas
Minha solidão banhada de saudade
Eis onde se estende meu domínio:
Em tudo que recordo tua imagem
Linda filha do florista, a mais bela flor do campo
Por altas cristas te amei chorando
Por praias vazias te pensei ser minha
Com o desejo ardente de possuir-te o canto
Chora a poesia por tua ausência aflita
Cantam os anjos louvores por teu nome
Cortejo a que me junto e que me agrada
Delírio a que me entrego, mas não me basta
8
Sou um estrangeiro em minha própria terra
Tenho vergonha dos costumes sórdidos de meu povo
Tenho nojo da juventude, de nossos líderes corruptos
E, no entanto, sou um deles, muitas vezes sim
Eu cresci no tempo em que as virtudes não existiam
E vislumbrei o tempo em que elas existirão
Mas onde estarão as coisas que não tive?
E aquilo que se perdeu e as lembranças que se vão?
Mas seguirei cantando canções de tristeza e saudade
Pois os filhos dessas emoções selvagens somos nós
Somos órfãos desconsolados e com medo
Acovardados pela força daquilo que desconhecemos
E cantarei por estas terras para fazê-las minhas
Reerguer o reinado de uma era que não mais existe
Sobre o legado herdado por um bastardo incompreendido
Um desgraçado que conhece a lenda de heróis que já partiram
9
Voltou-se a morte a cortejar meus lábios
Doce senhora que me espera o beijo
Ainda trago seu resquício ao peito
Ainda guardo seu sabor à boca
Carrego mais que as lembranças desse tempo,
A tuberculose e a doença que não veio
Nas noites insones em que busquei seu nome
Nos dias ingratos em que chorei não vê-la
Arisca donzela, arrebatadora senhora!
Por que retornas quando já não te quero?
Te busquei diversas vezes sem mirar teus olhos
Te perdi diversas vezes sem saber-te minha
Me preserve a vida, me encante os olhos
Me permita novamente enamorar-me pela vida
Desfrutar um pouco das coisas que hoje tenho
Me permita ao menos sonhar com o que não tive
10
Meus jovens, eu vos conto que já não vos amo
É noite, o dia se foi e estou cansado
Amanhecemos e eu vos amei ao meio-dia
E até ao anoitecer estive convosco, mas já não estou
Convosco provei muitos sabores, cantei cantos e cantigas
Magoei e fui magoado, chorei e fiz chorar
Repetidas vezes errei os mesmos erros e, basta:
Há outros erros por errar!
11
Trago à boca o gosto de lábios que não toquei
E sobre a pele incomodam carinhos que não tive
São as lembranças de tudo que me foi negado
E a desesperançosa possibilidade de nunca acontecer
Eis o vazio silencioso em que esperei
E quantas vezes mais esperarei
A infeliz espera pelo que não vem
A desgraçada angústia de não saber respostas
Eu ainda estou aqui, fiel a minha promessa
E a uma palavra envergonhada que não disse
Atento a cada palavra de solidão que me reserva a noite
A cada lamento inconsolado que me prepara a vida
12
Já não te tenho
E em breve, talvez, nem mais precise
Em breve, talvez, sequer me lembre
Mas ainda lembro, e choro, e sofro tua ausência
Eu retorno à cidade que tu me apresentaste
Segue sendo teu este vale, continua rica tua paisagem
Triste é tão somente o sorriso que não levo
E o lamento de meus olhos, e a solidão no que enxergo
13
Lamento o futuro em cada rua
Em cada irmão vejo a geração perdida
Homens privados da oportunidade de tentar
E lutas que não serão reconhecidas
Não, eles não terão seus nomes lembrados
São frutos sem vida de úteros inférteis
Que esperam uma liberdade que não vem,
Um túmulo, e uma lápide de inscrições vazias
14
Linda filha do florista
Vieste aos trópicos regar as flores que a natureza esquece
E eu estou contigo
Doce menina, beleza ibérica
Pouco é o que nos resta
A sublime beleza de amar sem ter cautela
O sabor do sonho
E a grandeza própria de quem ousa superar o medo
Ah, imaturos corações! (de medos repletos, de incertezas muitas)
Tudo aqui é passageiro
É passageiro o encanto, é efêmero o desejo
Mas eu estou contigo
15 Ídolos de bronze
Levantem-se ídolos de bronze
E fujam dos templos erguidos à mentira
Onde se perpetua o mal, onde reina a cobiça
E a desonra e o poder são cultuados
Não precisamos de palácios, não precisamos de justiça
Não a vil justiça, nem o engano a que chamamos lei
Precisamos do sangue de heróis que já partiram
De nobres sacrifícios, de gestos de coragem
Que pena injusta, a mudez fria do bronze
Imposta a homens de atos memoráveis
Que contemplam em silencioso lamento
Reinar a vergonha sobre a terra que deixaram
Levantai-vos, ídolos de bronze
E erguei novamente vossas espadas
Pois vossa terra carece de coragem
Carece de justiça, carece de caráter.
16
17
Pétalas caídas num jardim despedaçado
Frente a fúria avassaladora de um lobo solitário
De garras afiadas, que feriram, que rasgaram
Tudo aquilo que um dia quisera ter consigo
Mas Deus castiga os homens que não sabem amar?
Se a pena por si só é desde já não merecê-lo?
Eu também ousei amar, e mesmo sem sabê-lo
Da estranha paz dos corações vazios fui privado
Pensei que às rosas lhes bastassem cores
Mas nada vale a beleza sem o olhar admirado
Toda flor sem um cortejo é mato
Todo amor sem ter carinho é pouco
18
Ah, esse canto doce que me encanta tanto!
Canto enquanto ainda não sinto medo
Faz pensar que é eterno o que ainda tenho
Permita-me guardar pra sempre esta lembrança minha
Vem e repete bem baixinho o que me faz criança
Fala de amor, fala de saudade, fala que é pra sempre
Fala que já não pode mais ser diferente
Esse amor de carinhos muitos que me agradam tanto
Então não demora pra chegar e vem bem cedo
Chega antes da alegria do teu beijo
Quero antes da aurora abrir meus olhos
Quero antes de pensar que não te tenho
19
Eu conheci os campos e o segredo dos córregos
Conheci porteiras, os bois e as boiadas
E o amor e antes do amor, os seus sabores
E a desventura própria que os acompanha
Assim ousei fronteiras, fugi dos limites da cidade
Por não suportar os mortos que caminham
Mas entendo suas prisões, trago os grilhões que os dominam
E o desejo de quebrá-los ainda em tenra idade
Mas por que não posso? Por que retorno aonde sou cativo?
Onde alimento a falta das coisas que não tenho
Do que senti perder-se em sonhos e desejos
Que sempre insistem em partir intransigentes
20
Eis o vale da morte, miserável estepe de rios degradados
Onde o destino distraído veio guiar meus passos
Onde o tolo incauto sem saber a sorte arrisca
Onde o abnegado insano ao labor se entrega
Sobre estas terras sujas de lixo e sangue
Me entreguei sem medo ao destempero dos combates
Não por seus filhos ou por suas mães que ainda choram
Mas por mim e pela virtude que no tempo se perdia
Corações covardes, como vós amei quando em pouco acreditava
E se hoje o meu sangue oferto por esta luta inglória
É pra fazê-lo correr por algo que o valha
É para vê-lo colorir o que é sem cor e sem vida
E aos desgraçados a quem rendo o sacrifício
Se de tudo que lhes oferto é pouco
Pensai que sem o pouco o que me resta é nada
É sobretudo mais do que um dia me deixaram
21
Covarde homem que trás às mãos a vingança entre carinhos
Miserável coração, temeroso da paixão que já sentira
Não escolhi meu medo e trazia inda ao peito a ira que ardia
É uma terra infértil, onde nada nasce, nada mais se cria
Caminhei assim por terras embrutecidas pela mágoa que nutria
Para molhar-me em lágrimas, não sem antes saciar-me entre feridas
Cobrar o mal que me fizeram, impor a mim outra dor que me ferisse
Remediar glórias do passado, merecer penas que me esperam ainda
22 Reikjavic
Não importa onde, mas com certeza um dia
Nova York, Londres, Reikjavik
Não tardará, eu sei e você disse
Esperança nossa, alegria minha
23 Hoje é o dia
Hoje é o dia
Sorrimos e choramos a sua espera
E ele é chegado
Muitas promessas fizemos até aqui
E quantas promessas ele hoje nos faz!
24 Eis o momento
Este sim é o momento
A que todas as horas ambicionaram
E dirigiram esforços, e conspiraram
Para juntas construírem este agora
25
Mas um convidado que se vai
Ainda não é noite, mas alguns já partiram
Nos lembrando que não há hora certa para ir
Então mais uma vez retornamos
A este mesmo jardim de onde nos despedimos
Daqueles que não deveriam partir
Mas de nada importa onde estamos
Caem as flores e o canto dos pássaros os ventos levarão
Essa é a única certeza que guardamos
26 Beduínos
Esconde-se entre dunas de areias inférteis a mais odiada cabana do deserto
Eis meu abrigo, o recinto frio onde foragido me recolho aos versos
Onde delicio o gosto amargo do degredo, a humilhação de saber-me desonrado
Ao trair juramentos e amigos, seduzido pelos envolventes prazeres do pecado
Sou hoje um renegado, que dentre os próprios renegados foi banido
Dos mercenários que infectam o deserto, da horda que me acolhera como filho
Pois eu os traí, traí seus deveres: a proteção ao mais vil dos beduínos
E sua preciosa jóia, que em segredo como escrava a escondia
Sim, eu te furtei, ganancioso beduíno, como tantas vezes tu fizeste
Com riquezas da Magreb, com desgraçadas famílias da Ibéria
Mestre da infame caravana, ousaste medir a pureza pela prata
Enquanto o cobre, por pouco que fosse, o teu valor excederia
Desde então deu-se o exílio, me fiz chacal entre dunas escondido
Desonrado, a espada que trago às mãos desmerecida
Meu nome ultrajado, o preço que paguei por possuí-la
Linda menina, olhos de rubi: tudo eu abandonei por ti, e tudo eu faria novamente!
27
É inverno no coração do homem e muitas estrelas já não brilham
Há desejos frustrados, ainda não cansados de tentar
Insistem em florir flores que secaram, insistem em sorrir
Homens ocupados, de tarefas muitas, de sonhos distintos
Caminhei por trilhos que já foram pares a cantar
E a tarde assim se vai, vem a noite e estarei aqui ainda
Como sempre estive, como sempre pensei que poderíamos
Nobres amigos, companheiros de sonhos infinitos
Cresce a cidade e há concreto de onde pássaros partiram
Seus ninhos restam desconsolados e choram seus filhos
Enquanto durmo neste leito de penas umedecidas e rancor
Aguardando um frio, mais vazio que o inverno que ficou
28 Dedicatória
Dez anos se passaram
E a mulher que um dia amei ainda é jovem
Ainda é bela, ainda é doce e ainda a quero
Mas jaz meu coração equivocado pelos bares
Já não escreve os versos que a merecem Já não lhe escrevo os versos que merece
Já não merece /ço a inspiração de outros amores
Mas sigo fiel a minha promessa, no entanto,
E cada página deste livro guarda esta verdade
Que jurei levar comigo, aonde quer que eu fosse
29
Linda rosa de caprichos muitos
Ë teu direito todos eles saciados
Foi meu desejo a todos atendê-los
E minha vergonha não tê-los compreendido
30 Carnavais
Sonhos quiseram ser unidos, mas não foram
Sucumbiram a prazeres que se expiram numa noite
Que inspiram e fascinam, sem significarem nada
Mas que estranho delírio, que fascínio sórdido!
Por quais caminhos enveredamos por segui-los?
Para ousar jogos que desconhecemos, que não precisamos
Veja a que enganos nos atemos sem sentido
Para o desejo mais sincero fazer-nos fracos
E ao instante que nos uniu denominarmos erro
Foram estas as escolhas que fizemos
Eis aonde o orgulho nos levou:
Nos feriu e nos magoou, sem lucrarmos nada!
31 Coveiros
Quanta dor após a última despedida
Nesta terra repartida entre silêncio e mármore
Velada pelo arder de velas e saudade
Reforçando a certeza, a última certeza que virá
Coveiros, homens fortes e sem medo
Que a cada dia enfrentam aquilo que tememos,
Sabem que ainda hoje voltaremos aqui
Para cobrar-lhes um último trabalho
Segue o cortejo lastimoso de famílias
Entre flores habituadas a consolar seu choro
Flores melancólicas que, assim como nós,
Também esperam pacientemente pelo fim
Descansa, então, amigo, que ainda hoje estarei contigo
Eles compreendem, eles estavam aqui e viram
Mas nada dizem, não que o precisem, mas eu sinto e sei
Porque sou homem, mas já fui perda e serei saudade
32 Ledo Engano
Entendo o jovem que na noite busca sonhos
Mas lamento pela menina que procura amor
Ambos incorrem no mesmo erro
De buscar às sombras o que nos dias lhes escapa
Como vós, em meio a fumaça e luzes de néon,
Me perdi sob estrelas, entorpecido
Por drogas e sonhos, por álcool e mentiras
Alimentando uma verdade que não quero minha
Eis o delírio que não mais preciso, que já nem suporto
Mas enveredo por estes enganos a desfrutar de um vício
Tão vazio quanto o tênue limite que me escapa
Entre o incerto vai e vem de copos e gemidos
33
Chaga aberta que não cicatriza de forma alguma
Vazio que quer ser preenchido, mas não pode
Tudo que resta aqui é uma ausência desconfortável
Ausência que você deixou e que ocupa quase tudo
Fecho as janelas desse salão ornamentado que é meu peito
E nesse vazio ergo as imagens do que desejo e não possuo,
Dos delírios e lágrimas que me permito envergonhado e desditoso
Resignado com o pouco que posso acreditar e que me mata
Ah, esse salão vazio! É pouca a oferta de dedicar-lhe a vida?
Eu ergo um altar em teu nome onde deposito flores e sorrisos
Flores que hoje nascem mortas, mas lhes concedo meu suor ainda,
Minhas lágrimas, a solidão e mesmo o amor que me iluminar um dia
Chaga aberta que não cicatriza de forma alguma
Vazio que quer ser preenchido, mas não pode
Tudo que resta aqui é um a ausência desconfortável
Ausência que você deixou e que ocupa quase tudo
Fecho as janelas desse salão ornado que é meu peito
E nesse vazio ergo diferentes imagens do que desejo
De delírios e lágrimas que me permito envergonhado ainda
Resignado com o pouco que posso acreditar sem ser verdade
Ah, esse salão vazio! É pouca a oferta de dedicar-lhe a vida?
Eis o altar em teu nome onde deposito flores e sorrisos
Rosas que nasceram mortas, mas lhes dedico meu suor ainda
Estas lágrimas, minha solidão e todo amor que me iluminar um dia.
34
A cicatriz que traz aos lábios: a certeza de ver um anjo
Porque os imortais entre os que caminham não se ferem
E a dor que os perturba não deixa marcas em seu rosto
Caprichoso destino! Quis privar-nos da perfeição das formas
Escondida, hoje a rosa traz ao seio uma pétala partida
Que em nada compromete sua beleza, que em nada prejudica
- Não te envergonhas do divino traço que te faz rainha
O sol brilha mesmo à rosa de pétalas partidas
Menos pela beleza de seus traços, mas pelos sonhos que irradia
35 Minas
Como é bom no frio dormir aquecido
Passei por Três Rios, subi por Minas, voltei a Passa Três
E não lembro por quantas serras já passei
Por campos e matas, por feiras e estradas
Passei por porteiras, por bois e por boiadas
Lembrei do passado, de sonhos vividos
De dores sofridas e de histórias de amor
36
Quanto carinho tive? Quanto carinho tenho?
E do amor, de fato, quanto restará
Escondido sob este imenso mar
Sob um mar de vergonha e um tanto de dor
Um tanto incomensurável de dor
Tenho tua lembrança aqui entre rosas
Em um pequeno altar erguido no vazio do meu peito
Mas lá fora impera uma imensidão de tristeza e saudade
Entre as últimas lembranças que restaram
Do legado formidável do seu nome
37 Verdades
O sol busca consolo ao fim de cada dia
Leva consigo algumas poucas verdades
Verdades que duram bem pouco
Permito-me
Busco no vinho algumas verdades que acredito
E as torno minhas
Mas tão logo a aurora, intransigente Senhora,
Esta Dama que a tudo desconstrói,
Revelará as verdades em que os homens acreditam
Os homens e as crianças que a tudo temem
Constroem suas próprias verdades
Acreditam naquilo que querem
Mas o que sabemos?
Além daquele horizonte está a única verdade em que creio
Mas virá um dia com um amanhecido céu já sem estrelas
Mas eles acreditam que sabem,que entendem
Que conhecem o mar, que conhecem o lavradio
Ou mesmo aquilo que houve em meu coração um dia
Agora sinto que pouco sei das coisas que pensava que sabia
Tão pouco sei e a cada dia menos
E hoje isso não é nem bom nem mal
38 Salões vazios
A quem pertence este salão?
Seu colorido hoje não diz muito
Mas quantas vezes disse tanto!
Não se escapam sorrisos de meus lábios
Não carregam mais sentido meus olhares
Já não há mais sonho
Sou pequeno e volto a ser humano
No pouco espaço que a natureza me permite,
Que me restou quando se foi a poesia
39 Poeta
Sou poeta, sim, de sentimentos muitos
E amo a cada flor que me rasgou o peito
Amo minhas dores, meus amores, meus lamentos
E o que mais me permitir o verso
40 Não posso sorrir
Já não posso sorrir
O pássaro adoecido não voa
E a árvore seca não consegue florir
Mas ainda tenho forças p`ra cantar
Canções que há muito estavam guardadas
E que precisarei cantar novamente
Canções de amargura, de tristeza, de saudade
Convivas à mesa dos bares
Amigas que nunca me deixaram
41 Um breve momento
Um breve momento antes do torpor do adormecer
Muito similar ao que há entre a consciência e o despertar
Um efêmero instante que o ser humano não sabe precisar
Quando os oceanos não são tão vastos
E os sonhos, não tão difíceis
Ali sei que estamos juntos, todos os dias sim
42 É teu este salão
Canta e delira, é teu esse salão
E nele ninguém dança como tu
Como o pássaro que há pouco aprendera a voar
Que delira com o vento que perpassa suas asas
Que saboreia a envolvente tempestade de amar
É teu esse salão, mas tantas outras mãos querem dançar!
(Mas não dançam como tu, jamais dançarão!)
Jamais se envolverão nas asas incandescentes com que sabes voar
Sim, sem dúvida é teu esse salão
Mas o que faço aqui sem a permissão do teu sorrir?
Terra sem dono, sendero de ilusões
Já não danço as músicas que te encantam
As que sabes cantar, as que me embalam o peito
Peito que me mata e sangra quando se apaga este salão
Peito rico de saudades, delicado presente que te oferto envergonhado
43 Vou tentar
Vou tentar não te amar mais que a mim mesmo
Nem fazer promessas, nem juras apaixonadas
Tentarei ser civilizado, comedido, comportado
E por limites a sentimentos sobrehumanos
Tentarei lutar contra impulsos loucos
De um coração que quer dar mais do que tem
De um amor que quer amar mais do que pode
Que se crê eterno, infinito e poderoso
Tentarei pensar que não és uma rainha
E que teus defeitos não podem ser virtudes
Que não és única e que existem muitas
Ainda que não as conheça (queira), que jamais as veja
Prometo manter meus sentimentos sob controle
E só viver o amor moderno, gentil, civilizado
Que não assusta, que não machuca, e que seja amor
Mas não o amor a que o amor aspira ser.
DEDICATÓRIA
Dez anos se passaram
E a mulher que um dia amei ainda é jovem
Ainda é bela, ainda é doce e ainda a quero
Mas jaz meu coração equivocado pelos bares
Já não lhe escrevo os versos que merece
Já não mereço a inspiração de outros amores
Mas sigo fiel a minha promessa, no entanto,
E cada página deste livro guarda esta verdade
Que jurei levar comigo, aonde quer que eu fosse
COVEIROS
Quanta dor após a última despedida
Nesta terra repartida entre silêncio e mármore
Velada pelo arder de velas e saudade
Reforçando a certeza, a última certeza que virá
Coveiros, homens fortes e sem medo
Que a cada dia enfrentam aquilo que tememos,
Sabem que ainda hoje voltaremos aqui
Para cobrar-lhes um último trabalho
Segue o cortejo lastimoso de famílias
Entre flores habituadas a consolar seu choro
Flores melancólicas que, assim como nós,
Também esperam pacientemente pelo fim
Descansa, então, amigo, que ainda hoje estarei contigo
Eles compreendem, eles estavam aqui e viram
Mas nada dizem, não que o precisem, mas eu sinto e sei
Porque sou homem, mas já fui perda e serei saudade