
Igor ANATOLI
Trechos de livros e trabalhos do autor
CARTAS MANCHADAS DE LÁGRIMAS
ISSO NÃO É UM PEDIDO DE DESCULPAS
Isso não é um pedido de desculpas. É uma revelação de quem voltou a viver, porque eu estava morto. Se a morte é o fim de tudo, então eu morri duas vezes e em duas vezes eu conheci o inferno. Foi uma semana sem ver a luz do sol. meu rosto inchado, você se lembra, eu o sentia explodir. Os médicos não entendiam aquela doença e a febre tornava o frio do sul ainda mais insuportável. Os médicos não entendiam,mas eu sei o que estava acontecendo.
Quão pequeno foi o castigo de meu corpo naquela semana se comparados aos outros tormentos. Os delírios, talvez fosse a febre, talvez fosse a verdade. Terríveis verdades, culpa, remorso, vergonha. Foi tudo o que restou no lugar de sonhos que desabaram. Tudo se perdeu, nada mais restou senão um presente vazio e sem sentido. Nada alem das certezas dos erros que cometi. Erros cruéis. Cruel como pode a inconseqüência ser cruel e desumana.
Com certeza eu estava morto e aquele quarto de hotel foi o inferno onde a doença me manteve cativo por uma semana. Aprisionada sozinho naquela cela, todas as mentiras se desfizeram e não havia nenhuma das minhas drogas baratas para me enganar. Só restou a verdade, uma terrível verdade que eu não queria enxergar.
Foi esse o inferno que eu não te deixei conhecer. Ainda lembro a dor de meu rosto e o desejo de batê-lo contra a parede. Não adiantou. Nada adiantou e eu soube não ser tão forte. Então eu desisti e voltei para o Rio de Janeiro logo depois. Dessa vez eu não consegui fugir, mas continuei me enganando sabendo que tudo que eu vivia era uma grande mentira. Aquele albergue não era um lar. Aquelas pessoas ali não me respeitavam e o pior era imaginar que talvez sequer o meu amor fosse verdade.
Drogas, álcool, mulheres e falsos amigos... eu me deixo enganar muito fácil. A cabeça ocupada em futilidades e eu mundo de deprimentes fantasias não ia alem do quarto sujo daquele albergue. Você foi lá me visitar. Luz. Luz com certeza você foi. Já amor... amor ou desespero? Do que mais se servia meu inconsciente para tirar-me dali? Tirar-me do estado deplorável a que um homem pode chegar quando tudo perde, até a própria moral.
Não me condene por isso. Não me condene se a esse desespero eu chamei amor. E ele era infinito porque infinitamente pequeno eu estava e você era tudo. Você era tudo para um homem que nada tinha, nem mesmo a própria vida e talvez esse desespero seja bem maior que o amor. Obrigado por não ter sido tão tola quando eu fui. Obrigado por seu amor comedido, civilizado. Seu coração sereno abriu espaço nesses dias para um amor maior que estava por vir.
Foi ao teu lado que eu voltei a ser feliz e depois de Berlim eu decidi voltar a viver. Depois de Berlim eu comecei a viver novamente e novamente pude sonhar. Foi teu amor que me trouxe de volte e sobre este amor eu ergui os alicerces do que hoje me é realidade. Tudo aqui se fez por ti e é teu amor a que tudo dá sentido. E não me julgue tolo por acreditar nisso. Há pessoas que vivem por dinheiro, pessoas que vivem pelo poder. Eu escolhi viver para o amor e se eu estiver errado morrerei outra vez, porque meus castelos cairão por terra e o mundo maravilhoso que eu conheci não mais existirá. Tudo estará perdido e eu não conheço outra palavra que isso defina senão o morrer e valará a pena morrer por você porque foi você quem me ofereceu uma nova oportunidade de viver.
Por isso hoje me permito as juras que outrora evitei: amo-te e meu amor é infinito e será para sempre. Amo-te e te juro amar como você acreditou que poderia nos dias mágicos em que esteve comigo. Juro como Deus a todos os homens permite jurar, ainda que se enganem, e eu sei que você me entende porque o divino te tocou o peito com as mesmas palavras e um incompreensível desejo de dizê-las.
Isso não é um pedido de perdão. É antes uma declaração de amor. Já não preciso de drogas, Já não preciso de mentiras. Hoje eu vivo um sonho e meu mundo tem as suas cores. E meu mundo terá as formas que você desenhar. Obrigado pelas cores suaves e por seu amor infinito. Nada aqui é civilizado. Nada!
JOICE FARIAS
Escrevo-te, querida Catarina, porque a nostalgia me é companheira fiel e hoje ela pergunta por teu nome e não tenho respostas. É noite e o aroma do incenso perfuma minha sala com sabores que eu desconhecia e tu me ensinaste a apreciar. Ensinaste-me tantas outras coisas e, como sei que o desconheces, aqui me proponho a contar-te sob a doce inspiração de tuas lembranças.
Lembra-te daquela noite na Lapa quando pela primeira vez te vi? Éramos dois pássaros a voar pela noite sem destino, alegres pela liberdade que saboreávamos através de luzes e cor de um Rio de Janeiro que nos deslumbrava em demasia. Admirei-me com tua coragem de fazer-se livre. Quisera seguir-te por este vôo rasante a que te lançaste com a ousadia de não ter trabalho, amigos e sequer moradia. Já eu, mais covarde, deixei aprisionar-me com o pouco que me permitiam. Confessei-te certa noite essa minha admiração por ti. Falei do desejo de encarar a vida no intento de vencê-la e dominá-la, mas a comodidade segura que aparentava a redoma que protegia minha ilha era suficiente para convencer-me a perseverar na covardia. Quão caprichoso é o destino, menina! Expulsaram-me da ilha, tu bem o sabes. Lançaram-me num mundo hostil de mãos vazias e eu tive que enfrentá-lo. Quisera que estivesses aqui para ver de perto como lutei e domei-o, para ver como aprendi a voar um vôo muito semelhante ao teu.
Creio que terias orgulho de mim, cara mestra, como o irmão mais velho se orgulha do caçula que lhe segue os passos. Era dessa forma que eu te enxergava: como uma irmã mais velha. Sobretudo nos meus dias de lamentação quando tu, como é próprio dos irmãos mais velhos, não te interessavas tanto por meus lamentos. Ainda assim eu queria ajudar-te junto aos teus, em qualquer coisa. Sentia-me feliz quando conseguia arrancar sorrisos de teu rosto, mas, em alguns dias, sei que isso era impossível. Acredito que fosse da tua natureza e em meu atrevimento de tentar alterá-la por vezes te irritavas comigo. Mais ninguém se irrita comigo nos dias de hoje, sabes?! As pessoas me dizem obrigado e o teu diferente te fez única no mundo.
Hoje, por tua causa, eu gosto mais de Copacabana e a esta praia me parece tua. Aquelas areias ali, à noite, só existem para que tu corras sobre elas, mas tu já não corres e elas se fazem frias por isso. Uma vez por semana eu me aventuro a correr por lá e corro só e lembro que outrora correste comigo. Ou melhor, corri contigo, porque correste bastante para deixar-me cansado, como me cansava de tuas comidas saudáveis que hoje me surpreendo preparando-as. Permito-me inclusive ler sobre astrologia e perguntar o signo das pessoas como tu fazias e eu te criticava. Criticava tuas manias fúteis porque tu me eras por demais complexa para se ater a futilidades e com teu despojamento característico tu me disseste sem tirar os olhos da revista de horóscopos: “não se deve ser profundo o tempo todo!” Tu és mulher o suficiente para ser segura quanto a isso e te ver com a grandeza das pessoas seguras de si me fazia parecer menino ao teu lado, mas tu não me deixavas sozinho em minha meninice porque te revelavas por demais criança e ainda mais faceira quando algo te alegrava. Era assim quando ouvias tecno e embalava teu monopasso dançante que nunca vi ninguém repetir e creio que jamais verei.
Lembro-me desta criança entristecida a muchar-se como murcha uma flor quando te disse que eras só uma faxina para o canadense que não te guardava os fins de semana. E te fui grato por compartilhar comigo tua alegria quando foste promovida a 01. Então passei a gostar dele pelo mero fato de ser teu amado. Amor que quando da tua mudança para o Flamengo explicaste-me e ainda hoje me serve de parâmetro e se ergue em oposição aos amores fugazes e impetuosos da juventude. Obrigado, querida irmã, pelo segredo de serenidade que me ensinaste; obrigado por fazer-te fã dos versos que eu teimava em esconder e convencer-me de que deveriam ser mostrados; agradeço pelo computador, que destruí, mas que valeu-me um livro; agradeço pelo significado que legaste as ondas de Copa e as prostitutas da Lapa; obrigado por tudo, Flor Açoriana!
Estas declarações te faço no momento errado de fazê-las. Deveria tê-las feito antes de te fazeres distante e eu me arrependo por isso. Tive tantas oportunidades de fazê-las, mas não o podia porque desconhecia estas verdades. Em ti a saudade revelou-me pelo incomodo que a lembrança trazia. Perdoe o demasiado atraso, mas, a despeito dele, insisti para que tu soubesses que guardo com carinho a lembrança de uma amiga que muito estimo. Gostaria que soubesses que em minha casa existe uma garrafa de wisky a esperar por ti. Casa que também é tua e de teu marido e que aguarda a alegria de teus sorrisos e o calor do verão que se perdeu quando partiste.
Beijos e abraços apertados