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DESACERTOS

1

Menino, agucei os sentidos na presença das flores

E abri as asas para voar ao perceber o vento

Mas o vento cessou e as flores secaram

Sou velho e estou cansado: é hora de partir


 

2

É primavera, desperto o coração do inverno

Saem estrelas cadentes e botões de rosa

Nas flores há vivas cores estampadas

E nos sonhos há vontade de sorrir



 

3

Eu vi erguerem monumentos, templos e tribunais sobre as cidades

Eu acompanhei com medo cada evolução do homem

Eu vi ruas se acinzentarem, seus corações se tornarem escravos

E nesse cotidiano infértil se perder sob lágrimas o sonho e o sorriso

 

Há tanta pressa por tão pouco, muito descaso a tanto cansaço e vou confuso

Por um ruído incômodo de pouca poesia, que a alguns fascina,

Mas que me mata e irrita, amarras a solidão de vidas frias

A que não tenho corpo, não caminho por ruas de loucura sem esforço

 

Por isso vou voar ao longe, abrir asas ao vento para entoar meu canto

Saborear os campos, deliciar-me de seus aromas e sabores

Pois quero um pouco de vida, um pouco de sonho e suas cores

Quero outras paisagens, sentir outros ares distante da cidade.


 

4

Estou tão inseguro quanto as certezas deste mundo

Quanto ao futuro, quanto à morte, quanto à vida

Quanto ao amor, quanto à dor, quanto à família

Mas de umas simples e poucas verdades não duvido:

Do gosto deste beijo, do doce deste vinho!


 

5

Sou o suicida insano que lhe quer o beijo

Dela, que chama a si tudo que é vivo

A encontro pelas ruas, mas não a tenho,

Ela  me mira os olhos, mas não me toca

 

Filha bastarda da beleza e do que é belo

Traz em teu seio a vida após o medo

Traz a crença em tudo que queremos

Guarda a saudade daqueles que deixamos

 

Que côrte é pouca que não te vale, amiga?

Que sonho é grande que não o perca, ingrata?

Te quero insano entre as coisas que não tenho

E mais vivo entre  aquilo que me mata/Te busco sereno quando me entendo a alma

 

Envolvo as mãos nas cores vivas das feridas

E lavo a alma no arder de muitas lágrimas

Que não são minhas, que não são tuas, mas as sentimos

Como sentimos a perda de tudo aquilo que passa

 

6

Sou um apátrida, um renegado um suicida

A procura de uma terra que seja minha

Onde compreendam minha poesia

E entendam a vontade que a faz ser dita

 

Estranha-me o cinza destas ruas

E o pardo dos prédios amarelados pelo tempo

O caminhar apressado das pessoas me distrai

E me distraio entre as coisas que não tenho  / incomoda o olhar que não mira coisa alguma

 

Eles não sabem onde se perderam

Não sabem para onde caminham, nem para onde vão

Eles só sabem que não sou um deles

Que vou distante da verdade que entendem




 

7

Doce menina, coração entusiasmado

Sou um jovem apaixonado a cultivar jardins

Sou o sorriso que percorre o rosto amado

Sentimento arisco, por doces ardis enamorado

 

Meu castelo erguido entre colinas

Minha solidão banhada de saudade

Eis onde se estende meu domínio:

Em tudo que recordo tua imagem

 

Linda filha do florista, a mais bela flor do campo

Por altas cristas te amei chorando

Por praias vazias te pensei ser minha

Com o desejo ardente de possuir-te o canto

 

Chora a poesia por tua ausência aflita

Cantam os anjos louvores por teu nome

Cortejo a que me junto e que me agrada

Delírio a que me entrego, mas não me basta


 

8

Sou um estrangeiro em minha própria terra

Tenho vergonha dos costumes sórdidos de meu povo

Tenho nojo da juventude, de nossos líderes corruptos

E, no entanto, sou um deles, muitas vezes sim

 

Eu cresci no tempo em que as virtudes não existiam

E vislumbrei o tempo em que elas existirão

Mas onde estarão as coisas que não tive?

E aquilo que se perdeu e as lembranças que se vão?

 

Mas seguirei cantando canções de tristeza e saudade

Pois os filhos dessas emoções selvagens somos nós

Somos órfãos desconsolados e com medo

Acovardados pela força daquilo que desconhecemos

 

E cantarei por estas terras para fazê-las minhas

Reerguer o reinado de uma era que não mais existe

Sobre o legado herdado por um bastardo incompreendido

Um desgraçado que conhece a lenda de heróis que já partiram


 

9

Voltou-se a morte a cortejar meus lábios

Doce senhora que me espera o beijo

Ainda trago seu resquício ao peito

Ainda guardo seu sabor à boca

 

Carrego mais que as lembranças desse tempo,

A tuberculose e a doença que não veio

Nas noites insones em que busquei seu nome

Nos dias ingratos em que chorei não vê-la

 

Arisca donzela, arrebatadora senhora!

Por que retornas quando já não te quero?

Te busquei diversas vezes sem mirar teus olhos

Te perdi diversas vezes sem saber-te minha

 

Me preserve a vida, me encante os olhos

Me permita novamente enamorar-me pela vida

Desfrutar um pouco das coisas que hoje tenho

Me permita ao menos sonhar com o que não tive


 

10

Meus jovens, eu vos conto que já não vos amo

É noite, o dia se foi e estou cansado

Amanhecemos e eu vos amei ao meio-dia

E até ao anoitecer estive convosco, mas já não estou

 

Convosco provei muitos sabores, cantei cantos e cantigas

Magoei e fui magoado, chorei e fiz chorar

Repetidas vezes errei os mesmos erros e, basta:

Há outros erros por errar!



 

11

Trago à boca o gosto de lábios que não toquei

E sobre a pele incomodam carinhos que não tive

São as lembranças de tudo que me foi negado

E a desesperançosa possibilidade de nunca acontecer

 

Eis o vazio silencioso em que esperei

E quantas vezes mais esperarei

A infeliz espera pelo que não vem

A desgraçada angústia de não saber respostas

 

Eu ainda estou aqui, fiel a minha promessa

E a uma palavra envergonhada que não disse

Atento a cada palavra de solidão que me reserva a noite

A cada lamento inconsolado que me prepara a vida


 

12

Já não te tenho

E em breve, talvez, nem mais precise

Em breve, talvez, sequer me lembre

Mas ainda lembro, e choro, e sofro tua ausência

 

Eu retorno à cidade que tu me apresentaste

Segue sendo teu este vale, continua rica tua paisagem

Triste é tão somente o sorriso que não levo

E o lamento de meus olhos, e a solidão no que enxergo


 

13

Lamento o futuro em cada rua

Em cada irmão vejo a geração perdida

Homens privados da oportunidade de tentar

E lutas que não serão reconhecidas

 

Não, eles não terão seus nomes lembrados

São frutos sem vida de úteros inférteis

Que esperam uma liberdade que não vem,

Um túmulo, e uma lápide de inscrições vazias


 

14

Linda filha do florista

Vieste aos trópicos regar as flores que a natureza esquece

E eu estou contigo

Doce menina, beleza ibérica

 

Pouco é o que nos resta

A sublime beleza de amar sem ter cautela

O sabor do sonho

E a grandeza própria de quem ousa superar o medo

 

Ah, imaturos corações! (de medos repletos, de incertezas muitas)

Tudo aqui é passageiro

É passageiro o encanto, é efêmero o desejo

Mas eu estou contigo


 

15 Ídolos de bronze

Levantem-se ídolos de bronze

E fujam dos templos erguidos à mentira

Onde se perpetua o mal, onde reina a cobiça

E a desonra e o poder são cultuados

 

Não precisamos de palácios, não precisamos de justiça

Não a vil justiça, nem o engano a que chamamos lei

Precisamos do sangue de heróis que já partiram

De nobres sacrifícios, de gestos de coragem

 

Que pena injusta, a mudez fria do bronze

Imposta a homens de atos memoráveis

Que contemplam em silencioso lamento

Reinar a vergonha sobre a terra que deixaram

 

Levantai-vos, ídolos de bronze

E erguei novamente vossas espadas

Pois vossa terra carece de coragem

Carece de justiça, carece de caráter.


 

16




 

17

Pétalas caídas num jardim despedaçado

Frente a fúria avassaladora de um lobo solitário

De garras afiadas, que feriram, que rasgaram

Tudo aquilo que um dia quisera ter consigo

 

Mas Deus castiga os homens que não sabem amar?

Se a pena por si só é desde já não merecê-lo?

Eu também ousei amar, e mesmo sem sabê-lo

Da estranha paz dos corações vazios fui privado

 

Pensei que às rosas lhes bastassem cores

Mas nada vale a beleza sem o olhar admirado

Toda flor sem um cortejo é mato

Todo amor sem ter carinho é pouco


 

18

Ah, esse canto doce que me encanta tanto!

Canto enquanto ainda não sinto medo

Faz pensar que é eterno o que ainda tenho

Permita-me guardar pra sempre esta lembrança minha

 

Vem e repete bem baixinho o que me faz criança

Fala de amor, fala de saudade, fala que é pra sempre

Fala que já não pode mais ser diferente

Esse amor de carinhos muitos que me agradam tanto

 

Então não demora pra chegar e vem bem cedo

Chega antes da alegria do teu beijo

Quero antes da aurora abrir meus olhos

Quero antes de pensar que não te tenho


 

19

Eu conheci os campos e o segredo dos córregos

Conheci porteiras, os bois e as boiadas

E o amor e antes do amor, os seus sabores

E a desventura própria que os acompanha

 

Assim ousei fronteiras, fugi dos limites da cidade

Por não suportar os mortos que caminham

Mas entendo suas prisões, trago os grilhões que os dominam

E o desejo de quebrá-los ainda em tenra idade

 

Mas por que não posso? Por que retorno aonde sou cativo?

Onde alimento a falta das coisas que não tenho

Do que senti perder-se em sonhos e desejos

Que sempre insistem em partir intransigentes


 

20

Eis o vale da morte, miserável estepe de rios degradados

Onde o destino distraído veio guiar meus passos

Onde o tolo incauto sem saber a sorte arrisca

Onde o abnegado insano ao labor se entrega

 

Sobre estas terras sujas de lixo e sangue

Me entreguei sem medo ao destempero dos combates

Não por seus filhos ou por suas mães que ainda choram

Mas por mim e pela virtude que no tempo se perdia

 

Corações covardes, como vós amei quando em pouco acreditava

E se hoje o meu sangue oferto por esta luta inglória

É pra fazê-lo correr por algo que o valha

É para vê-lo colorir o que é sem cor e sem vida

 

E aos desgraçados a quem rendo o sacrifício

Se de tudo que lhes oferto é pouco

Pensai que sem o pouco o que me resta é nada

É sobretudo mais do que um dia me deixaram


 

21

Covarde homem que trás às mãos a vingança entre carinhos

Miserável coração, temeroso da paixão que já sentira

Não escolhi meu medo e trazia inda ao peito a ira que ardia

É uma terra infértil, onde nada nasce, nada mais se cria

 

Caminhei assim por terras embrutecidas pela mágoa que nutria

Para molhar-me em lágrimas, não sem antes saciar-me entre feridas

Cobrar o mal que me fizeram, impor a mim outra dor que me ferisse

Remediar glórias do passado, merecer penas que me esperam ainda


 

22 Reikjavic

Não importa onde, mas com certeza um dia

Nova York, Londres, Reikjavik

Não tardará, eu sei e você disse

Esperança nossa, alegria minha


 

23 Hoje é o dia

Hoje é o dia

Sorrimos e choramos a sua espera

E ele é chegado

Muitas promessas fizemos até aqui

E quantas promessas ele hoje nos faz!


 

24 Eis o momento

Este sim é o momento

A que todas as horas ambicionaram

E dirigiram esforços, e conspiraram

Para juntas construírem este agora


 

25

Mas um convidado que se vai

Ainda não é noite, mas alguns já partiram

Nos lembrando que não há hora certa para ir

 

Então mais uma vez retornamos

A este mesmo jardim de onde nos despedimos

Daqueles que não deveriam partir

 

Mas de nada importa onde estamos

Caem as flores e o canto dos pássaros os ventos levarão

Essa é a única certeza que guardamos


 

26 Beduínos

Esconde-se entre dunas de areias inférteis a mais odiada cabana do deserto

Eis meu abrigo, o recinto frio onde foragido me recolho aos versos

Onde delicio o gosto amargo do degredo, a humilhação de saber-me desonrado

Ao trair juramentos e amigos, seduzido pelos envolventes prazeres do pecado

 

Sou hoje um renegado, que dentre os próprios renegados foi banido

Dos mercenários que infectam o deserto, da horda que me acolhera como filho

Pois eu os traí, traí seus deveres: a proteção ao mais vil dos beduínos

E sua preciosa jóia, que em segredo como escrava a escondia

 

Sim, eu te furtei, ganancioso beduíno, como tantas vezes tu fizeste

Com riquezas da Magreb, com desgraçadas famílias da Ibéria

Mestre da infame caravana, ousaste medir a pureza pela prata

Enquanto o cobre, por pouco que fosse, o teu valor excederia

 

Desde então deu-se o exílio, me fiz chacal entre dunas escondido

Desonrado, a espada que trago às mãos desmerecida

Meu nome ultrajado, o preço que paguei por possuí-la

Linda menina, olhos de rubi: tudo eu abandonei por ti, e tudo eu faria novamente!


 

27

É inverno no coração do homem e muitas estrelas já não brilham

Há desejos frustrados, ainda não cansados de tentar

Insistem em florir flores que secaram, insistem em sorrir

Homens ocupados, de tarefas muitas, de sonhos distintos

 

Caminhei por trilhos que já foram pares a cantar

E a tarde assim se vai, vem a noite e estarei aqui ainda

Como sempre estive, como sempre pensei que poderíamos

Nobres amigos, companheiros de sonhos infinitos

 

Cresce a cidade e há concreto de onde pássaros partiram

Seus ninhos restam desconsolados e choram seus filhos

Enquanto durmo neste leito de penas umedecidas e rancor

Aguardando um frio, mais vazio que o inverno que ficou


 

28 Dedicatória

Dez anos se passaram

E a mulher que um dia amei ainda é jovem

Ainda é bela, ainda é doce e ainda a quero

 

Mas jaz meu coração equivocado pelos bares

Já não escreve os versos que a merecem  Já não lhe escrevo os versos que merece

Já não merece /ço a inspiração de outros amores

 

Mas sigo fiel a minha promessa, no entanto,

E cada página deste livro guarda esta verdade

Que jurei levar comigo, aonde quer que eu fosse


 

29

Linda rosa de caprichos muitos

Ë teu direito todos eles saciados

Foi meu desejo a todos atendê-los

E minha vergonha não tê-los compreendido


 

30 Carnavais

Sonhos quiseram ser unidos, mas não foram

Sucumbiram a prazeres que se expiram numa noite

Que inspiram e fascinam, sem significarem nada

 

Mas que estranho delírio, que fascínio sórdido!

Por quais caminhos enveredamos por segui-los?

Para ousar jogos que desconhecemos, que não precisamos

 

Veja a que enganos nos atemos sem sentido

Para o desejo mais sincero fazer-nos fracos

E ao instante que nos uniu denominarmos erro

 

Foram estas as escolhas que fizemos

Eis aonde o orgulho nos levou:

Nos feriu e nos magoou, sem lucrarmos nada!


 

31 Coveiros

Quanta dor após a última despedida

Nesta terra repartida entre silêncio e mármore

Velada pelo arder de velas e saudade

Reforçando a certeza, a última certeza que virá

 

Coveiros, homens fortes e sem medo

Que a cada dia enfrentam aquilo que tememos,

Sabem que ainda hoje voltaremos aqui

Para cobrar-lhes um último trabalho

 

Segue o cortejo lastimoso de famílias

Entre flores habituadas a consolar seu choro

Flores melancólicas que, assim como nós,

Também esperam pacientemente pelo fim

 

Descansa, então, amigo, que ainda hoje estarei contigo

Eles compreendem, eles estavam aqui e viram

Mas nada dizem, não que o precisem, mas eu sinto e sei

Porque sou homem, mas já fui perda e serei saudade


 

32 Ledo Engano

Entendo o jovem que na noite busca sonhos

Mas lamento pela menina que procura amor

Ambos incorrem no mesmo erro

De buscar às sombras o que nos dias lhes escapa

 

Como vós, em meio a fumaça e luzes de néon,

Me perdi sob estrelas, entorpecido

Por drogas e sonhos, por álcool e mentiras

Alimentando uma verdade que não quero minha

 

Eis o delírio que não mais preciso, que já nem suporto

Mas enveredo por estes enganos a desfrutar de um vício

Tão vazio quanto o tênue limite que me escapa

Entre o incerto vai e vem de copos e gemidos


 

33

Chaga aberta que não cicatriza de forma alguma

Vazio que quer ser preenchido, mas não pode

Tudo que resta aqui é uma ausência desconfortável

Ausência que você deixou e que ocupa quase tudo

 

Fecho as janelas desse salão ornamentado que é meu peito

E nesse vazio ergo as imagens do que desejo e não possuo,

Dos delírios e lágrimas que me permito envergonhado e desditoso

Resignado com o pouco que posso acreditar e que me mata

 

Ah, esse salão vazio! É pouca a oferta de dedicar-lhe a vida?

Eu ergo um altar em teu nome onde deposito flores e sorrisos

Flores que hoje nascem mortas, mas lhes concedo meu suor ainda,

Minhas lágrimas, a solidão e mesmo o amor que me iluminar um dia



 

Chaga aberta que não cicatriza de forma alguma

Vazio que quer ser preenchido, mas não pode

Tudo que resta aqui é um a ausência desconfortável

Ausência que você deixou e que ocupa quase tudo

 

Fecho as janelas desse salão ornado que é meu peito

E nesse vazio ergo diferentes imagens do que desejo

De delírios e lágrimas que me permito envergonhado ainda

Resignado com o pouco que posso acreditar sem ser verdade

 

Ah, esse salão vazio! É pouca a oferta de dedicar-lhe a vida?

Eis o altar em teu nome onde deposito flores e sorrisos

Rosas que nasceram mortas, mas lhes dedico meu suor ainda

Estas lágrimas, minha solidão e todo amor que me iluminar um dia.

 

34

A cicatriz que traz aos lábios: a certeza de ver um anjo

Porque os imortais entre os que caminham não se ferem

E a dor que os perturba não deixa marcas em seu rosto

 

Caprichoso destino! Quis privar-nos da perfeição das formas

Escondida, hoje a rosa traz ao seio uma pétala partida

Que em nada compromete sua beleza, que em nada prejudica

 

- Não te envergonhas do divino traço que te faz rainha

O sol brilha mesmo à rosa de pétalas partidas

Menos pela beleza de seus traços, mas pelos sonhos que irradia


 

35 Minas

Como é bom no frio dormir aquecido

Passei por Três Rios, subi por Minas, voltei a Passa Três

E não lembro por quantas serras já passei

Por campos e matas, por feiras e estradas

Passei por porteiras, por bois e por boiadas

Lembrei do passado, de sonhos vividos

De dores sofridas e de histórias de amor


 

36

Quanto carinho tive? Quanto carinho tenho?

E do amor, de fato, quanto restará

Escondido sob este imenso mar

Sob um mar de vergonha e um tanto de dor

Um tanto incomensurável de dor

 

Tenho tua lembrança aqui entre rosas

Em um pequeno altar erguido no vazio do meu peito

Mas lá fora impera uma imensidão de tristeza e saudade

Entre as últimas lembranças que restaram

Do legado formidável do seu nome


 

37 Verdades

O sol busca consolo ao fim de cada dia

Leva consigo algumas poucas verdades

Verdades que duram bem pouco

 

Permito-me

Busco no vinho algumas verdades que acredito

E as torno minhas

 

Mas tão logo a aurora, intransigente Senhora,

Esta Dama que a tudo desconstrói,

Revelará as verdades em que os homens acreditam

 

Os homens e as crianças que a tudo temem

Constroem suas próprias verdades

Acreditam naquilo que querem

 

Mas o que sabemos?

Além daquele horizonte está a única verdade em que creio

Mas virá um dia com um amanhecido céu já sem estrelas

 

Mas eles acreditam que sabem,que entendem

Que conhecem o mar, que conhecem o lavradio

Ou mesmo aquilo que houve em meu coração um dia

 

Agora sinto que pouco sei das coisas que pensava que sabia

Tão pouco sei e a cada dia menos

E hoje isso não é nem bom nem mal


 

38 Salões vazios

A quem pertence este salão?

Seu colorido hoje não diz muito

Mas quantas vezes disse tanto!

 

Não se escapam sorrisos de meus lábios

Não carregam mais sentido meus olhares

Já não há mais sonho

 

Sou pequeno e volto a ser humano

No pouco espaço que a natureza me permite,

Que me restou quando se foi a poesia

                                                 

 

39 Poeta

Sou poeta, sim, de sentimentos muitos

E amo a cada flor que me rasgou o peito

Amo minhas dores, meus amores, meus lamentos

E o que mais me permitir o verso


 

40 Não posso sorrir

Já não posso sorrir

O pássaro adoecido não voa

E a árvore seca não consegue florir

 

Mas ainda tenho forças p`ra cantar

Canções que há muito estavam guardadas

E que precisarei cantar novamente

 

Canções de amargura, de tristeza, de saudade

Convivas à mesa dos bares

Amigas que nunca me deixaram


 

41 Um breve momento

Um breve momento antes do torpor do adormecer

Muito similar ao que há entre a consciência e o despertar

Um efêmero instante que o ser humano não sabe precisar

Quando os oceanos não são tão vastos

E os sonhos, não tão difíceis

Ali sei que estamos juntos, todos os dias sim


 

 


 

42 É teu este salão

Canta e delira, é teu esse salão

E nele ninguém dança como tu

Como o pássaro que há pouco aprendera a voar

Que delira com o vento que perpassa suas asas

Que saboreia a envolvente tempestade de amar

 

É teu esse salão, mas tantas outras mãos querem dançar!

(Mas não dançam como tu, jamais dançarão!)

Jamais se envolverão nas asas incandescentes com que sabes voar

Sim, sem dúvida é teu esse salão

Mas o que faço aqui sem a permissão do teu sorrir?

 

Terra sem dono, sendero de ilusões

Já não danço as músicas que te encantam

As que sabes cantar, as que me embalam o peito

Peito que me mata e sangra quando se apaga este salão

Peito rico de saudades, delicado presente que te oferto envergonhado



 

43 Vou tentar

Vou tentar não te amar mais que a mim mesmo

Nem fazer promessas, nem juras apaixonadas

Tentarei ser civilizado, comedido, comportado

E por limites a sentimentos sobrehumanos

 

Tentarei lutar contra impulsos loucos

De um coração  que quer dar mais do que tem

De um amor que quer amar mais do que pode

Que se crê eterno, infinito e poderoso

 

Tentarei pensar que não és uma rainha

E que teus defeitos não podem ser virtudes

Que não és única e que existem muitas

Ainda que não as conheça (queira), que jamais as veja

 

Prometo manter meus sentimentos sob controle

E só viver o amor moderno, gentil, civilizado

Que não assusta, que não machuca, e que seja amor

Mas não o amor a que o amor aspira ser.

 

DEDICATÓRIA

Dez anos se passaram
E a mulher que um dia amei ainda é jovem
Ainda é bela, ainda é doce e ainda a quero



Mas jaz meu coração equivocado pelos bares
Já não lhe escrevo os versos que merece 
Já não mereço a inspiração de outros amores



Mas sigo fiel a minha promessa, no entanto,
E cada página deste livro guarda esta verdade
Que jurei levar comigo, aonde quer que eu fosse



COVEIROS

Quanta dor após a última despedida
Nesta terra repartida entre silêncio e mármore
Velada pelo arder de velas e saudade
Reforçando a certeza, a última certeza que virá



Coveiros, homens fortes e sem medo
Que a cada dia enfrentam aquilo que tememos,
Sabem que ainda hoje voltaremos aqui
Para cobrar-lhes um último trabalho



Segue o cortejo lastimoso de famílias
Entre flores habituadas a consolar seu choro
Flores melancólicas que, assim como nós,
Também esperam pacientemente pelo fim

Descansa, então, amigo, que ainda hoje estarei contigo
Eles compreendem, eles estavam aqui e viram
Mas nada dizem, não que o precisem, mas eu sinto e sei
Porque sou homem, mas já fui perda e serei saudade





© 2013 Igor Anatoli                                   Created at Razzoit Studios - Berlin, Germany.     

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